Naquele noite eu estava gordo e com os cabelos cada vez mais brancos e escassos. Sem rumo
nem horizonte, não tinha planos, a não ser tentar segurar, enquanto ainda
desse, a mão da mulher que eu amava. Eu não conseguia andar sem cambalear, sem
estar querendo sempre desistir dos projetos mal formulados e recém começados.
Tudo ia ficando pelo meio do caminho, inclusive eu, que, depois de algumas
horas andando por Uberlândia, reconhecendo os lugares em que outrora fui feliz,
sentei-me num banco da praça Tubal Vilela, perto do centro antigo, para olhar as
pessoas passarem, assim como a vida me passava.
Nem
deu meia hora ali sentado apareceu-me um artista argentino, que, em portunhol,
perguntou-me se podia fazer um desenho de mim. Hesitei um pouco, pois estava
sem dinheiro, mas, diante dos apenas R$ 5,00 que ele me cobrou, consenti. Em
pouco tempo entrega-me uma figura engraçada, de óculos, meio triste, meio
barriguda, um tanto barbuda. Peguei a caricatura, guardei-a dentro do livro que
eu trazia. Sorri, agradeci, e
paguei-lhe. Ele ainda quis me vender uns outros trabalhos seus, mas só me restavam
algumas moedas. Ele foi embora meio cabisbaixo, transparecendo que aquela vida
de artista itinerante não tinha nada de fácil.
Eu
restei ali. Olhando ora para o jardim ora para o desenho, refleti que aquela caricatura confirmava o que
há muito eu já sabia: aquele homenzinho ali sentado não era quem eu realmente
era; o parecer artístico do argentino atestava que eu não passava de
uma sátira de mim mesmo, digna apenas do riso e da pena. Mas não chorei. De
nada adiantaria. Acho que rezei. De frente a mim, a uns cinqüenta metros,
erguia-se a Catedral. Levantei os olhos para o relógio da sua torre e meio que disse a Deus que seria muito bom encontrar-me e saber
o que fazer para sair daquela situação. Não lamentei. De nada adiantaria. Acho
que sorri, feliz, afinal poder andar,
ainda que sem direção, é melhor que ficar parado. Com esse pensamento ia
levantando-me pra voltar a casa quando uma mão derrubou-se pesada sobre o meu ombro fazendo-me
sentar bruscamente. Logo olhei para trás e deparei-me com uns dedos grossos
arrematados em unhas grandes, quebradas, imundas. Pensei: que merda! é agora
que me levam tudo!
Mal
eu começava a tremer e as coisas ficam piores. Aquele que se me apoiara
senta-se ao meu lado, enquanto uma nova pessoa, de mesmas
características góticas, achega-se também bem próximo. Nesse instante pensei que
talvez eles não só levassem as minhas coisas como a mim mesmo. Ambos estavam muito bêbados, mas, se apoiavam em mim, eram menos pra me
intimidar do que para não irem direto ao chão. Ambos vestiam uma capa preta,
sobre outras roupas de cor escura, rasgadas e sujas. O cheiro de álcool misturado
com suor e urina era enjoativo.
Tomo coragem, levanto a cabeça e olho para
aquele que primeiro me encostara e sorrio-lhe amarelo. Ele tenta sorrir e
estende a mão aberta. Entendo o gesto e, amistoso, que nessas
situação acredito ser mais conveniente do que hostil, digo-lhe, já
entregando-lhe, que só tenho essas moedinhas aqui, ó. Ele olha para minha mão,
tenta me sorrir de novo, recolhe o dinheiro, e me agradece dando um abraço
inesperado. Nesse instante, temo que ele, encoberto pela capa, saque algum
estilete para me rasgar, mas nada disso acontece e logo ele se afasta e
se levanta, apoiando-se numa árvore próxima. O outro rapaz à minha esquerda,
levanta-se instável, faz um aceno de cabeça para mim e segue lento para uma
sorveteria próxima, onde já estava a sua companheira.
O
jovem que ficou aparentava ter uns 30 anos – mas talvez tivesse menos, visto
que a vida muito lhe cobrava. Cabelos desgrenhados, barba por fazer, dentes
amarelos e faltantes, mas não era feio. Sempre olhando para mim, sempre
tentando sorrir. Eu já não estava mais tão preocupado. Eles pareciam apenas
bons bêbados mesmo, e não bandidos drogados. Mas ele ficar me encarando não estava nada confortável até ele perguntar desconcertando-me mais uma vez:
-
Você é escritor?
-
Não, respondi, achando graça da pergunta e imaginando de onde ele tinha tirado
aquela conclusão – será que pelo fato de eu estar segurando um livro? Mas daí
ele só concluir que eu fosse apenas um leitor não seria mais razoável?
-
Rapazinho, você é escritor! Escritor! Você tem de escrever a minha história...
disse ele já parecendo menos tonto, mas um pouco agressivo. Eu e o meu colega ali... eu, ele e a mulher
dele tamo vindo lá de Cristalina. Nós somos trecheiros. Você sabe o que é um
trecheiro?
-
Trecheiro? Não. O que é?
-
Então ecreve aí... Trecheiro - vai, escreve, quero que você escreva - são as pessoas que nem nóis, que
sai por aí, sem destino, percorrendo essas estradas do Brasil, cidade e roça, a
pé, de carona com quem tem boa vontade... É mais os caminhoneiros que ajuda nóis.
A gente vai a pé mesmo, sem medo, cantando e enchendo a cara e inventando histórias – ele me informou emitindo bem no meu rosto uma grande gargalhada com terrível sabor etílico que ecoou por toda a praça, quase vazia já. Forcei um sorriso e perguntei: - Cantando?
-
Cantando... Cantando as música e a poesia nossa e dosôto. Cantar é bom demais.
Nos bar, nos puteiro, nas estação de ônibus tem sempre um de nóis cantando...
ou gemendo. Aí a gente ganha um dinheiro que mandemo para dentro tomando as
pinga...
-
Mas vocês nem cantaram pra mim.... disse eu achando que já estava sendo mais
simpático do que deveria.
-
É que nois tamo quebrado. E também quebraram nossa viola... Nóis viemos lá de
Cristalina, eu te falei, né... Cheguemo agora a pouco, fugido de lá. Causo que
um desses guardinha, PM, né, onti de noite, viu nóis deitado no chão perto dum desses
baile de forró, e começou a encher a gente de bicudo. Nóis fumo saindo
correndo, ele com o revólver atrás, dizendo que ia matar a gente.... até deu um
tiro pro alto. Barulho é raiva. Então
eu vi o seu olho encher de lágrimas.
- Muito chão. A gente anda sem caminho, mas sempre
chegamo em algum lugar. Já tive em Indianópolis, Monte Carmelo, Araguari,
Catalão, Tupaciguara, Nova Ponte... Essas cidade tudo do Triângulo eu
já conheço. Tem coisa bonita demais. As estrada são tudo bonita. É quente, às
veiz chove, mas é bonito demais. Todo mundo andando aí de carro, a cem por
hora, nem percebe as frô, os bichinho que eles passam tudo por cima. Nóis não.
A gente vai devagar, mas a gente vê tudo! Tudo de bão... mas tudo de ruim
também. É a vida, né rapazinho. Tem coisa boa e ruim. É preciso saber enfrentar
o que é ruim... mas não é por isso que eu bebo não... e só pra matar a sede...
E mais uma vez deu uma gargalhada embriagante.
-
É a vida... Disse tentando me recuperar daquele hálito que era como um espírito que fala. Gostei da sua
história. Eu não sou escritor, mas gosto de escrever; até posso sim
escrever o seu causo. Eu
realmente havia gostado daquilo e de descobrir que havia gente que
fazia daquela jeito simples e difícil o seu jeito de viver. Nesse momento da
conversa veio se aproximando o colega dele com sua companheira, que segurava
uma garrafa. A mulher chamou para ir embora. Ele então me disse:
-
Vou indo lá... Valeu, ae...
-
Valeu... Mas, me diga seu nome pra eu botar no livro que eu vou escrever...
disse meio que brincando com ele, mas sem deixar o ar de zombaria explícito, pra não afrontá-lo. Ele, que já ia se afastando, voltou meio cambaleante, estendeu o braço e
apertou forte minha mão e disse claro: Leduc, e o seu?
-
Como? Le o quê?
-
É, Leduc! E o seu... Ah! Você também é Leduc? Leduc! Você é Leduc, meu chapa, meu
xará! E saiu súbito com mais uma gargalhada. Foi-se então correndo, falando alto, todo torto, com os seus que já seguiam à frente.
E
foi assim que naquela noite Deus falou comigo pela boca de um bêbado e eu fui
novamente batizado. E desde então tenho procurado fazer o que Ele me pediu, ou
seja, escrever a história do Leduc, ou seja, eu mesmo: à época, um homem
bêbado, sem rumo, uma paródia do eu real que poderia estar sendo, mas não
era.
Nossa que historia maravilhosa e bem escrita! Digna de um escritor da Academia de Letras. Espero ler mais textos seus Leduc! Achei o final surpreendente. Um grande abraço. Graziella Erdogmus.
ResponderExcluirAh, muito obrigado Grazi!! Muito gentil e generosa, mas precisarei de algumas décadas pra poder passar na porta da Academia de Letras, huahauhaua. Ainda assim, persistirei escrevendo ;-) Beijosss e obrigado pelo carinho!!!
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