quinta-feira, 29 de maio de 2014

2 - LEDUC




Naquele noite eu estava gordo e com os cabelos cada vez mais brancos e escassos. Sem rumo nem horizonte, não tinha planos, a não ser tentar segurar, enquanto ainda desse, a mão da mulher que eu amava. Eu não conseguia andar sem cambalear, sem estar querendo sempre desistir dos projetos mal formulados e recém começados. Tudo ia ficando pelo meio do caminho, inclusive eu, que, depois de algumas horas andando por Uberlândia, reconhecendo os lugares em que outrora fui feliz, sentei-me num banco da praça Tubal Vilela, perto do centro antigo, para olhar as pessoas passarem, assim como a vida me passava. 

Nem deu meia hora ali sentado apareceu-me um artista argentino, que, em portunhol, perguntou-me se podia fazer um desenho de mim. Hesitei um pouco, pois estava sem dinheiro, mas, diante dos apenas R$ 5,00 que ele me cobrou, consenti. Em pouco tempo entrega-me uma figura engraçada, de óculos, meio triste, meio barriguda, um tanto barbuda. Peguei a caricatura, guardei-a dentro do livro que eu trazia. Sorri, agradeci, e paguei-lhe. Ele ainda quis me vender uns outros trabalhos seus, mas só me restavam algumas moedas. Ele foi embora meio cabisbaixo, transparecendo que aquela vida de artista itinerante não tinha nada de fácil.

Eu restei ali. Olhando ora para o jardim ora para o desenho, refleti que aquela caricatura confirmava o que há muito eu já sabia: aquele homenzinho ali sentado não era quem eu realmente era; o parecer artístico do argentino atestava que eu não passava de uma sátira de mim mesmo, digna apenas do riso e da pena. Mas não chorei. De nada adiantaria. Acho que rezei. De frente a mim, a uns cinqüenta metros, erguia-se a Catedral. Levantei os olhos para o relógio da sua torre e meio que disse a Deus que seria muito bom encontrar-me e saber o que fazer para sair daquela situação. Não lamentei. De nada adiantaria. Acho que sorri, feliz, afinal poder andar, ainda que sem direção, é melhor que ficar parado. Com esse pensamento ia levantando-me pra voltar a casa quando uma mão derrubou-se pesada sobre o meu ombro fazendo-me sentar bruscamente. Logo olhei para trás e deparei-me com uns dedos grossos arrematados em unhas grandes, quebradas, imundas. Pensei: que merda! é agora que me levam tudo!

Mal eu começava a tremer e as coisas ficam piores. Aquele que se me apoiara senta-se ao meu lado, enquanto uma nova pessoa, de mesmas características góticas, achega-se também bem próximo. Nesse instante pensei que talvez eles não só levassem as minhas coisas como a mim mesmo. Ambos estavam muito bêbados, mas, se apoiavam em mim, eram menos pra me intimidar do que para não irem direto ao chão. Ambos vestiam uma capa preta, sobre outras roupas de cor escura, rasgadas e sujas. O cheiro de álcool misturado com suor e urina era enjoativo. 

Tomo coragem, levanto a cabeça e olho para aquele que primeiro me encostara e sorrio-lhe amarelo. Ele tenta sorrir e estende a mão aberta. Entendo o gesto e, amistoso, que nessas situação acredito ser mais conveniente do que hostil, digo-lhe, já entregando-lhe, que só tenho essas moedinhas aqui, ó. Ele olha para minha mão, tenta me sorrir de novo, recolhe o dinheiro, e me agradece dando um abraço inesperado. Nesse instante, temo que ele, encoberto pela capa, saque algum estilete para me rasgar, mas nada disso acontece e logo ele se afasta e se levanta, apoiando-se numa árvore próxima. O outro rapaz à minha esquerda, levanta-se instável, faz um aceno de cabeça para mim e segue lento para uma sorveteria próxima, onde já estava a sua companheira.

O jovem que ficou aparentava ter uns 30 anos – mas talvez tivesse menos, visto que a vida muito lhe cobrava. Cabelos desgrenhados, barba por fazer, dentes amarelos e faltantes, mas não era feio. Sempre olhando para mim, sempre tentando sorrir. Eu já não estava mais tão preocupado. Eles pareciam apenas bons bêbados mesmo, e não bandidos drogados. Mas ele ficar me encarando  não estava nada confortável até ele perguntar desconcertando-me mais uma vez:

- Você é escritor?

- Não, respondi, achando graça da pergunta e imaginando de onde ele tinha tirado aquela conclusão – será que pelo fato de eu estar segurando um livro? Mas daí ele só concluir que eu fosse apenas um leitor não seria mais razoável? 

- Rapazinho, você é escritor! Escritor! Você tem de escrever a minha história... disse ele já parecendo menos tonto, mas um pouco agressivo. Eu e o meu colega ali... eu, ele e a mulher dele tamo vindo lá de Cristalina. Nós somos trecheiros. Você sabe o que é um trecheiro?

- Trecheiro? Não. O que é?

- Então ecreve aí... Trecheiro - vai, escreve, quero que você escreva - são as pessoas que nem nóis, que sai por aí, sem destino, percorrendo essas estradas do Brasil, cidade e roça, a pé, de carona com quem tem boa vontade... É mais os caminhoneiros que ajuda nóis. A gente vai a pé mesmo, sem medo, cantando e enchendo a cara e inventando histórias – ele me informou emitindo bem no meu rosto uma grande gargalhada com terrível sabor etílico que ecoou por toda a praça, quase vazia já. Forcei um sorriso e perguntei: - Cantando?

- Cantando... Cantando as música e a poesia nossa e dosôto. Cantar é bom demais. Nos bar, nos puteiro, nas estação de ônibus tem sempre um de nóis cantando... ou gemendo. Aí a gente ganha um dinheiro que mandemo para dentro tomando as pinga...

- Mas vocês nem cantaram pra mim.... disse eu achando que já estava sendo mais simpático do que deveria.

- É que nois tamo quebrado. E também quebraram nossa viola... Nóis viemos lá de Cristalina, eu te falei, né... Cheguemo agora a pouco, fugido de lá. Causo que um desses guardinha, PM, né, onti de noite, viu nóis deitado no chão perto dum desses baile de forró, e começou a encher a gente de bicudo. Nóis fumo saindo correndo, ele com o revólver atrás, dizendo que ia matar a gente.... até deu um tiro pro alto. Barulho é raiva. Então eu vi o seu olho encher de lágrimas.

- Muito chão. A gente anda sem caminho, mas sempre chegamo em algum lugar. Já tive em Indianópolis, Monte Carmelo, Araguari, Catalão, Tupaciguara, Nova Ponte... Essas cidade tudo do Triângulo eu já conheço. Tem coisa bonita demais. As estrada são tudo bonita. É quente, às veiz chove, mas é bonito demais. Todo mundo andando aí de carro, a cem por hora, nem percebe as frô, os bichinho que eles passam tudo por cima. Nóis não. A gente vai devagar, mas a gente vê tudo! Tudo de bão... mas tudo de ruim também. É a vida, né rapazinho. Tem coisa boa e ruim. É preciso saber enfrentar o que é ruim... mas não é por isso que eu bebo não... e só pra matar a sede... E mais uma vez deu uma gargalhada embriagante.

- É a vida... Disse tentando me recuperar daquele hálito que era como um espírito que fala. Gostei da sua história. Eu não sou escritor, mas gosto de escrever; até posso sim escrever o seu causo. Eu realmente havia gostado daquilo e de descobrir que havia gente que fazia daquela jeito simples e difícil o seu jeito de viver. Nesse momento da conversa veio se aproximando o colega dele com sua companheira, que segurava uma garrafa. A mulher chamou para ir embora. Ele então me disse:

- Vou indo lá... Valeu, ae...

- Valeu... Mas, me diga seu nome pra eu botar no livro que eu vou escrever... disse meio que brincando com ele, mas sem deixar o ar de zombaria explícito, pra não afrontá-lo. Ele, que já ia se afastando, voltou meio cambaleante, estendeu o braço e apertou forte minha mão e disse claro: Leduc, e o seu?

- Como? Le o quê?

- É, Leduc! E o seu... Ah! Você também é Leduc? Leduc! Você é Leduc, meu chapa, meu xará! E saiu súbito com mais uma gargalhada. Foi-se então correndo, falando alto, todo torto, com os seus que já seguiam à frente.

E foi assim que naquela noite Deus falou comigo pela boca de um bêbado e eu fui novamente batizado. E desde então tenho procurado fazer o que Ele me pediu, ou seja, escrever a história do Leduc, ou seja, eu mesmo: à época, um homem bêbado, sem rumo, uma paródia do eu real que poderia estar sendo, mas não era. 

quarta-feira, 21 de maio de 2014

1 - BLIND DATE


Como é usual nas aulas de dança de salão, havia mais homens que mulheres divertindo-se com a salsa, de modo que me encostei a parede para ceder a vez de aprender o passo a um outro cavalheiro. Foi quando recebi o seguinte zapzap: vc está em BSB? Pronto, eu já adivinhara tudo: nosso dia chegara.
Nunca a havia visto antes, a não ser em fotos do Facebook – que linda, que linda! Falamo-nos algumas vezes por telefone – e aquele seu gostoso acento nordestino demorava dias pra me sair dos ouvidos. Escrevemo-nos, muito. Durante três anos foi quase semanal e ininterrupta nossa correspondência. Perdemos um pouco do fôlego quando cada um iniciou seu respectivo namoro, mas, em segredo, com palavras mais sussurradas e cheias dos mistérios que só nós sabíamos desvendar, permanecemos em nossa escrita. Existia a curiosidade de nos encontrarmos em férias ou feriados prolongados, mas constrangia-nos o medo desse levantar de véu revelar o que seria mais bonito oculto. Deixar como estava parecia de maior valor: assentávamo-nos apenas em palavras sinceras, na confiança, na lealdade. E fomos deixando assim, sem criar expectativas de um dia nos vermos.
Talvez tenha se decidido de repente; talvez não quisesse ter de passar muito tempo comigo; acontece que estava no shopping fazendo hora pra embarcar no avião de volta às praias. Não tive sequer tempo de ir em casa tomar banho e, mesmo suado pelo ritmo latino da tarde, fui dar com ela. Em tempos de Tinder e Lovoo, parecia que seria mais um daqueles meus encontros às escuras em que na maioria das vezes eu me surpreendia com a incoerência estética entre a foto das moças e a realidade, ou então entre a falta de delicadeza no agir e aquilo que elas escrevem tão carinhosas nas mensagens de celular.
Teclei: onde vc está? Ela: sentada num sofá ao lado da Siberian. Coincidentemente, era por ali que eu passava, de modo que apenas parei e olhei para a minha direita: R. terminava de digitar vc já chegou? Apenas apoiei minha mão sobre o ombro dela pra dizer solene cheguei!

Um ser macio e alvo, com olhos de gato,
cabelos em brasa, batom de pimenta,
ancas empinadas em elegante par de sapatos:
puta casta que me enternece e tenta,
que me beija invisível e confere ao viver mais gosto ;
fantasma uébico de altivo busto e lívido rosto.
Um tremer sem susto, porque embora escuro,
há uma enorme lua lá fora.

No meu retrato fatal não pude me representar –
ao invés da minha imagem de grito rouco e riso tímido,
pintei um anjo gauche com meus dedos em tinta guache – miragem :
não era minha sombra nem o meu reflexo no chão liso do abismo ;
naquela tela-espelho emergiu um espectro indefinido, mas belo :
caos de cores e formas claras para onde
saltara o Ser alado da sua dimensão de diamante,
e, assim encorajado, pisei o inevitável passo adiante.

Anjo e homem, em prometido destino, caíam -
os lábios quase se tocando, as asas em anestesia -
descolando a carne fria da alma vazia,
fundindo a anima íntegra ao animal envolvente.
Quedaram helicóides essas duas sementes e
entoando odes entregaram-se para o amanhecer -
cada nascimento tem a sua exata hora;
cada existir o merecido desaparecer.

E nesse surgir-extinguir, nesse riso-canto,
anti-platônica mistura entre ideia e matéria,
herdei um quê de santo e
o Ser fez-se de anjo torto em mulher etérea.
Lado a lado abdicamos duma vaga (i)mortalidade
e abraçamo-nos na mais breve das eternidades.

Seguimos pelas galerias de lojas sem que ela deixasse eu carregar sua mala. Mais encantadora do que na web. Mais envolvente que nos textos, neste encontro às presas, inesperado, às cegas, ela abriu-me os olhos pra mim mesmo. Sentamos num café e conversamos como quem é amigo dos tempos de criança. Falou-me das tempestades dela, mas também de laranjas e amoras. Contei-lhe sobre como a minha vida estava melhor desde que começara a ganhar um dinheiro que valia a pena, mas também de como eu ainda temia ser o que eu deveria ser. Enquanto ela comia o bolo de chocolate mais gostoso do mundo, me repetiu o que já me dissera dezenas de vezes.
Por medo, medo de fracassar, de decepcionar os outros, fingimos não ser nossos os nossos sonhos. Buscamos outros caminhos, mais retos, mais normais, que teoricamente nos deixariam mais felizes – ou pelo menos nossos pais. Porém, ao cobrirmos nosso espelho, escondemos nossa essência, vivemos a vida pela metade. Então, meu amigo, sai desse armário cheio de naftalina! Coragem! Seja inteiro e deixe que todos sintam o seu verdadeiro perfume!
Duas horas depois ela voava pro mar e eu ficava aqui no cerrado, em flor, sendo eu: Leduc!