domingo, 7 de dezembro de 2014

17 - OS DESAFINADOS TAMBÉM TÊM UM CORAÇÃO



Quando eu estava na sexta série, acordava às seis da manhã, enrolava uns cinco minutinhos deitado, e, de uma vez, jogava as cobertas de lado, levantava com os pés no chão frio - embora minha mãe sempre colocasse os chinelos ali na beiradinha pra eu usá-los ,- arrumava a cama e vestia o uniforme da escola na maior escuridão e silêncio possíveis – meu irmão ainda dormia. Do quarto eu ia pra cozinha, ligava a televisão em preto e branco pra ver as aulas do Telecurso 2000, e enchia um copo de leite puro, que eu bebia de um só fôlego, pra não sentir o gosto, o qual eu fazia questão de anular qualquer resquício indo direto pro banheiro escovar os dentes. Em seguida eu enfiava a cabeça debaixo da torneira, enxugava os cabelos, e punha-me a penteá-los numa arte demorada que só finalizava com a montagem do topete com gel. Com a camisa um pouco molhada e achando que o topete ficara ou grande ou pequeno demais, eu ia pra sala e me sentava no sofá para calçar o tênis.

Numa certa manhã chuvosa de março, a aula que passava na TV era sobre MPB. Dois jovens atores, numa fala mansa, tentavam explicar em quinze minutos sobre a bossa nova. Após breves comentários sobre a batida de João Gilberto, um deles pegou o violão e começou a cantar “Quando eu vou cantar, você não deixa / E sempre vem a mesma queixa...”. Aquela música era estranha. Nunca ouvira aquilo. Meus ouvidos estavam acostumados apenas às músicas da rádio e ao som sertanejo que meu pai colocava em fita cassete no carro. No entanto, nesta época, eu também já ouvia algumas músicas sinfônicas de Bach, Beethoven, Mozart, Chopin e Tchaikovsky – eram os cinco CDs que eu tinha na minha estante. Mas aquela música era brasileira, era a música mais estranha e bonita que eu já conhecera. Naquele dia, ladeado pelo meu irmão, eu fui pra escola muito mais feliz do que costumava ir, assobiando a melodia enquanto eu caminhava.

Os próximos dez anos eu passaria escutando e pesquisando a música europeia dos séculos XVII ao XIX, que muito me agradava, encantava e surpreendia. Evidentemente acabei tendo contato com os grandes mestres brasileiros da música orquestral como Villa-Lobos, Guerra-Peixe, Camargo Guarnieri, Claudio Santoro e Francisco Mignone. Acontece que estes eram artistas da primeira metade do século XX, criadores de um som um tanto moderno, experimental, confuso para os meus ouvidos clássicos e ao mesmo tempo infantis. Confesso que eu não os admirava; não os admirava porque eu não conseguia entendê-los, assim como não entendia os compositores europeus do século XX como Mahler e Stravinsky, que me causavam desagradáveis arrepios.

Morando já em Brasília, e com muitas terças-feiras de comparecimento aos concertos gratuitos do Teatro Nacional, eu vivia tempos pós-universitários, amargando o desemprego, a falta de grana e os estudos sofríveis para concurso público. No cursinho acabei conhecendo uma moça de uns 20 anos, linda!, que tocava flauta com muita elegância. Estudávamos juntos na biblioteca após a manhã de aulas. Ela era bem inteligente e prática, o que lhe facilitava aprender rápido a matéria e acertar um grande número de exercícios. Eu tentava acompanhá-la e era bom em explicar aquilo que ela não tinha entendido muito bem – ou fingia não ter entendido. Enfim, logo estávamos indo além dos estudos e, quando o estresse e a pressão da aprovação se tornavam insuportáveis, permitíamo-nos ir ao cinema, a algum barzinho e aos concertos juntos. Primeiro íamos com outros colegas, mas logo concluímos que éramos mais felizes só nós dois. Algumas semanas assim renderam o primeiro entrelaçamento de dedos, abraços de despedida mais demorados, sorrisos de reencontro mais alegres, um primeiro beijo.

Eu queria aquela mulher pra mim. O dia dos namorados estava chegando e planejei pedi-la em compromisso naquele dia. Além das flores vermelhas, que são de lei, ainda tinha o presente, pra convencê-la da minha intenção no longo prazo. Reuni todas as minhas moedinhas, deixei de viajar naquele mês em visita a meus pais, e comprei um DVD do qual ela me falava há muito tempo, ao qual juntei também uma caixa de chocolates Kopenhagen. Pronto, agora eu estava seguro que a surpresa seria boa e ela não poderia me dizer não.

Era 12 de junho de 200..., segunda-feira, e ela não apareceu no cursinho. Nem no dia seguinte. Nem na semana seguinte. Dez dias depois ela retorna às aulas com um anel na mão direita. Um tanto sem graça, chorando, ela me explica que um amigo dos tempos de conservatório lhe reaparecera com uma canção composta para ela, convidando-a para acompanhá-lo no fim de semana no Festival de Inverno de Campos do Jordão, onde a música concorria a uma premiação. Ela diz ter pensado muito na proposta, mas acabou indo. A música não foi bem classificada, mas ele ficou com meu prêmio. Nunca mais estudamos juntos; joguei fora o resto das flores, que eu ainda guardava; comi todos os chocolates em menos de uma hora e arremessei o DVD no fundo de uma gaveta. Só me restava estudar.

E estudei! Foram quatro meses intensos até a realização do Concurso do Tribunal Regional Federal. Não passei. Larguei o cursinho – ela já nem mais estava lá, porque fora aprovada em outro concurso meses antes. Passei alguns dias no escuro, comendo sorvete, assistindo a várias temporadas desses seriados americanos. Quando decidi retornar à velha rotina, diante de nova motivação pelo lançamento de um edital com excelente salário, tirei uma tarde pra arrumar meus papéis e livros e apostilas. Em meio àquela bagunça encontrei o DVD que me custara as economias do primeiro semestre. Eu não ia jogá-lo fora. O sentimento que me arrasara e causava repulsa a tudo o que me lembrava ela já havia passado da sua fase mais crítica, de modo que me foi possível tirar sem raiva o plástico da capa do DVD e colocar para assisti-lo.


Uma tia minha diz que um amor antigo só se cura com um novo amor. Disso concluí que eu nunca fora o amor daquela que eu parecia ter amado; descobri também que o novo amor não necessariamente precisa ser outra pessoa. Eu estava então novamente apaixonado, e o objeto da devoção da minha alma era a Música. Jobim Sinfônico era o DVD que eu comprara para ser a trilha sonora daquele dia dos namorados. Não foi. Tornou-se a trilha sonora da minha vida. Tom Jobim tornou-se o meu maestro soberano. 

Eu deveria ter voltado a estudar com a determinação e disciplina de sempre no dia seguinte, mas não consegui. Fui para a biblioteca da universidade, sentei e comecei a ler as páginas de Direito Constitucional, Administrativo e Tributário, mas logo Lígia me entrava pelo ouvidos. Luiza, Teresa e Ângela também, sem falar nos passarinhos e correntezas de rios que me arrastavam para bem longe do rigor dos concursos. Durante semanas travei uma luta de concentração entre a Arte e a Ciência, a Música e o Direito. Venceu a beleza das melodias. Passei a ir para a biblioteca não para estudar para concurso, mas para ler tudo o que eu podia sobrea música do Tom. Mas esta disciplina é tão vasta quanto qualquer direito, pois na fonte de Jobim bebeu a maioria dos músicos brasileiros que lhe sucederam. Se Tom Jobim fosse grande apenas na música, já lhe seríamos todos imensamente gratos. Mas como todos os homens que são grandes em sua arte, Jobim também foi grande em sua vida. E foi em entender a sua humanidade que eu pude entender a sua música, a ponto de não achá-la apenas a mais bonita música brasileira; a música de Tom Jobim é a mais bonita música da Natureza.