sábado, 23 de maio de 2015

24 - COSMOCONSCIÊNCIA






Eu tinha 17 anos e iniciava o último ano do ensino médio. Enquanto quase todos os meus colegas se debatiam com que carreira profissional escolher e, consequentemente, que curso universitário seguir, eu já estava certo do que estudaria: Política. Apenas a ação coordenada dos homens em torno de um líder pode mudar seu próprio destino e melhorar suas condições econômicas e sociais. Tal convicção, dura, reta e destinada ao desmonte, foi construída no processo de conhecer a mim mesmo pelo estudo da filosofia. Da filosofia da religião fui migrando nos dois anos anteriores para a filosofia política, impulsionado pela minha tendência às humanidades. E foi aí que me achei confortável na companhia de Hobbes, Rousseau, Marx, Weber, Gramsci e Raymond Aron. 

Eu passara as férias escolares lendo os clássicos e discutindo com amigos afeitos ao tema as questões de poder no Brasil e no mundo. Os intervalos das aulas eu sentava com os professores de história, geografia e filosofia para pedir recomendações de leituras e testar meus pontos de vista. Gastava todas as minhas horas de estudo dedicando-me a isso. Em compensação, naufragavam minha matemática, física e química. Também eu não mais sabia o que conversar com as meninas, pois eu sempre conduzia a conversa para discussões sobre partidos políticos, aumento de impostos e projeção internacional do país. Às vezes, tentando ser descontraído, eu acabava falando de sexo muito diretamente, sem as cortinas e meia luzes que tornam o tema mais excitante e menos vulgar. Talvez eu já soubesse o que quisesse ser quando crescer, mais ainda sabia muito pouco sobre a minha posição como homem diante da mulher. 

Sem namorada, vez ou outra eu comprava a Playboy ou a Sexy com o dinheiro que eu recebia de mesada. Num tempo em que a internet era discada e muito lenta, as fotos e vídeos que divertiam os jovens demoravam muitíssimo a carregar e, às vezes, não compensavam a espera. Melhor comprar aquelas revistinhas mesmo. Naquela tarde, sexta-feira, meados de junho de 200..., despedi-me de todos meus colegas, esperei um pouco sentado no banco da praça, para evitar posteriores encontros inoportunos, e dirigi-me à banca de jornal. Fiquei por ali, dando uma disfarçada, fingindo interesse em alguma outra coisa. O dono da banca já me conhecia e, apontando uma sacola preta, disse-me– Já guardei pra você. Eu morria de medo daquilo, afinal aquele comércio pornográfico me era proibido. Peguei a sacola e coloquei-a dentro da mochila, deixando muito discretamente em cima das caixas de chicletes e balinhas, sobre o balcão, o dinheiro devido. 

Mas naquela de dissimular minha fraqueza pelo prazer sexual estético, passei os olhos por uma revista diferente, que estava sendo lançada naquele mês. A reportagem principal, anunciada com a figura de um robozinho circulando entre as hemácias, era sobre nanotecnologia, algo que meu professor de biologia havia mencionado recentemente. Fiquei curioso com o tema, dei uma folheada e me encantei também com o capricho da edição. Juntei as moedinhas espalhadas pelos bolsos da mochila e resolvi levar aquela revista também. Voltei para casa sentindo aquele cheirinho de papel recém impresso, com imagens muito coloridas, excitantes. A Scientific American Brasil nº1 animou-me muito mais que a Playboy daquele mês. 

Não foi a matéria sobre nanotecnologia que me prendeu durante horas àquela revista. Numa das primeiras páginas, naquela parte de textinhos curtos sobre temas variados, havia uma coluna com o seguinte título No Coração da Escuridão Cósmica, tratando sobre o modelo ecpirótico da origem do cosmos, concebido em 2001 por Paul Steinhardt da Princeton University e Neil Turok da Cambridge University. A teoria descreve um universo "explodindo na existência" não somente uma vez, mas repetidamente no tempo. 

Essa proposta de inúmeros Big Bangs e um ciclo de universos mexeu profundamente com o meu estar no mundo. De repente meu tempo não era o Tempo, apenas mais um entre vários possíveis; minha existência tornava-se um acidente sem propósito nenhum; se Deus era senhor deste universo, um dia também lhe chegaria o fim – ou será que havia um Deus maior? As clássicas perguntas Onde estou? Quem sou eu? perderam o sentido psicológico e pequeno no contexto da minha vida e ganharam a dimensão de um super cosmos. Naquela tarde, sexta-feira de medos de junho de 200..., minha vida mudaria para sempre. Foi neste dia em que tive minha revelação científico-religiosa, minha epifania, minha cosmoconsciência. 

Reli o textinho. E de novo. E mais uma vez. Em menos de uma hora eu já o sabia de cor. Porém, muitos dos termos ali minha inteligência não alcançava o significado, apenas intuía e, auxiliada pela imaginação, tentava fechar o raciocínio diante das falhas de compreensão conceitual. Para além da imaginação, recorri às antigas enciclopédias e tive a paciência de baixar, muito vagarosamente, alguns artigos da internet, inclusive em inglês. Fui devorando tudo aquilo entremeando o entendimento físico com o sentimento de ser. Fui adquirindo uma consciência maior da minha insignificância, da inexpressividade da minha existência, do ridículo dos anseios e das vaidades da política. E quanto mais eu me via menor, mais eu me sentia maior. E naquela tarde, que logo foi entrando na noite, eu me sentia nada, mas também me sentia tudo. Anulado, senti-me vivo.

Outras vezes eu experimentaria felicidades imensas na minha vida, mas nenhuma equiparar-se-ia com esta que ora relembro. Depois de algum tempo, entre sentimentos extremos e entendimentos inéditos, comecei a pular e a rir bem alto no meu quarto, de modo que com as pontas dos dedos eu conseguia alcançar o teto (nunca mais eu conseguiria fazer aquilo). Aos pulos acrescentei giros e às gargalhadas lágrimas, num êxtase de cerimônia sufi. Por quase uma hora permaneci neste transe ancestral. Exausto deixei-me cair. Deitado, de bruços, com os lábios beijando o chão; o vapor da minha respiração agitada se condensando na cerâmica fria; silêncio; silêncio; troco de posição e testemunho o branco teto ir se desfazendo no escuro do espaço, no escuro do tempo; silêncio; silêncio; um silêncio interrompido com sons de batida de um tambor primitivo – meu peito era a caixa de reverberação e minha mão fechada a ponta das baquetas. Era o som do meu coração iluminado ecoando o coração das trevas do cosmos, provando-me vivo; vivo mas imensamente pequeno, um acaso do universo; um universo entre muitos universos. Adormeci.

O toque estridente e insistente do telefone despertou-me. Eu estava todo molhado de suor e tive medo quando, em apenas dois segundos, me dei conta que sabia do princípio e do fim, do antes e do depois; dentro e fora do tempo, para sempre e nunca mais. Mas foi em Amanda me dizer, do outro lado da linha, Oiiiiiii!!!, para eu me esquecer de tudo. Muitas décadas seriam necessárias para que eu reaprendesse um quase nada daquilo que me foi revelado em quarenta minutos vivendo dentro de um sonho estranho de Deus.

sábado, 16 de maio de 2015

23 - TARDE VOS AMEI




Tarde Vos amei,
ó Beleza tão antiga e tão nova,
tarde Vos amei!
Eis que habitáveis dentro de mim,
e eu, lá fora, a procurar-Vos!

(Santo agostinho)


No alto do monte Moriá não se diria de qualquer filosofia que pudesse amenizar o desespero daquele pastor. Até ali foram três dias de desértica viagem remoendo os obscuros propósitos dos céus. Cortada a lenha e ascendido o fogo, na iminência de sacrificar seu filho, o velho teve as mãos suspensas pelo Anjo do Senhor - Abraão! Abraão! Até aquele derradeiro segundo, antes que a lâmina da faca pudesse rasgar a pele de Isaac, o patriarca vivia sua angústia aferrado à sua fé: Deus proverá. O salto sobre o abismo que a crença religiosa nos solicita, ensinou-nos Kierkegaard, não é racional e vai além da ética e da moral. Jogamo-nos no mistério do divino impulsionados pelo absoluto Amor ao Absoluto. Sem palavras, muitas lágrimas; uma dolorida alegria silenciosa.

Durante um feriado prolongado, enclausuramo-nos no prédio do asilo da cidade, que acabara de ser reformado e ainda possuía dois grandes salões vagos. Em um deles ficaram os meninos, noutro as meninas. Para muitos daqueles jovens crismandos, a maioria entre seus treze e dezesseis anos, era a primeira vez que se encontravam longe de casa por tanto tempo, experimentando a liberdade da vigília dos pais. Estávamos ali para rezar e refletir; fazer um profundo exame das nossas falhas e, caso sentíssemos o nosso coração tocado, deveríamos, ao final do encontro, declarar nossa intenção de continuarmos participando da eucaristia, recebendo a hóstia consagrada.

Éramos acordados pelos sinos às cinco e meia da manhã e conduzidos para o banho. Três levas de 15 garotos, todos nus, debaixo duma água geladíssima. Às seis e meia deveríamos estar na capela para a abertura dos trabalhos e para a primeira missa do dia. Às oito era o café e às nove começavam as palestras e gincanas e leituras. Almoçávamos, mas tínhamos de lavar a louça e limpar a cozinha e a sala de refeições. Depois seguíamos para o exame coletivo de consciência. Relaxávamos com o lanche que era acompanhado por violão e cantos religiosos, ao que se seguia a elaboração de uma pequena peça teatral que deveria ser apresentada na última celebração do evento. À noite, depois da última missa do dia, o jantar seguia a mesma rotina laboral do almoço, acrescida da ansiedade de mais um banho frio antes de dormir. Houve quem, apenas se enrolando na toalha e molhando os cabelos, enganasse os monitores e, depois da primeira traumática chuveirada da manhã, passasse o restante do retiro sem saber o que fosse água e sabão.

Não bastaram o gelo da água nem a disciplina e controle ostensivo dos catequistas e padres; nem mesmo o olhar punitivo de Deus. Quando as luzes se apagavam às dez horas, depois de um breve silêncio, o quarto dos rapazes lentamente ia sendo tomado por uns risinhos maliciosos, umas frases que não eram orações, e evocações de mulheres que não eram santas. Por debaixo das cobertas, Bethânia, Andréia, Gabriela e Juliana eram as nossas colegas mais frequentemente imaginadas e sussurradas em meio a gemidos e suspiros. Naqueles minutos que se seguiam ao início da escuridão, permanecíamos todos deitados sobre nossos finos e embolorados colchões. Mas logo um e outro se encorajavam e se erguiam para conversar com um rapaz que se deitara mais distante. As palavras que eram ditas por entre dentes, logo ganhavam toda a boca e, subitamente, sem nos intimidarmos, encontrávamos em guerra de travesseiros, exibicionismos sexuais e até mesmo lutas corporais. Não houve uma noite em que as luzes tiveram de ser acesas para que nos fosse imposta nova ordem, sob ameaça desesperada de excomunhão. Durante as três noites que passamos ali, chorei sem que ninguém me ouvisse.

Eu realmente estava procurando a Deus.  Em segredo, considerando a minha grande devoção, a diretora dos catequistas confidenciou-me que eu era um dos poucos jovens que realmente estava pronto para ter a maravilhosa experiência de estar com Ele profundamente. Alegrei-me com esta promessa, vivi o que me pediram para viver, mas eu nada sentia. Tomei os banhos frios e comi aquela comida ruim sem nada reclamar; esforcei-me ao máximo para não me entregar à carne e a mulher alguma – embora existisse Juliana, ah! Juliana! -; fui a todas as missas, jejuei quando isso foi nos dado como opção; li todos os versículos recomendados; confessei meus pecados aos padres, mesmo os mais leves, que são os mais ridículos e constrangedores. Eu tinha a admiração do meu esforço por parte dos instrutores de religião; tanto que me fizeram representar Jesus no teatro da última missa. Mas eu não sentia nada. Enquanto eu vi alguns daqueles agitados meninos terem a sua face e coração serenados pelas palavras do Senhor, eu parecia ser o único a adquirir um grande vazio.

Agravou-se meu estado quando, mesmo cada vez mais distanciado da antiga crença, confirmei meus batismo na cerimônia da Crisma, no final de semana seguinte. A situação tornou-se crítica poucos meses depois, em tempo de sucessivas súplicas a Deus pelo amor de T., quando fui por ela abandonado à amizade, que era a única forma que ela encontrara de me amar. Deus não estava comigo? Ou era eu que não estava com Deus? Estaria o Altíssimo me pedindo para, no mesmo altar de Isaac, sacrificar T. em prova da minha dedicação a Ele? Deus não poderia ser tão mesquinho... Ela era inegociável, apenas uma mulher, mais nada. E tinha de ser minha! Mas não era a questão dela ser apenas uma mulher. Era a construção do meu conceito e da experiência do Amor que estava em jogo. Não é possível que aconteça o salto de fé sem que antes se caminhe longamente no Amor. E a estrada do amor ao próximo e a um possível Deus, começa com o primeiro passo do amor próprio. E como só amamos o que conhecemos, fui me conhecer.

terça-feira, 12 de maio de 2015

22 - SEM SENHORA NEM SENHOR


 

Sem uma nem outra, procurei por terceiras; nenhuma me procurava. Restava-me o consolo de alguns amigos – mas amigos que estão no mesmo labirinto servem apenas para nos dar o inútil consolo de que estou tão perdido quanto eles! Por fim, apegamo-nos a Deus, companheiro com quem andava em bom diálogo ao longo do dia, todos os dias, desde as minhas mais remotas lembranças: minha mãe, com todos os seus cabelos ainda pretos, o terço na mão diante de um altar florido, rezando o rosário durante horas, com uma felicidade calma no rosto. Mas o Senhor não estava sendo suficiente para mim. Começava a correr mais sangue ao meu sul do que ao meu norte. O foco da minha mente fixava-se na boca da mulher, não no sorriso; no suor, não no perfume; tentava adivinhar pelo ritmo da respiração dela como ela gemeria se estivesse entre meus braços. E quanto mais eu abraçava minha deusa imaginária, buscando torná-la real, mais meu Deus real desfazia-se em mitologia. Quanto mais procurava sair de mim, buscando um sentido no exterior feminino, mais desmoronava-se o meu interior divino. Fui restando apenas homem, macho, apenas barro; sem forma, rumo, sem Eva.


Essa desconstrução da minha relação com o sublime não se deu apenas por obra do descaso da mulher para comigo, mas também pelo meu interesse crescente nas humanidades e na ciência. À medida que eu intensificava os estudos colegiais, foram desbotando as cores da religião que institucionalizara Deus no meu círculo social, na minha família e na minha mente. Deixei de enxergar a Igreja como templo do sagrado, vendo-a mais como um Ministério das Relações Celestiais, onde a política tinha primazia sobre o amor, o poder era mais importante que o perdão e o Papa poderia destituir o Imperador como se isso fosse a vontade do Altíssimo, desconsiderando-se a vontade do povo. Havia uma ditadura divina em que a tortura poderia ser chamada de inferno e pecado. Eu havia sido longa e suavemente educado nessa disciplina do medo revestido de proteção. Meu Deus servia apenas pra me afastar do martírio que ele potencialmente criara pra mim; e aumentando a minha insatisfação, Ele parecia não ter poder para me abrir as portas da mulher. Entristeci. Duvidei. Fiquei sozinho. 



Buscando àquela que me salvaria, perdi a Deus e a mim mesmo. Como é desértico e desassossegado o caminho de quem vai apenas escutando os próprios passos. Como é sem caminho a jornada em busca da própria alma. É como ter que reinventar os dez mil anos de civilização, no menor tempo possível, sob pena da perenidade da falta de sentido comprometer nossa sanidade e tranquilidade; é como ter que reinventar-se a si mesmo. Tornamo-nos o nosso próprio caminho e vamos nos pisando, marcando em nós nossos tropeços, sentindo nosso próprio peso, nossa falta de jeito em pisar com a ponta dos pés a estrada da existência. 

Desacreditado das lições do céu sumério, babilônico, judaico e cristão, não quis me entrincheirar em uma nova religião. Os fantásticos acontecimentos de setembro de 2001 deixaram claro que não apenas o cristianismo usava a relação dos homens com Deus como forma de incitação da guerra sacralizada. Ao longo dos séculos, todas as crenças se apropriaram sistematicamente do divino para legitimar a violência como forma de alcançar e manter o governo dos homens. Com esta verdade, ao menos uma questão pacificou-se em mim: não era de Deus que eu me afastara, mas sim da antropomorfização e socialização que lhe conferimos. E isto, que seria uma solução, tornou-se uma falta de ar. Como eu poderia novamente abraçar algo que não mais tinha braços? Como eu poderia contemplar os olhos paternais de quem não mais tinha rosto? Como eu poderia reencontrar alguém que não era mais ninguém? 

Os luminosos caminhos da razão claramente nos levam para a escuridão das incertezas. Os indesvendáveis caminhos da fé nitidamente nos conduzem para a verdade absoluta. Não seria mais cômodo reassumir sem contestação a antiga crença? Eu não deveria concordar com Santo Agostinho para quem a solução seria crer para compreender? Ou então, se eu me tornasse um deísta, como Voltaire, já não seria um avanço? Aliás, não seria até mesmo mais seguro do que levar adiante aquela dúvida sobre o essencial que dá sentido ao princípio e ao fim? Como seria meu além-vida se eu estivesse errado? Quente e sulfúrico? Melhor aderir a Pascal: na dúvida, creia! Porém isso me parecia uma grande covardia. Aprovaria Deus os que n’Ele creem por temor e não por amor? Enfim, teria mesmo Deus a sua própria justiça, ou seria Ele a Justiça Em Si? 

A investigação dessas metafísicas não tem ponto final, apenas interrogações. Eu não quis facilitar a minha vida voltando a me ajoelhar diante nos velhos bancos das Igrejas. Contudo, foi tornando-se muito desgastante pessoal e socialmente aquela busca. Parentes mais próximos e conhecidos começaram a me direcionar um olhar de pena, querendo me reprovar com alguma dose de compaixão com que foram doutrinados. Não pisei atrás, mas também não mais quis caminhar sozinho. Iniciei uma longa conversa, que dura até hoje, com aqueles que trilharam o mesmo caminho da dúvida capital. Na prisão conceitual e sentimental criada por mim mesmo, como para Boécio, restaram-me as consolações da filosofia e da ciência.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

21 - BEIJOS, T.




T. era linda e sabia disso. Nos olhos fervilhava uma inteligência criativa; a boca declarava em sensualidades de dentes e lábios e língua aquilo que o resto do corpo aflorava em seios redondinhos, quadril largo e cabelos negros ao meio das costas. Não era vulgar. Era um anjo que se equilibrava entre a disciplina do estudo e as seduções da juventude. Todas essas impressões reforçavam-se ainda mais quando se trata da primeira pessoa que você vem a conhecer no primeiro ano do curso colegial. Eu já estava sentado, à espera do início da primeira aula semestre, quando entrou apressada pela sala essa garota: mal deixou os livros e cadernos sobre a carteira dela, a pilha de material escolar escorregou e veio ao chão. Rapidamente pus-me a ajudá-la. Ela abriu um sorriso inesquecível que expressava o agradecimento e o constrangimento daquele evento.


Depois dos doze anos de idade, os menores incidentes com o sexo oposto podem dar ensejo ao início de um grande encantamento – que acabam se tornando as mais belas idealizações de outro ser humano que alguém é capaz de fazer ao longo da sua vida. Há quem se apaixone por quem lhe pise no pé numa valsa debutante; por quem lhe derrube o lanche no recreio ou por quem, de tão tímido, nunca lhe diz um oi. Alguns anos antes daquele dia inaugural do colegial eu convivi com uma menina chamada D., cujo nome todos sabíamos não por ela, mas pela chamada que os professores faziam dos alunos conferindo a presença de cada um em sala de aula. Mesmo nessas ocasiões ela apenas levantava discretamente o braço, nada dizia. Era uma loirinha caipira do interior de Santa Catarina. Era duma beleza erótica demais pra pouca idade que tinha e que nem todos os meninos percebiam. Dizia-se que por ter um sotaque carregado do qual fora vítima de gozação anteriormente, preferia ficar calada; outros diziam que ela não falava português, apenas alemão. Eu nunca soube sua verdadeira história porque nunca pude ouvir sua voz. Ela nunca me disse nada, mas pelo seu silêncio eu permaneci apaixonado por três anos. 

Foi um amor sem palavras, mas não sem mãos e beijos. Amor escondido como todo primeiro amor, mas coletivo. Compartilhei-a com outros dois colegas meus, ao final das aulas, na curva escura da escada da cantina da escola. Alternávamos os dias da semana e fingíamos não saber um do outro. D. foi nossa lição inicial sobre a mulher. Ela, por não falar nada também não era muito falada. Saiu da escola cheia de mistérios, mas depois de anos com seus pequenos meio sorrisos substituindo as palavras, todos tinham em conta que ela era uma espécie de santa. 

T. não tinha as aparentes virtudes de D.; era fatal e manteve-me sob seu signo por mais tempo que qualquer outra conseguiria. Foi ela a minha estátua de mármore eterna, meu mais sofrido aprendizado do feminino. Algumas semanas depois de nosso primeiro contato já almoçávamos juntos nos dias que havia aulas à tarde. Falávamos dos livros que líamos e das músicas que ouvíamos, sentados num banquinho no jardim da escola, em meio à algazarra de outros grupos de rapazes e garotas. 

Eu lhe presenteava chocolates e ela me beijava o rosto e dava gargalhadas de prazer. Como eu era feliz quando entre uma frase e outra eu lhe tocava o braço ou pousava-lhe no joelho minha mão. Mas o que eu queria mesmo era entrelaçar os meus dedos aos dela e sentir o mais perto possível o perfume barato que ela sempre usava. Eu ainda não tinha me dado conta de como em tão pouco tempo eu já a amava e a admirava, como eu a queria só para mim. Também não me dera conta que ela já não era, nem nunca seria, apenas minha. Com frequência cada vez maior garotos cheios de espinha vinham interromper nossas conversas ou ela mesmo se dispersava com acontecimentos ao nosso redor. Fui ficando sozinho com o meu amor passarinho, frágil e rápido; invisível na mata, dele só se escutando fino assobio. Então quis dar forma ao meu canto já triste. Desolado pela ausência dela, escrevi um fatídico bilhetinho apaixonado, diploma de todo amor romântico destinado ao fracasso.

Foi o fim. No outro dia ela pediria junto à coordenação da escola pra mudar de turma e nós nos distanciamos tanto quanto um dia estivemos próximos. Eu quis ter chorado, mas não me permiti tal fraqueza; procurei-a na praça da escola, mas, ao me ver, ela apenas esticava aborrecida o canto da boca, abaixava o olhar e, com crueldade, lentamente, ia me dando às costas: os longos cabelos negros, as nádegas firmes, o lacinho sobre o calcanhar da sapatilha rosa. Fiquei sem resposta por dias, até que uma amiga dela me cutucou no meio duma aula de química e me entregou um papelzinho que sentenciava: para sempre seremos grandes amigos! Beijos. T.

Como é difícil, no princípio da juventude, dissociar o amor da amizade e a admiração do tesão. Esses sentimentos se confundem em diferentes pessoas, sejam por homens ou mulheres, e criam uma confusão de gêneros e interesses que ora paralisa e conduz-nos para uma caixa de solidão, ora nos atiça e nos impele para uma festa de beijos, abraços e cerveja. Mas como é prazeroso sofrer nessa idade. A vida ganha maior densidade e até mais importância quanto maior é a dor do encantamento que súbito se desfaz em desdém. Mas há um limite, e o meu foi o dia em que eu a vi sendo amparada do frio de maio pelos braços de um aluno alto, magro e que falava com voz esganiçada. Resignei-me. Entre o primeiro e aquele último passaram-se quatro meses, dois séculos naqueles tempos de esperas mínimas e ansiedades máximas; entre o gênesis e o apocalipse daquela paixão, rompi com Deus.

20 - A CASA ANTIGA DO BREJO



Eu não sabia que atrás das cortinas pesadas daquelas noites de domingo da minha infância havia uma enorme cruz pra nos proteger – e por isso nada acontecia a meu pai, eu concluí depois. Na verdade não era uma simples cruz, era um cruzeiro de madeira, fixado numa base alta e quadrada de pedras e tijolos, à beira de volumoso rego d’água que fazia subir e descer o monjolo, num terreno mais abaixo. Eu também não sabia que na frente deste cruzeiro tinha um pequeno chafariz outrora revestido de pedrinhas brancas redondas; eu não sabia que diante deste chafariz, à sombra da tarde da gameleira mágica, na meia encosta de uma suave colina, havia uma grande casa em ruínas, a casa da minha bisavó. Descobri tudo isso em dia claro, quando fomos eu e meu irmão levados por meu pai para que pudéssemos entrar pela primeira e última vez naquele velho casarão. Era o dia do desmonte, quando se colocaria abaixo 70 anos de memória para aproveitar o que restara da antiga casa e erguer uma morada que pudesse abrigar com mais conforto o peão de fazenda e sua família.

Desde a morte de minha avó, uns cinco anos antes, tentava-se manter a terra produtiva pra que não fosse expropriada para a reforma agrária, num tempo em que os movimentos de “sem-terra” começavam a mostrar sua força. Foi-se engordando como dava o gado ruim que restara de outras eras mais venturosas. Tomava conta de tudo quem chamávamos de Nanico, mas ele era um moreno enorme, magro e forte, de uns 30 anos, com alguns poucos dentes na boca e três filhos para criar. Morava com a esposa, a sogra e o sogro no antigo paiol da propriedade – construção fechada com tábua, elevada do chão, com piso de largas tábuas. De ambos os lados havia um puxadinho também coberto de telhas em que se ergueram entre os mourões paredes de pau a pique delimitando a cozinha, com fogão de lenha também de barro, e o banheiro apenas pra se tomar banho, já que para satisfazer as demais necessidades havia, afastada, uma casinha de adobe sobre uma fossa; entre a casinha e a fossa uma laje de concreto com um buraco no meio, mais nada.

Mas havendo bem em frente ao paiol casarão imponente e vasto, porque morar em habitação tão mal arranjada? Caía sobre si mesmo o casarão. Depois de décadas de glória, sucederam-se alguns anos de abandono – o suficiente para que a casa fosse invadida e pilhada em sua mobília e até mesmo da sua estrutura: algumas janelas e portas haviam sido roubadas; telhas retiradas; parte da decoração do forro furtada. Ademais, aquela casa, dos princípios da década de 1920, fora construída com grossas paredes de tijolos se apoiando diretamente sobre vigas de aroeira que também sustentavam o piso de madeira. Acontece que o peso das paredes de quatro metros de altura, foi deformando as vigas que acabaram cedendo. A falta de conservação, somada ao vandalismo que vinha da cidade, não permitiam que ninguém mais morasse ali naqueles tempos. Como a casa como um todo poderia desmoronar sem aviso, optou-se por salvar a grande quantidade de material ainda utilizável e demolir o símbolo dos melhores tempos de antigamente.

Era uma manhã morna de sábado e eu tinha uns poucos anos. Antes que os pedreiros subissem nas escadas para começarem a descer as enegrecidas telhas francesas, pesados caibros e longas ripas, meu pai abriu as portas do passado para mim e meu irmão. Entramos apenas nós três, nossos passos e olhares conduzidos por uma lanterna. Havia muita, muita poeira e terra, por isso andávamos devagar. A sala de visitas era ampla, com quatro janelões. O teto era bem alto. Meu pai iluminou a parede – era azul clara com desenhos de arranjos de flores distribuídos harmonicamente aqui e ali. O forro também era pintado não sei de que cor e possuía em suas bordas um arremate delicado, em art nouveau. Contigua à sala havia um quarto, lacrado, que quando teve sua porta aberta, depois de um tranco que meu pai teve de dar na fechadura, revelou dois catres de madeira, em que se dormia sobre colchão de palha de milho ou palha de arroz. Retornamos à sala e entramos num corredor que dava para outros dois quartos, cada um de uma cor: um amarelo e outro verde; ambos com os mesmos delicados ramalhetes de flores apagando-se pela parede cujo reboco caía.

Havia cheiro de mofo e urina e durante toda aquela visitação fomos acompanhados pela trilha sonora de ratos que andavam nervosos sobre o forro, bem como éramos assediados por voos rasantes dos morcegos despertados pela nossa invasão. Também zuniam infinitos pernilongos e a toda hora finas teias de aranha eram iluminadas pelos cantos. Meu irmão quis voltar, mas segurei-o pela mão e disse: “somos o Indiana Jones! Vamos!”. E continuamos a expedição, enfiando nossos narizes sob a gola de nossas camisetas. Ao final do corredor abria-se um novo salão. Ali o piso rangia e estalava, com eco – estávamos sobre os porões. Então eu mesmo quis retornar; meu irmão ensaiou um início de choro, que terminou quando meu pai pegou-o e colocou sentado sobre a comprida mesa que estava no meio daquele que era o salão de festas. Pediu para que esperássemos ali, quietinhos; afastou-se e desligou a lanterna. Silêncios e sombras. Nós gritamos aflitos: paaaaaiii!!!!! mas antes que as lágrimas escorressem sobre nossos rostos, abriram-se simultâneas as duas folhas da porta que dava para uma estreita varanda de concreto, apoiada sobre três colunas, mirante sobre o antigo pomar. Por entre a balaustrada da sacada, a luz do sol anestesiou-nos um pouco os olhos, mas, instantes depois, sentimos os cheiros que hoje posso dizer: são o perfume dos meus sete anos.

Pés de abacate, manga, tamarindo, graviola, romã e goiaba; jabuticabeiras inúmeras, laranjeiras de vários tipos e limoeiros em flor; bem diante de nós uma extensão do curral, que cercava a casa aos fundos e à direita da fachada principal; diante do curral, o paiol que abrigava a família do Nanico; atrás, já fora do pomar, nos pastos, erguia-se a árvore mais bonita da minha vida: uma paineira florida de rosa, cujas flores, quando ao chão, atraíam a fome de pequenos e últimos veadinhos que correram por aquele cerrado. Aqueles animaizinhos comiam flores! Ladeando a casa corria o rego d’agua com seriedade, testemunha de todos os tempos e águas que ali rolaram. Escutava-se o zumbido das abelhas e dos marimbondos e, mais assustador, das vespas, mas também cantavam sabiás, canarinhos, pássaros pretos, papagaios, araras, periquitos, coleirinhos e tesourinhas e tantos mais que não sei mais os nomes. De galho em galho ainda se via, com olhos espertos, os saguis nos vigiando e se escondendo. Dali daquela varanda eu vi pela primeira vez os jardins do Gênese.  Mas para aquele cenário seria o primeiro dia do juízo final.

Derrubou-se a maioria daquelas árvores, porque suas frutas ainda atraíam a gente predatória da cidade. Restaram apenas algumas jabuticabeiras, o curral, o paiol, o chiqueiro e os porões do casarão. Toda a beleza natural e arquitetônica se fora no prazo de poucos dias. Quando ali retornamos no final de semana seguinte, havia um imenso vazio na paisagem.


19 - O MENSAGEIRO DAS ESTRELAS




Ambas enviadas em 1º de maio de 1500 a D. Manuel I, o Venturoso, rei de Portugal, a carta de Caminha e um desconhecido relato astronômico de um certo Mestre João dividem a incerteza da importante posição de primeiro registro científico em território brasileiro. Enquanto Caminha traz descrições sobre a fauna, flora e recursos minerais, além de detalhadas observações sobre os indígenas, o relato de Mestre João informa sobre a primeira determinação de latitude obtida no Brasil, em 27 de abril de

1500. Este detalhe dá precedência científica ao trabalho do desconhecido navegador em relação à literatura de Caminha. Sobre a descrição do Cruzeiro do Sul por Mestre João ilustramos com o seguinte excerto:

Ontem, segunda-feira, 27 de abril, descemos em terra, eu e o piloto do capitão-mor e o piloto de Sancho Tovar; tomamos a altura do sol ao meio-dia e achamos 56 graus, sendo a sombra setentrional, pelo que, segundo as regras do astrolábio, julgamos estar afastados da equinocial por 17 graus e portanto ter a altura do pólo 17 graus segundo manifesto na esfera (...) Somente mando a Vossa Alteza como estão situadas as estrelas do sul, mas em que grau está cada uma não pude saber; antes me parece ser impossível, no mar, tomar a altura de alguma estrela, porque eu trabalhei muito nisso e por pouco que o navio balance, se erram 4 ou 5 graus, de modo que não se pode fazer, senão em terra (...) Tornando, senhor, ao propósito, estas Guardas nunca se escondem, antes sempre andam em derredor sobre o horizonte, e ainda estou em dúvida que não sei qual daquelas duas mais baixa seja o Pólo Antártico; e estas estrelas, principalmente a da Cruz, são grandes quase como a do Carro; e a estrela do Pólo Antártico, ou Sul, é pequena como a do Norte e muito clara e a estrela que está em cima de toda a Cruz é muito pequena. 

Kant dizia, ecoando Pascal - O silêncio desses espaços profundos me assombra -, que a única coisa que o encantava eram, além da lei moral interior, as estrelas. Esses dois filósofos não são diferentes da maioria do restante da humanidade, que, ao contemplar o céu, desde as idades mais pretéritas, se espanta e atribue-lhe adjetivos como divino. Mestre João, filho da Renascença, embora talvez cristão, não se contentava em apenas orar aos céus; seu ofício era olhá-lo e decifrá-lo com o objetivo semelhante ao que hoje os nossos cientistas apontam seus telescópios para o princípio do cosmos, ou as câmeras dos satélites para o nosso planeta: localizarmos-nos no espaço, no segundo caso e, no primeiro, no tempo. Apesar de toda poluição luminosa noturna, o espanto e o encantamento persistem, bem como o esforço científico de desmistificar o que a religião e o folclore tornam ainda mais misterioso e belo. 

Há cerca quatrocentos anos o empenho científico de desvendar o orbe celeste ganhou um incremento fundamental com a luneta, o óculo, de Galileu, melhorado, menos de cinqüenta anos depois, por Newton. Não teríamos, porém, feito na cosmologia os progressos de que hoje nos regozijamos - e nos fazem repensar a nossa (des)importância ante o universo -, utilizando-nos apenas desses primeiros instrumentos de observação; tampouco contando apenas com os grandes observatórios das altas cadeias de montanhas conseguiríamos ter sequer a ousadia de tentar desvendar os mistérios da matéria e energia escura, ou, para as pessoas mais práticas, conseguir que nossos aviões chegassem aos seus destinos sem um maior número de acidentes do que costuma ocorrer. Grande parte das facilidades da vida moderna decorre de eventos cuja história, a rigor, completou recentemente 50 anos: as ciência e tecnologia espaciais, com seus foguetes, telescópios, estações orbitais e satélites, são as grandes protagonistas da modernidade.

Não resta dúvida, portanto, que as ciências e tecnologias espaciais são fundamentais para o bem viver da sociedade do século XXI. É certo que o mínimo avanço nas fronteiras dessas ciências exigem um esforço gigantesco de milhares de cientistas em todo mundo; é certo também que, para tais cientistas poderem se dedicar com qualidade ao seu trabalho, não menor esforço é realizado pelos administradores públicos de seus respectivos países, e mesmo por seus representantes em órgãos internacionais. 

O foco da minha coluna na Rede CSF estará justamente na esfera política da questão da exploração espacial, embora eu possa também me aventurar pelos limites da ciência básica deste campo do conhecimento. Sendo mais preciso, apresentarei as linhas básicas da política científica e tecnológica do setor espacial brasileiro, encarnados no Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), desde as suas origens mais remotas, em 1961. Por meio deste trabalho gostaria de apontar insuficiências, gargalos e virtudes que, nos últimos quase 50 anos, levaram este País, de um lado, a uma posição de destaque na constelação dos países tecnologicamente mais avançados, mas, de outro, a acumular fragilidades no tocante à competitividade internacional e a dificuldades de avançar com maior velocidade seu programa espacial. 

O Brasil deve ter um programa espacial à altura de seus desbravadores do céu, como Santos Dummont e o Padre Bartolomeu de Gusmão, bem como de seu objetivos como nação, e o que já conseguimos no setor de aviação civil mostra que podemos ter sucesso em definir uma agenda própria na área espacial. Como diz o mestre Celso Furtado, “na crise de civilização que vivemos, somente a confiança em nós mesmos poderá nos restituir a esperança de chegar a um bom porto”. Na base da confiança mútua, vamos inaugurando aqui este espaço para discussão de como os brasileiros podem alcançar a suas Cinco Estrelas que coroarão nossa Ciência.