Por décadas se achou que
era essa a descrição do processo criativo de Mozart. Só que não. Esse parágrafo
atribuído ao compositor é fake. Tanto quanto parece um pouco distante da
verdade a cena do filme Amadeus em que é composta sua última música, o Requiem.
A realidade da criação artística não é mágica, é árida, é trabalho, exaustivo
trabalho – não à toa Mozart morreu aos 36 anos. Como numa barganha fáustica, atingir
o ápice da criatividade humana teve o seu preço: uma breve vida.
Ainda que as partituras
de Mozart, comparadas com as de Beethoven, por exemplo, sejam quase limpas de rasuras,
correções e adendos, seu processo dependia revisões, reescrita. Apesar de seu
imenso poder imaginativo, isso não o impedia que travasse em determinada peça, ou
que fracassasse diante do público de gosto sempre cambiante. Tampouco ele
compunha tudo apenas em sua mente, dependendo da presença física do piano e do
cravo, onde ele poderia testar a harmonia do ritmo e da melodia que soavam em
seu cérebro musical.
As sinfonias, óperas, sonatas
e concertos não lhe eram dados por Euterpe, a deusa grega da música, em forma
de perene inspiração. Tudo foi construído diariamente, durante anos, desde os
seus quatro anos de idade. A invenção é um lento processo contínuo, não um
salto fantástico. Assim, até o Requiem, foram mais de três décadas de extenuante
trabalho apaixonado. A prática deu-lhe a fluência e a rapidez no raciocínio
exibidos no vídeo. Mas dificilmente as coisas foram tão fáceis quanto o filme
Amadeus sugere. Mozart morreu e sua última obra – fúnebre - ficou incompleta.
Todos nós somos criativos,
assim como capazes de correr e nadar. Mas não seremos todos nós quem todo dia
levantará cedo e se sentará ao piano para praticar e compor tendo em vista o
próximo concerto; ou quem correrá 10 Km ou nadará 4 Km todos os dias sonhando
com as Olimpíadas. Apesar das nossas potencialidades semelhantes, nossas
disposições para o esforço são diversas. Uns podem e querem dar mais. Outros se
contentam em apreciar. Tristemente, muitos podem e querem dar mais, mas as condições
familiares e sociais as constrangem de tal modo que aqueles que vencem essas
barreiras são mais que artistas ou atletas, são heróis. No Brasil, esses heróis
ainda possuem uma vida tão ou mais breve quanto a de Mozart. Sacrificamos nosso
gênio num prato de comida vazio, numa sala de aula sem professores, num posto
de saúde sem médicos, num lar sem pais emocionalmente disponíveis. Mozart não
teria sido quem foi sem a dedicação de seus pais. A criatividade precisa ser
cultivada, mas é frágil. Cuide bem da sua e daqueles que você ama. Não zombe. Elogie.
Seja gentil com a alma do outro e com a
sua. É o que você tem de mais valioso e te acompanhará até o fim, até a última
nota do réquiem.