sábado, 16 de maio de 2015

23 - TARDE VOS AMEI




Tarde Vos amei,
ó Beleza tão antiga e tão nova,
tarde Vos amei!
Eis que habitáveis dentro de mim,
e eu, lá fora, a procurar-Vos!

(Santo agostinho)


No alto do monte Moriá não se diria de qualquer filosofia que pudesse amenizar o desespero daquele pastor. Até ali foram três dias de desértica viagem remoendo os obscuros propósitos dos céus. Cortada a lenha e ascendido o fogo, na iminência de sacrificar seu filho, o velho teve as mãos suspensas pelo Anjo do Senhor - Abraão! Abraão! Até aquele derradeiro segundo, antes que a lâmina da faca pudesse rasgar a pele de Isaac, o patriarca vivia sua angústia aferrado à sua fé: Deus proverá. O salto sobre o abismo que a crença religiosa nos solicita, ensinou-nos Kierkegaard, não é racional e vai além da ética e da moral. Jogamo-nos no mistério do divino impulsionados pelo absoluto Amor ao Absoluto. Sem palavras, muitas lágrimas; uma dolorida alegria silenciosa.

Durante um feriado prolongado, enclausuramo-nos no prédio do asilo da cidade, que acabara de ser reformado e ainda possuía dois grandes salões vagos. Em um deles ficaram os meninos, noutro as meninas. Para muitos daqueles jovens crismandos, a maioria entre seus treze e dezesseis anos, era a primeira vez que se encontravam longe de casa por tanto tempo, experimentando a liberdade da vigília dos pais. Estávamos ali para rezar e refletir; fazer um profundo exame das nossas falhas e, caso sentíssemos o nosso coração tocado, deveríamos, ao final do encontro, declarar nossa intenção de continuarmos participando da eucaristia, recebendo a hóstia consagrada.

Éramos acordados pelos sinos às cinco e meia da manhã e conduzidos para o banho. Três levas de 15 garotos, todos nus, debaixo duma água geladíssima. Às seis e meia deveríamos estar na capela para a abertura dos trabalhos e para a primeira missa do dia. Às oito era o café e às nove começavam as palestras e gincanas e leituras. Almoçávamos, mas tínhamos de lavar a louça e limpar a cozinha e a sala de refeições. Depois seguíamos para o exame coletivo de consciência. Relaxávamos com o lanche que era acompanhado por violão e cantos religiosos, ao que se seguia a elaboração de uma pequena peça teatral que deveria ser apresentada na última celebração do evento. À noite, depois da última missa do dia, o jantar seguia a mesma rotina laboral do almoço, acrescida da ansiedade de mais um banho frio antes de dormir. Houve quem, apenas se enrolando na toalha e molhando os cabelos, enganasse os monitores e, depois da primeira traumática chuveirada da manhã, passasse o restante do retiro sem saber o que fosse água e sabão.

Não bastaram o gelo da água nem a disciplina e controle ostensivo dos catequistas e padres; nem mesmo o olhar punitivo de Deus. Quando as luzes se apagavam às dez horas, depois de um breve silêncio, o quarto dos rapazes lentamente ia sendo tomado por uns risinhos maliciosos, umas frases que não eram orações, e evocações de mulheres que não eram santas. Por debaixo das cobertas, Bethânia, Andréia, Gabriela e Juliana eram as nossas colegas mais frequentemente imaginadas e sussurradas em meio a gemidos e suspiros. Naqueles minutos que se seguiam ao início da escuridão, permanecíamos todos deitados sobre nossos finos e embolorados colchões. Mas logo um e outro se encorajavam e se erguiam para conversar com um rapaz que se deitara mais distante. As palavras que eram ditas por entre dentes, logo ganhavam toda a boca e, subitamente, sem nos intimidarmos, encontrávamos em guerra de travesseiros, exibicionismos sexuais e até mesmo lutas corporais. Não houve uma noite em que as luzes tiveram de ser acesas para que nos fosse imposta nova ordem, sob ameaça desesperada de excomunhão. Durante as três noites que passamos ali, chorei sem que ninguém me ouvisse.

Eu realmente estava procurando a Deus.  Em segredo, considerando a minha grande devoção, a diretora dos catequistas confidenciou-me que eu era um dos poucos jovens que realmente estava pronto para ter a maravilhosa experiência de estar com Ele profundamente. Alegrei-me com esta promessa, vivi o que me pediram para viver, mas eu nada sentia. Tomei os banhos frios e comi aquela comida ruim sem nada reclamar; esforcei-me ao máximo para não me entregar à carne e a mulher alguma – embora existisse Juliana, ah! Juliana! -; fui a todas as missas, jejuei quando isso foi nos dado como opção; li todos os versículos recomendados; confessei meus pecados aos padres, mesmo os mais leves, que são os mais ridículos e constrangedores. Eu tinha a admiração do meu esforço por parte dos instrutores de religião; tanto que me fizeram representar Jesus no teatro da última missa. Mas eu não sentia nada. Enquanto eu vi alguns daqueles agitados meninos terem a sua face e coração serenados pelas palavras do Senhor, eu parecia ser o único a adquirir um grande vazio.

Agravou-se meu estado quando, mesmo cada vez mais distanciado da antiga crença, confirmei meus batismo na cerimônia da Crisma, no final de semana seguinte. A situação tornou-se crítica poucos meses depois, em tempo de sucessivas súplicas a Deus pelo amor de T., quando fui por ela abandonado à amizade, que era a única forma que ela encontrara de me amar. Deus não estava comigo? Ou era eu que não estava com Deus? Estaria o Altíssimo me pedindo para, no mesmo altar de Isaac, sacrificar T. em prova da minha dedicação a Ele? Deus não poderia ser tão mesquinho... Ela era inegociável, apenas uma mulher, mais nada. E tinha de ser minha! Mas não era a questão dela ser apenas uma mulher. Era a construção do meu conceito e da experiência do Amor que estava em jogo. Não é possível que aconteça o salto de fé sem que antes se caminhe longamente no Amor. E a estrada do amor ao próximo e a um possível Deus, começa com o primeiro passo do amor próprio. E como só amamos o que conhecemos, fui me conhecer.

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