quarta-feira, 12 de abril de 2023

35 - CORAÇÃO DAS TREVAS

 


O melhor da literatura inglesa no final do século XIX foi produzido por estrangeiros: os americanos H. James e T. S. Eliot; os irlandeses B. Shaw, O. Wilde, e Yeats; o polonês J. Conrad. E o que Conrad Samuel Beckett, Emil Cioran, Vladimir Nabokov e Chinua Achebe têm em comum? São autores que escreveram grandes obras num idioma diferente do seu próprio. Dentre todos os autores listados, Conrad, no entanto, foi o que primeiro ousei ler – mas não consegui.


Dez anos foram precisos para ultrapassar as seis primeiras páginas de Coração da Trevas de J. Conrad. Mas depois que as venci, depois que deixei as brumas das margens do Tâmisa e ganhei a foz do caudaloso rio Congo, fui progredindo na leitura como Marlow subia esse rio-serpente em busca de Kurtz. Se vocês conhecem a história, sabem que não foi uma viagem fácil, assim como não foi fácil a minha leitura. Mas aquelas seis primeiras páginas foram, durante uma década, quase impossíveis para mim. Virá-las foi como um rito de passagem para um nível mais elevado de literatura. Elas foram o vestíbulo escuro e assustador para colocar-me diante das verdadeiras portas do inferno. E então, como eu conseguira chegar lá, o jeito foi abri-las e abandonar qualquer esperança que eu tivesse. Entrei.

 

Pela criteriosa busca das palavras, construção das imagens e lapidação das frases, o livro não poderia ter mesmo mais que 120 páginas - perfeitas. 120 páginas difíceis de vencer porque estruturadas numa prosa densa e cinza; sensorial e psicológica. Em poucas sentenças Conrad consegue descrever os contornos de um cenário selvagem que, simultaneamente, narra como símile as aventuras psicológicas dos personagens. A prosa é poética e enevoada dos estilos literários impressionista e simbolista, o que, muitas vezes, nos deixa confusos – deixa mesmo. Assim, não conseguimos sobreviver a uma longa sessão de leitura sem que o cérebro sue ou o coração endureça e, ao mesmo tempo, que a alma sorria meio constrangida e meio aliviada de ser descoberta por identificação com toda a crueza da humanidade que nos é apresentada.

 

Crueza que parece ter corrompido o super-homem Kurtz, mas a qual o espírito de Marlow conseguiu resistir. Talvez tenha sido dessa maneira porque este, assim como Conrad, teve uma curta temporada na selva tenebrosa. Kurtz já estava lá há anos e foi possuído. Morreu. Mas morto, já nos tinha dado a conhecer o essencial de si – não pela sua própria boca, mas pela dos outros, porta-vozes enfeitiçados por sua personalidade mitológica. É tudo desse jeito, meio sugerido, meio duvidoso, meio irreal, indigesto, mas verdadeiro e belo, como no trecho a seguir:

 

“Então, ao olhar para baixo, vi um rosto próximo da minha mão. Os ossos negros completamente prostrados com um ombro encostado na árvore, e, aos poucos, as pálpebras se ergueram, e os olhos fundos me encararam, enormes e vazios, uma espécie de chama cega e branca nas profundezas das órbitas, que se apagaram lentamente. O homem parecia jovem – quase um garoto – mas vocês sabem que é difícil afirmar isso. Não encontrei nada a fazer além de lhe oferecer um dos biscoitos do navio do bom sueco, que eu havia guardado no bolso. Os dedos se fecharam vagarosamente sobre ele e o seguraram – não houve nenhum outro movimento, nenhum outro olhar. [...] Perto da mesma árvore outros dois amontoados de ângulos agudos, estavam sentados com as pernas para cima. Um deles, com o queixo apoiado nos joelhos, observava o nada de maneira intolerável e apavorante: seu espectro irmão descansava sobre a própria testa, como que arrebatado pelo próprio cansaço; e todos os que estavam em volta se espalhavam com poses de colapso contorcido, como uma pintura de massacre ou pestilência. Enquanto eu ficava ali parado e horrorizado, uma dessas criaturas se apoiou sobre as mãos e os joelhos e foi de quatro beber água no rio. Usou a mão, em seguida sentou-se sob o sol, cruzando as canelas na frente do corpo e, depois de algum tempo, deixou a cabeça lanosa desabar sobre o tórax.” (Coração das Trevas, pp. 45-46).

 

Uma obra como esta não nasce apenas da imaginação. Conrad a viveu. Esteve no Congo em 1890, mas em vez de lá permanecer por 3 anos, suportou apenas 6 meses, voltando enfermo e com a necessidade de colocar a experiência no papel. Ele então planejou um volume de contos composto pelos livros Juventude, Lord Jim e Coração das Trevas.

 

Eram os tempos do Estado Livre do congo, uma propriedade privada de 2 milhões de quilômetros quadrados, reconhecida pela Conferência de Berlim (1885), pertencente ao rei belga Leopoldo II. Aí houve um dos maiores genocídios da história. Morreram tantas pessoas – 8, 9, 10, 11 milhões? – quanto aquelas que morreram no tráfico de escravos africanos dos séculos XVI ao XIX. Morreram de fome, em pequenas guerras detonadas pelo colonizador, morreram escravizados, pela desestruturação da sociedade milenar e pela destruição da floresta e dos rios. Morreram pelo marfim, pelo ouro, pela madeira, pelos seringais. Mataram o coração da África para que a Europa da belle époque brilhasse. O horror, o horror! A obra é, em parte, uma denuncia contundente do neoimperialismo europeu.

 

Mas como a prática nunca cessou, porque os sistemas políticos e econômicos se retroalimentam dela, é sempre revisitada em novos imperialismos como o norte-americano no Vietnã (1955 – 1975), no Iraque (2003 – 2017) e no Afeganistão (2003 – 2011); o soviético no Afeganistão (1979 - 1989); e o russo na Ucrânia (2014; 2022). Mas a essa violência sempre sobrevém novas denuncias e Coração das Trevas inspirou muitas delas. É o caso do filme Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola, que, como no livro, conta a jornada em um barco (Erebus) de um narrador contemplativo (capitão Willard) na busca por um homem de valor, porém agora corrompido (coronel W. E. Kurtz); a destruição de um povo (vietcongues) causada por outra “civilização”; a descoberta do pior do humano.

 

Ao final do filme, o coronel W. E. Kurtz cita os versos de Hollow Men (Os Homens Ocos) de T. S. Eliot que, por sua vez, utilizou a frase “Mistah Kurtz – he dead” como epígrafe desse seu longo poema. Acredito, porém, que o trecho abaixo seja ainda mais inspirador:

 

“Mas a selva o descobrira cedo, e realizara nele vingança pela fantástica invasão. Imagino que lhe sussurrou coisas sobre si mesmo que ele desconhecia, coisas das quis ele não tinha nenhuma noção até se aconselhar com essa solidão profunda - e o sussurro se provou irresistivelmente fascinante. Ecoou de modo ruidoso dentro dele, porque no âmago ele estava oco...” (Coração das Trevas, pp. 104-105).

 

Kurtz é um desses homens ocos, um mito, um “elmo cheio de nada”, como escreve Eliot:

 

Nós somos os homens ocos

Os homens empalhados

Uns nos outros amparados

O elmo cheio de nada. Ai de nós!

Nossas vozes dessecadas,

Quando juntos sussurramos,

São quietas e inexpressas

Como o vento na relva seca

Ou pés de ratos sobre cacos

Em nossa adega evaporada.

 

[...]

 

Assim expira o mundo

Assim expira o mundo

Assim expira o mundo

Não com uma explosão, mas com um gemido.

 

Assim, gemendo, passei dez anos até conseguir ler este livro fundamental; assim também o termino.

segunda-feira, 3 de abril de 2023

34 - A ARTE NA GUERRA

 



“O que seria da vida

se não tivéssemos coragem

de tentar alguma coisa?”

(Vincent van Gogh)

 

A arte empodera porque liberta e confere formas sedutoras às ideias até então silenciadas em nossas mentes anestesiadas. A beleza criada pelo artista desperta os demais do torpor. A liberdade abre as portas do ser para que se tenha a chance de ser o que realmente se é. E o que é por inteiro não abaixa a cabeça para ninguém, seja pai, mãe, professor, chefe, companheiro, governante ou deus. Isso incomoda numa democracia, porque torna as decisões e ações coletivas mais custosas, lentas, irritantemente negociadas, exigindo concessões, recuos e adiamentos para todos os envolvidos. Fazer política torna-se arte.

 

No Brasil convulso de 2016, em que um vice-presidente ascendeu ao poder após um “golpe de sorte”, ou depois de uma facada nas costas por parte da “base aliada”, uma das primeiras medidas do novo governo foi a extinção do Ministério da Cultura (Minc). O governo era frágil, a resposta do OcupaMinc foi contundente, e a decisão foi revertida em apenas dez dias. Apesar da reviravolta, aquele gesto de intimidação estatal foi um sinal. O sinal ganhou sua forma terrível com a posse de JB, o desprezível, que novamente extinguiu o MinC subordinando-o como secretaria do Ministério do Turismo – era a cultura sendo vendida como mero souvenir de viagem. E foram quatro anos sofríveis para o fomento da arte brasileira até que tudo voltasse ao “normal”, não sem antes testemunharmos a afronta às instituições democráticas da República por meio da destruição simbólica do nosso patrimônio cultural: As Mulatas (Di Cavalcanti), Bailarina (Victor Brecheret), O Flautista (Bruno Giorgi), Galhos e Sombras (Frans Krajcberg), A Justiça (Alfredo Ceschiatti), Muro Escultórico e Painel Vermelho (Athos Bulcão), Painel Araguaia (Marianne Peretti), Bandeira do Brasil (Jorge Eduardo), sem falar na própria estrutura arquitetônica e decoração dos palácios dos três poderes. Que selvagens!

 

Se a liberdade inspirada pela própria cultura nacional incomodou num Brasil que flertava – e ainda flerta - com o conservadorismo neofascista, os bons ares da arte são inadmissíveis num regime despótico. Nos regimes totalitários de todos os tempos, os artefatos artísticos e os poetas são as primeiras vítimas. Na noite de 10 de Maio de 1933, Goebbels ordenou a pilhagem e queima dos livros de Freud, Kafka, Fourier, Marx, Thomas Mann e Bertold Brecht; obras de Klimt foram incendiadas pelos mesmos nazistas; García Lorca foi morto pela ditadura de Franco; na Noite dos Poetas Assassinados, 12 poetas foram mortos a mando de Stálin; Pablo Neruda, amigo de Allende, foi envenenado menos de duas semanas após o golpe dado por Pinochet. No regime despótico russo do século XXI não é diferente.

 

“O bem deve ter punhos

O bem precisa de mão de ferro

Para arrancar a pele daqueles

Que o ameaçam”

 

Na cidade russa de Yefremov, pode-se ler esse poema perturbador num muro coberto de imagens patrióticas da operação militar especial. As letras Z e V adornam outros painéis espalhados por essa cidade russa, onde se encontram fotografias apoteóticas de soldados russos mascarados e armados. Talvez por não ter outra alternativa realista, em abril de 2022, a professora de arte de uma escola localizada nessa cidade orientou seus alunos a produzirem obras que pudessem servir de apoio moral às tropas russas no front. Apesar das atrocidades russas cometidas em Butcha naquela semana, a direção da escola se esforçava para que seus alunos acreditassem “em nós mesmos e em nossa pátria, que nunca erra.".

 

Masha, 12 anos, fez o seu melhor: desenhou uma mãe de longos cabelos negros, braço em riste e mão espalmada, enfrentando com uma expressão corajosa, frente a frente, dois mísseis que vinham em sua direção. Atrás dessa mãe, a filha que lhe dá a mão diante de uma tremulante bandeira ucraniana onde se lê “Glória à Ucrânia”, fincada no solo das férteis e verdejantes planícies ao sopé dos montes Cárpatos; do lado de onde vinham os foguetes, estendida e rota sob cinzas terras degeladas, uma bandeira russa com os dizeres “Não à guerra”; nos céus, se avistam os rápidos e pontiagudos caças Su-34, quase irrelevantes diante  do sol a brilhar bem amarelo, como o olho justiceiro de um deus, sobre a fronteira entre os dois países. O poder emocional e político dessa arte se revela ao sabermos que Masha não tem mãe nem é ucraniana.

 

Em menos de um dia, Masha e seu pai Alexei foram separados. Ela ficou sob a custódia do serviço de proteção à infância e ele da polícia. Menos de um ano após aquele desenho ter sido criado, Alexei foi multado, condenado e preso – “ele que ele estava criando sua filha de um jeito errado”, disseram as autoridades; Masha foi conduzida a um orfanato. A Rússia regride aos tempos do Grande Terror da era de Stálin, quando os filhos de pessoas "inimigas do Estado" eram separados de seus pais. Agora o terror tem o nome de Vladimir Putin.

 

Numa Rússia cada vez mais asfixiada e amedrontada, a órfã Masha não está sozinha na sua luta pela paz. Antes dela, o grupo de punk rock Pussy Riot já fazia suas críticas ao crescente autoritarismo de Putin. Mas após o início da guerra e o aumento da censura estatal, outros tantos artistas russos contrários à guerra estão entrando na clandestinidade, reeditando as exposições secretas dos tempos soviéticos com obras underground de protesto viscerais. É nessas ocasiões que a arte perde seu glamour elitista, seu ar supérfluo e brando, sua função de entretenimento, e se mostra a que realmente presta: revelar a verdade, despertar a indignação, a reflexão e inspirar a mudança.

 

Masha está numa trilha de arte que incomoda, denuncia e sacode já percorrida por Goya, Picasso e Otto Dix. Em Los Desastres de la Guerra (180 – 15), Goya retrata a resistência espanhola à invasão napoleônica. Na esteira miserável da Primeira Guerra, Dix se revoltou com a maneira com que os ex-soldados feridos e aleijados eram tratados na Alemanha. Isto se refletiu nas suas pinturas, que adotavam como modelo aquela série de gravuras de Goya. Em 1937, Picasso pintou “Guernica”, o maior manifesto contra a violência do século XX.

 

Eugène Delacroix nos ensinou que o que anima os artistas “não são novas ideias, mas sua obsessão com a ideia de que o que já foi dito não foi suficiente.” Parece que nada que é dito sobre a infâmia da guerra, a maldade das ditaduras e a covardia da censura é suficiente. Sempre é preciso dizer mais. É preciso dizer sempre, de um modo cada vez mais criativo, eloquente, incontornável. E Masha já fez isso. Deu-nos um novo recado. Em março de 2023, quando o advogado de Alexei chegou ao tribunal para acompanhar a leitura do veredicto, levava outro desenho da filha e uma carta dela onde se lia: "Pai, você é meu herói."

 

Masha, você também é nossa heroína.

 

segunda-feira, 20 de março de 2023

33 - UM REQUIEM PARA O MITO DA CRIATIVIDADE



“Quando sou completamente eu mesmo, quando me encontro sozinho e de bom humor — por exemplo, se estou viajando de carruagem, caminhando depois de uma boa refeição ou sem sono à noite — minhas ideias fluem melhor e com mais abundância. Tudo isso incendeia minha alma e, se eu não for incomodado, o tema em que estou pensando se expande, torna-se metodizado e definido, e o todo, ainda que longo, surge quase acabado e completo na minha mente, de modo que posso analisá-lo com um único olhar, como uma bela pintura ou uma linda estátua. Não ouço em minha imaginação as partes sucessivamente, ouço-as todas ao mesmo tempo. Quando passo a escrever tais ideias, faço-o com bastante rapidez, uma vez que tudo, como eu disse antes, já está acabado e no papel elas raramente diferem do que eram na imaginação” (Uma carta de Mozart, in: Allgemeine Musikalische   Zeitung, 1815).

 

Por décadas se achou que era essa a descrição do processo criativo de Mozart. Só que não. Esse parágrafo atribuído ao compositor é fake. Tanto quanto parece um pouco distante da verdade a cena do filme Amadeus em que é composta sua última música, o Requiem. A realidade da criação artística não é mágica, é árida, é trabalho, exaustivo trabalho – não à toa Mozart morreu aos 36 anos. Como numa barganha fáustica, atingir o ápice da criatividade humana teve o seu preço: uma breve vida.

 

Ainda que as partituras de Mozart, comparadas com as de Beethoven, por exemplo, sejam quase limpas de rasuras, correções e adendos, seu processo dependia revisões, reescrita. Apesar de seu imenso poder imaginativo, isso não o impedia que travasse em determinada peça, ou que fracassasse diante do público de gosto sempre cambiante. Tampouco ele compunha tudo apenas em sua mente, dependendo da presença física do piano e do cravo, onde ele poderia testar a harmonia do ritmo e da melodia que soavam em seu cérebro musical.

 

As sinfonias, óperas, sonatas e concertos não lhe eram dados por Euterpe, a deusa grega da música, em forma de perene inspiração. Tudo foi construído diariamente, durante anos, desde os seus quatro anos de idade. A invenção é um lento processo contínuo, não um salto fantástico. Assim, até o Requiem, foram mais de três décadas de extenuante trabalho apaixonado. A prática deu-lhe a fluência e a rapidez no raciocínio exibidos no vídeo. Mas dificilmente as coisas foram tão fáceis quanto o filme Amadeus sugere. Mozart morreu e sua última obra – fúnebre - ficou incompleta.

 

Todos nós somos criativos, assim como capazes de correr e nadar. Mas não seremos todos nós quem todo dia levantará cedo e se sentará ao piano para praticar e compor tendo em vista o próximo concerto; ou quem correrá 10 Km ou nadará 4 Km todos os dias sonhando com as Olimpíadas. Apesar das nossas potencialidades semelhantes, nossas disposições para o esforço são diversas. Uns podem e querem dar mais. Outros se contentam em apreciar. Tristemente, muitos podem e querem dar mais, mas as condições familiares e sociais as constrangem de tal modo que aqueles que vencem essas barreiras são mais que artistas ou atletas, são heróis. No Brasil, esses heróis ainda possuem uma vida tão ou mais breve quanto a de Mozart. Sacrificamos nosso gênio num prato de comida vazio, numa sala de aula sem professores, num posto de saúde sem médicos, num lar sem pais emocionalmente disponíveis. Mozart não teria sido quem foi sem a dedicação de seus pais. A criatividade precisa ser cultivada, mas é frágil. Cuide bem da sua e daqueles que você ama. Não zombe. Elogie. Seja gentil com a alma do outro  e com a sua. É o que você tem de mais valioso e te acompanhará até o fim, até a última nota do réquiem.