terça-feira, 12 de maio de 2015

22 - SEM SENHORA NEM SENHOR


 

Sem uma nem outra, procurei por terceiras; nenhuma me procurava. Restava-me o consolo de alguns amigos – mas amigos que estão no mesmo labirinto servem apenas para nos dar o inútil consolo de que estou tão perdido quanto eles! Por fim, apegamo-nos a Deus, companheiro com quem andava em bom diálogo ao longo do dia, todos os dias, desde as minhas mais remotas lembranças: minha mãe, com todos os seus cabelos ainda pretos, o terço na mão diante de um altar florido, rezando o rosário durante horas, com uma felicidade calma no rosto. Mas o Senhor não estava sendo suficiente para mim. Começava a correr mais sangue ao meu sul do que ao meu norte. O foco da minha mente fixava-se na boca da mulher, não no sorriso; no suor, não no perfume; tentava adivinhar pelo ritmo da respiração dela como ela gemeria se estivesse entre meus braços. E quanto mais eu abraçava minha deusa imaginária, buscando torná-la real, mais meu Deus real desfazia-se em mitologia. Quanto mais procurava sair de mim, buscando um sentido no exterior feminino, mais desmoronava-se o meu interior divino. Fui restando apenas homem, macho, apenas barro; sem forma, rumo, sem Eva.


Essa desconstrução da minha relação com o sublime não se deu apenas por obra do descaso da mulher para comigo, mas também pelo meu interesse crescente nas humanidades e na ciência. À medida que eu intensificava os estudos colegiais, foram desbotando as cores da religião que institucionalizara Deus no meu círculo social, na minha família e na minha mente. Deixei de enxergar a Igreja como templo do sagrado, vendo-a mais como um Ministério das Relações Celestiais, onde a política tinha primazia sobre o amor, o poder era mais importante que o perdão e o Papa poderia destituir o Imperador como se isso fosse a vontade do Altíssimo, desconsiderando-se a vontade do povo. Havia uma ditadura divina em que a tortura poderia ser chamada de inferno e pecado. Eu havia sido longa e suavemente educado nessa disciplina do medo revestido de proteção. Meu Deus servia apenas pra me afastar do martírio que ele potencialmente criara pra mim; e aumentando a minha insatisfação, Ele parecia não ter poder para me abrir as portas da mulher. Entristeci. Duvidei. Fiquei sozinho. 



Buscando àquela que me salvaria, perdi a Deus e a mim mesmo. Como é desértico e desassossegado o caminho de quem vai apenas escutando os próprios passos. Como é sem caminho a jornada em busca da própria alma. É como ter que reinventar os dez mil anos de civilização, no menor tempo possível, sob pena da perenidade da falta de sentido comprometer nossa sanidade e tranquilidade; é como ter que reinventar-se a si mesmo. Tornamo-nos o nosso próprio caminho e vamos nos pisando, marcando em nós nossos tropeços, sentindo nosso próprio peso, nossa falta de jeito em pisar com a ponta dos pés a estrada da existência. 

Desacreditado das lições do céu sumério, babilônico, judaico e cristão, não quis me entrincheirar em uma nova religião. Os fantásticos acontecimentos de setembro de 2001 deixaram claro que não apenas o cristianismo usava a relação dos homens com Deus como forma de incitação da guerra sacralizada. Ao longo dos séculos, todas as crenças se apropriaram sistematicamente do divino para legitimar a violência como forma de alcançar e manter o governo dos homens. Com esta verdade, ao menos uma questão pacificou-se em mim: não era de Deus que eu me afastara, mas sim da antropomorfização e socialização que lhe conferimos. E isto, que seria uma solução, tornou-se uma falta de ar. Como eu poderia novamente abraçar algo que não mais tinha braços? Como eu poderia contemplar os olhos paternais de quem não mais tinha rosto? Como eu poderia reencontrar alguém que não era mais ninguém? 

Os luminosos caminhos da razão claramente nos levam para a escuridão das incertezas. Os indesvendáveis caminhos da fé nitidamente nos conduzem para a verdade absoluta. Não seria mais cômodo reassumir sem contestação a antiga crença? Eu não deveria concordar com Santo Agostinho para quem a solução seria crer para compreender? Ou então, se eu me tornasse um deísta, como Voltaire, já não seria um avanço? Aliás, não seria até mesmo mais seguro do que levar adiante aquela dúvida sobre o essencial que dá sentido ao princípio e ao fim? Como seria meu além-vida se eu estivesse errado? Quente e sulfúrico? Melhor aderir a Pascal: na dúvida, creia! Porém isso me parecia uma grande covardia. Aprovaria Deus os que n’Ele creem por temor e não por amor? Enfim, teria mesmo Deus a sua própria justiça, ou seria Ele a Justiça Em Si? 

A investigação dessas metafísicas não tem ponto final, apenas interrogações. Eu não quis facilitar a minha vida voltando a me ajoelhar diante nos velhos bancos das Igrejas. Contudo, foi tornando-se muito desgastante pessoal e socialmente aquela busca. Parentes mais próximos e conhecidos começaram a me direcionar um olhar de pena, querendo me reprovar com alguma dose de compaixão com que foram doutrinados. Não pisei atrás, mas também não mais quis caminhar sozinho. Iniciei uma longa conversa, que dura até hoje, com aqueles que trilharam o mesmo caminho da dúvida capital. Na prisão conceitual e sentimental criada por mim mesmo, como para Boécio, restaram-me as consolações da filosofia e da ciência.

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