Eu não sabia que atrás das cortinas pesadas daquelas noites de domingo da minha infância havia uma enorme cruz pra nos proteger – e por isso nada acontecia a meu pai, eu concluí depois. Na verdade não era uma simples cruz, era um cruzeiro de madeira, fixado numa base alta e quadrada de pedras e tijolos, à beira de volumoso rego d’água que fazia subir e descer o monjolo, num terreno mais abaixo. Eu também não sabia que na frente deste cruzeiro tinha um pequeno chafariz outrora revestido de pedrinhas brancas redondas; eu não sabia que diante deste chafariz, à sombra da tarde da gameleira mágica, na meia encosta de uma suave colina, havia uma grande casa em ruínas, a casa da minha bisavó. Descobri tudo isso em dia claro, quando fomos eu e meu irmão levados por meu pai para que pudéssemos entrar pela primeira e última vez naquele velho casarão. Era o dia do desmonte, quando se colocaria abaixo 70 anos de memória para aproveitar o que restara da antiga casa e erguer uma morada que pudesse abrigar com mais conforto o peão de fazenda e sua família.
Desde a morte de minha avó, uns cinco anos antes, tentava-se manter a terra produtiva pra que não fosse expropriada para a reforma agrária, num tempo em que os movimentos de “sem-terra” começavam a mostrar sua força. Foi-se engordando como dava o gado ruim que restara de outras eras mais venturosas. Tomava conta de tudo quem chamávamos de Nanico, mas ele era um moreno enorme, magro e forte, de uns 30 anos, com alguns poucos dentes na boca e três filhos para criar. Morava com a esposa, a sogra e o sogro no antigo paiol da propriedade – construção fechada com tábua, elevada do chão, com piso de largas tábuas. De ambos os lados havia um puxadinho também coberto de telhas em que se ergueram entre os mourões paredes de pau a pique delimitando a cozinha, com fogão de lenha também de barro, e o banheiro apenas pra se tomar banho, já que para satisfazer as demais necessidades havia, afastada, uma casinha de adobe sobre uma fossa; entre a casinha e a fossa uma laje de concreto com um buraco no meio, mais nada.
Mas havendo bem em frente ao paiol casarão imponente e vasto, porque morar em habitação tão mal arranjada? Caía sobre si mesmo o casarão. Depois de décadas de glória, sucederam-se alguns anos de abandono – o suficiente para que a casa fosse invadida e pilhada em sua mobília e até mesmo da sua estrutura: algumas janelas e portas haviam sido roubadas; telhas retiradas; parte da decoração do forro furtada. Ademais, aquela casa, dos princípios da década de 1920, fora construída com grossas paredes de tijolos se apoiando diretamente sobre vigas de aroeira que também sustentavam o piso de madeira. Acontece que o peso das paredes de quatro metros de altura, foi deformando as vigas que acabaram cedendo. A falta de conservação, somada ao vandalismo que vinha da cidade, não permitiam que ninguém mais morasse ali naqueles tempos. Como a casa como um todo poderia desmoronar sem aviso, optou-se por salvar a grande quantidade de material ainda utilizável e demolir o símbolo dos melhores tempos de antigamente.
Era uma manhã morna de sábado e eu tinha uns poucos anos. Antes que os pedreiros subissem nas escadas para começarem a descer as enegrecidas telhas francesas, pesados caibros e longas ripas, meu pai abriu as portas do passado para mim e meu irmão. Entramos apenas nós três, nossos passos e olhares conduzidos por uma lanterna. Havia muita, muita poeira e terra, por isso andávamos devagar. A sala de visitas era ampla, com quatro janelões. O teto era bem alto. Meu pai iluminou a parede – era azul clara com desenhos de arranjos de flores distribuídos harmonicamente aqui e ali. O forro também era pintado não sei de que cor e possuía em suas bordas um arremate delicado, em art nouveau. Contigua à sala havia um quarto, lacrado, que quando teve sua porta aberta, depois de um tranco que meu pai teve de dar na fechadura, revelou dois catres de madeira, em que se dormia sobre colchão de palha de milho ou palha de arroz. Retornamos à sala e entramos num corredor que dava para outros dois quartos, cada um de uma cor: um amarelo e outro verde; ambos com os mesmos delicados ramalhetes de flores apagando-se pela parede cujo reboco caía.
Havia cheiro de mofo e urina e durante toda aquela visitação fomos acompanhados pela trilha sonora de ratos que andavam nervosos sobre o forro, bem como éramos assediados por voos rasantes dos morcegos despertados pela nossa invasão. Também zuniam infinitos pernilongos e a toda hora finas teias de aranha eram iluminadas pelos cantos. Meu irmão quis voltar, mas segurei-o pela mão e disse: “somos o Indiana Jones! Vamos!”. E continuamos a expedição, enfiando nossos narizes sob a gola de nossas camisetas. Ao final do corredor abria-se um novo salão. Ali o piso rangia e estalava, com eco – estávamos sobre os porões. Então eu mesmo quis retornar; meu irmão ensaiou um início de choro, que terminou quando meu pai pegou-o e colocou sentado sobre a comprida mesa que estava no meio daquele que era o salão de festas. Pediu para que esperássemos ali, quietinhos; afastou-se e desligou a lanterna. Silêncios e sombras. Nós gritamos aflitos: paaaaaiii!!!!! mas antes que as lágrimas escorressem sobre nossos rostos, abriram-se simultâneas as duas folhas da porta que dava para uma estreita varanda de concreto, apoiada sobre três colunas, mirante sobre o antigo pomar. Por entre a balaustrada da sacada, a luz do sol anestesiou-nos um pouco os olhos, mas, instantes depois, sentimos os cheiros que hoje posso dizer: são o perfume dos meus sete anos.
Pés de abacate, manga, tamarindo, graviola, romã e goiaba; jabuticabeiras inúmeras, laranjeiras de vários tipos e limoeiros em flor; bem diante de nós uma extensão do curral, que cercava a casa aos fundos e à direita da fachada principal; diante do curral, o paiol que abrigava a família do Nanico; atrás, já fora do pomar, nos pastos, erguia-se a árvore mais bonita da minha vida: uma paineira florida de rosa, cujas flores, quando ao chão, atraíam a fome de pequenos e últimos veadinhos que correram por aquele cerrado. Aqueles animaizinhos comiam flores! Ladeando a casa corria o rego d’agua com seriedade, testemunha de todos os tempos e águas que ali rolaram. Escutava-se o zumbido das abelhas e dos marimbondos e, mais assustador, das vespas, mas também cantavam sabiás, canarinhos, pássaros pretos, papagaios, araras, periquitos, coleirinhos e tesourinhas e tantos mais que não sei mais os nomes. De galho em galho ainda se via, com olhos espertos, os saguis nos vigiando e se escondendo. Dali daquela varanda eu vi pela primeira vez os jardins do Gênese. Mas para aquele cenário seria o primeiro dia do juízo final.
Derrubou-se a maioria daquelas árvores, porque suas frutas ainda atraíam a gente predatória da cidade. Restaram apenas algumas jabuticabeiras, o curral, o paiol, o chiqueiro e os porões do casarão. Toda a beleza natural e arquitetônica se fora no prazo de poucos dias. Quando ali retornamos no final de semana seguinte, havia um imenso vazio na paisagem.
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