Eu tinha 17 anos e iniciava o último ano do ensino médio. Enquanto quase todos os meus colegas se debatiam com que carreira profissional escolher e, consequentemente, que curso universitário seguir, eu já estava certo do que estudaria: Política. Apenas a ação coordenada dos homens em torno de um líder pode mudar seu próprio destino e melhorar suas condições econômicas e sociais. Tal convicção, dura, reta e destinada ao desmonte, foi construída no processo de conhecer a mim mesmo pelo estudo da filosofia. Da filosofia da religião fui migrando nos dois anos anteriores para a filosofia política, impulsionado pela minha tendência às humanidades. E foi aí que me achei confortável na companhia de Hobbes, Rousseau, Marx, Weber, Gramsci e Raymond Aron.
Eu passara as férias escolares lendo os clássicos e discutindo com amigos afeitos ao tema as questões de poder no Brasil e no mundo. Os intervalos das aulas eu sentava com os professores de história, geografia e filosofia para pedir recomendações de leituras e testar meus pontos de vista. Gastava todas as minhas horas de estudo dedicando-me a isso. Em compensação, naufragavam minha matemática, física e química. Também eu não mais sabia o que conversar com as meninas, pois eu sempre conduzia a conversa para discussões sobre partidos políticos, aumento de impostos e projeção internacional do país. Às vezes, tentando ser descontraído, eu acabava falando de sexo muito diretamente, sem as cortinas e meia luzes que tornam o tema mais excitante e menos vulgar. Talvez eu já soubesse o que quisesse ser quando crescer, mais ainda sabia muito pouco sobre a minha posição como homem diante da mulher.
Sem namorada, vez ou outra eu comprava a Playboy ou a Sexy com o dinheiro que eu recebia de mesada. Num tempo em que a internet era discada e muito lenta, as fotos e vídeos que divertiam os jovens demoravam muitíssimo a carregar e, às vezes, não compensavam a espera. Melhor comprar aquelas revistinhas mesmo. Naquela tarde, sexta-feira, meados de junho de 200..., despedi-me de todos meus colegas, esperei um pouco sentado no banco da praça, para evitar posteriores encontros inoportunos, e dirigi-me à banca de jornal. Fiquei por ali, dando uma disfarçada, fingindo interesse em alguma outra coisa. O dono da banca já me conhecia e, apontando uma sacola preta, disse-me– Já guardei pra você. Eu morria de medo daquilo, afinal aquele comércio pornográfico me era proibido. Peguei a sacola e coloquei-a dentro da mochila, deixando muito discretamente em cima das caixas de chicletes e balinhas, sobre o balcão, o dinheiro devido.
Mas naquela de dissimular minha fraqueza pelo prazer sexual estético, passei os olhos por uma revista diferente, que estava sendo lançada naquele mês. A reportagem principal, anunciada com a figura de um robozinho circulando entre as hemácias, era sobre nanotecnologia, algo que meu professor de biologia havia mencionado recentemente. Fiquei curioso com o tema, dei uma folheada e me encantei também com o capricho da edição. Juntei as moedinhas espalhadas pelos bolsos da mochila e resolvi levar aquela revista também. Voltei para casa sentindo aquele cheirinho de papel recém impresso, com imagens muito coloridas, excitantes. A Scientific American Brasil nº1 animou-me muito mais que a Playboy daquele mês.
Não foi a matéria sobre nanotecnologia que me prendeu durante horas àquela revista. Numa das primeiras páginas, naquela parte de textinhos curtos sobre temas variados, havia uma coluna com o seguinte título No Coração da Escuridão Cósmica, tratando sobre o modelo ecpirótico da origem do cosmos, concebido em 2001 por Paul Steinhardt da Princeton University e Neil Turok da Cambridge University. A teoria descreve um universo "explodindo na existência" não somente uma vez, mas repetidamente no tempo.
Essa proposta de inúmeros Big Bangs e um ciclo de universos mexeu profundamente com o meu estar no mundo. De repente meu tempo não era o Tempo, apenas mais um entre vários possíveis; minha existência tornava-se um acidente sem propósito nenhum; se Deus era senhor deste universo, um dia também lhe chegaria o fim – ou será que havia um Deus maior? As clássicas perguntas Onde estou? Quem sou eu? perderam o sentido psicológico e pequeno no contexto da minha vida e ganharam a dimensão de um super cosmos. Naquela tarde, sexta-feira de medos de junho de 200..., minha vida mudaria para sempre. Foi neste dia em que tive minha revelação científico-religiosa, minha epifania, minha cosmoconsciência.
Reli o textinho. E de novo. E mais uma vez. Em menos de uma hora eu já o sabia de cor. Porém, muitos dos termos ali minha inteligência não alcançava o significado, apenas intuía e, auxiliada pela imaginação, tentava fechar o raciocínio diante das falhas de compreensão conceitual. Para além da imaginação, recorri às antigas enciclopédias e tive a paciência de baixar, muito vagarosamente, alguns artigos da internet, inclusive em inglês. Fui devorando tudo aquilo entremeando o entendimento físico com o sentimento de ser. Fui adquirindo uma consciência maior da minha insignificância, da inexpressividade da minha existência, do ridículo dos anseios e das vaidades da política. E quanto mais eu me via menor, mais eu me sentia maior. E naquela tarde, que logo foi entrando na noite, eu me sentia nada, mas também me sentia tudo. Anulado, senti-me vivo.
Outras vezes eu experimentaria felicidades imensas na minha vida, mas nenhuma equiparar-se-ia com esta que ora relembro. Depois de algum tempo, entre sentimentos extremos e entendimentos inéditos, comecei a pular e a rir bem alto no meu quarto, de modo que com as pontas dos dedos eu conseguia alcançar o teto (nunca mais eu conseguiria fazer aquilo). Aos pulos acrescentei giros e às gargalhadas lágrimas, num êxtase de cerimônia sufi. Por quase uma hora permaneci neste transe ancestral. Exausto deixei-me cair. Deitado, de bruços, com os lábios beijando o chão; o vapor da minha respiração agitada se condensando na cerâmica fria; silêncio; silêncio; troco de posição e testemunho o branco teto ir se desfazendo no escuro do espaço, no escuro do tempo; silêncio; silêncio; um silêncio interrompido com sons de batida de um tambor primitivo – meu peito era a caixa de reverberação e minha mão fechada a ponta das baquetas. Era o som do meu coração iluminado ecoando o coração das trevas do cosmos, provando-me vivo; vivo mas imensamente pequeno, um acaso do universo; um universo entre muitos universos. Adormeci.
O toque estridente e insistente do telefone despertou-me. Eu estava todo molhado de suor e tive medo quando, em apenas dois segundos, me dei conta que sabia do princípio e do fim, do antes e do depois; dentro e fora do tempo, para sempre e nunca mais. Mas foi em Amanda me dizer, do outro lado da linha, Oiiiiiii!!!, para eu me esquecer de tudo. Muitas décadas seriam necessárias para que eu reaprendesse um quase nada daquilo que me foi revelado em quarenta minutos vivendo dentro de um sonho estranho de Deus.

Nenhum comentário:
Postar um comentário