Ambas enviadas em 1º de maio de 1500 a D. Manuel I, o Venturoso, rei de Portugal, a carta de Caminha e um desconhecido relato astronômico de um certo Mestre João dividem a incerteza da importante posição de primeiro registro científico em território brasileiro. Enquanto Caminha traz descrições sobre a fauna, flora e recursos minerais, além de detalhadas observações sobre os indígenas, o relato de Mestre João informa sobre a primeira determinação de latitude obtida no Brasil, em 27 de abril de
1500. Este detalhe dá precedência científica ao trabalho do desconhecido navegador em relação à literatura de Caminha. Sobre a descrição do Cruzeiro do Sul por Mestre João ilustramos com o seguinte excerto:
Ontem, segunda-feira, 27 de abril, descemos em terra, eu e o piloto do capitão-mor e o piloto de Sancho Tovar; tomamos a altura do sol ao meio-dia e achamos 56 graus, sendo a sombra setentrional, pelo que, segundo as regras do astrolábio, julgamos estar afastados da equinocial por 17 graus e portanto ter a altura do pólo 17 graus segundo manifesto na esfera (...) Somente mando a Vossa Alteza como estão situadas as estrelas do sul, mas em que grau está cada uma não pude saber; antes me parece ser impossível, no mar, tomar a altura de alguma estrela, porque eu trabalhei muito nisso e por pouco que o navio balance, se erram 4 ou 5 graus, de modo que não se pode fazer, senão em terra (...) Tornando, senhor, ao propósito, estas Guardas nunca se escondem, antes sempre andam em derredor sobre o horizonte, e ainda estou em dúvida que não sei qual daquelas duas mais baixa seja o Pólo Antártico; e estas estrelas, principalmente a da Cruz, são grandes quase como a do Carro; e a estrela do Pólo Antártico, ou Sul, é pequena como a do Norte e muito clara e a estrela que está em cima de toda a Cruz é muito pequena.
Kant dizia, ecoando Pascal - O silêncio desses espaços profundos me assombra -, que a única coisa que o encantava eram, além da lei moral interior, as estrelas. Esses dois filósofos não são diferentes da maioria do restante da humanidade, que, ao contemplar o céu, desde as idades mais pretéritas, se espanta e atribue-lhe adjetivos como divino. Mestre João, filho da Renascença, embora talvez cristão, não se contentava em apenas orar aos céus; seu ofício era olhá-lo e decifrá-lo com o objetivo semelhante ao que hoje os nossos cientistas apontam seus telescópios para o princípio do cosmos, ou as câmeras dos satélites para o nosso planeta: localizarmos-nos no espaço, no segundo caso e, no primeiro, no tempo. Apesar de toda poluição luminosa noturna, o espanto e o encantamento persistem, bem como o esforço científico de desmistificar o que a religião e o folclore tornam ainda mais misterioso e belo.
Há cerca quatrocentos anos o empenho científico de desvendar o orbe celeste ganhou um incremento fundamental com a luneta, o óculo, de Galileu, melhorado, menos de cinqüenta anos depois, por Newton. Não teríamos, porém, feito na cosmologia os progressos de que hoje nos regozijamos - e nos fazem repensar a nossa (des)importância ante o universo -, utilizando-nos apenas desses primeiros instrumentos de observação; tampouco contando apenas com os grandes observatórios das altas cadeias de montanhas conseguiríamos ter sequer a ousadia de tentar desvendar os mistérios da matéria e energia escura, ou, para as pessoas mais práticas, conseguir que nossos aviões chegassem aos seus destinos sem um maior número de acidentes do que costuma ocorrer. Grande parte das facilidades da vida moderna decorre de eventos cuja história, a rigor, completou recentemente 50 anos: as ciência e tecnologia espaciais, com seus foguetes, telescópios, estações orbitais e satélites, são as grandes protagonistas da modernidade.
Não resta dúvida, portanto, que as ciências e tecnologias espaciais são fundamentais para o bem viver da sociedade do século XXI. É certo que o mínimo avanço nas fronteiras dessas ciências exigem um esforço gigantesco de milhares de cientistas em todo mundo; é certo também que, para tais cientistas poderem se dedicar com qualidade ao seu trabalho, não menor esforço é realizado pelos administradores públicos de seus respectivos países, e mesmo por seus representantes em órgãos internacionais.
O foco da minha coluna na Rede CSF estará justamente na esfera política da questão da exploração espacial, embora eu possa também me aventurar pelos limites da ciência básica deste campo do conhecimento. Sendo mais preciso, apresentarei as linhas básicas da política científica e tecnológica do setor espacial brasileiro, encarnados no Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), desde as suas origens mais remotas, em 1961. Por meio deste trabalho gostaria de apontar insuficiências, gargalos e virtudes que, nos últimos quase 50 anos, levaram este País, de um lado, a uma posição de destaque na constelação dos países tecnologicamente mais avançados, mas, de outro, a acumular fragilidades no tocante à competitividade internacional e a dificuldades de avançar com maior velocidade seu programa espacial.
O Brasil deve ter um programa espacial à altura de seus desbravadores do céu, como Santos Dummont e o Padre Bartolomeu de Gusmão, bem como de seu objetivos como nação, e o que já conseguimos no setor de aviação civil mostra que podemos ter sucesso em definir uma agenda própria na área espacial. Como diz o mestre Celso Furtado, “na crise de civilização que vivemos, somente a confiança em nós mesmos poderá nos restituir a esperança de chegar a um bom porto”. Na base da confiança mútua, vamos inaugurando aqui este espaço para discussão de como os brasileiros podem alcançar a suas Cinco Estrelas que coroarão nossa Ciência.

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