terça-feira, 6 de dezembro de 2022

32 - O SOM DO RUGIDO DA ONÇA

 


Iñe-e é a menina miranha que foi onçada, ainda bebê, por Tai-tipai uu. Uma vez nessa condição, era inevitável que se tornasse Uaara-Iñe-e, onça nova, caçadora, vingativa.

 

Após ter sido dada por seu pai em meio a uma transação escravista, foi levada como souvernir do Brasil para a Baviera pelos naturalistas Spix e Martius, em 1821. Morreria assim que chegasse, logo após o ter tido o mesmo fim seu inimigo-irmão, uma criança juri, Caracara-í.

 

Duzentos anos depois, Josefa, em São Paulo, é onçada, em um museu, por uma gravura que retrata essas duas crianças. Gravura que suscita nela a vontade de resgatar suas raízes étnicas da avó pega no laço, raízes cortadas ao longo de séculos de colonialismo cultural e sexual. Empreende então sua jornada europeia em busca daquelas crianças. Ao fim, saberemos os destinos dos brasis Iñe-e, Caracara-í, embarcados na igara do céu, como os demais espíritos amazônicos - sejam gente ou bicho; sabemos também como acabam Spix e Martius, mas não sabemos o que se deu com Josefa – teria se reencontrado seu rosto mestiço essencial e escrito este livro?

 

“O som do rugido da onça” é um fraco miado de gato de sala-de-estar. Mistura registros cultos com populares, mas longe da maestria do Guimarães Rosa e seu Grande Sertão, referenciado numa das epígrafes. Os registros populares não convencem na boca de quem são emitidos, indígenas do início do século XIX – e não caboclos amazônicos do século XX. Mistura também realidade e fantasia, história brasileira e mitos indígenas – e é onde reside alguma inventividade e brilho, indo do século XIX ao XXI, do Brasil à Alemanha, de Belém ao Rio, do Amazonas ao Isar; mas também oscilando entre uma autobiografia maldisfarçada (mas bem contada) à invenção de biografias muito fugidia das duas personagens principais; os hábitos da nobreza alemã de antanho refletem mais os da burguesia brasileira de hoje; e muitos dos mitos indígenas são tratados com pressa, quase que citados, sem serem incorporados no cerne da história. Não engoli.

 

Li sem riso, sem dor, sem amor. Mas li até o fim, o que nem sempre acontece, porque o tédio faz  com que eu deixe muitos livros caídos ao pé da cama. O que me segurou foi um certo lirismo, ainda que acanhado, resumido a poucas palavras, poucas linhas, espaçado ao longo da obra, como nos exemplos a seguir.

 

“E toda voz da infância, sabe-se, é selvagem, animal, insubordina os sentidos” (p. 15)

 

“O chocalho a desperta em sobressalto cada vez que o sono vem fechar seus olhos [...] A criança toca o instrumento que tange o mundo que ela conhece e o mundo que ela enxerga no vazio” (p. 80-81).

 

O que me prendeu a atenção foi a descrição de alguns costumes indígenas, enriquecedora, mas quase sempre servindo apenas a isso mesmo, descrever costumes, sem que essas manifestações culturais tivessem uma maior penetrabilidade para explicar a narrativa.

 

“É possível envenená-la, zarabatana, como fazem os guerreiros do povo miranha com o curare preparado com suor e sangue das mulheres, É possível incendiá-la, curare quente e amargo” (p. 15).

 

O grande mérito da obra está em dar vida àquilo que na maioria das histórias tropicais é apenas cenário: as árvores, os arbustos, as epífitas, o solo, a chuva, os rios, o mar, os grandes mamíferos, os pequenos anfíbios, os répteis ancestrais. Tudo isso numa cosmologia que perpassa, seja por meio da linguagem das águas ou pelo voo da onça, todos os tempos e lugares, sem fronteiras físicas, penetrando profundamente a psiquê dos mais diversos povos originários e antigos e, de vez em quando, dos cidadãos do século XXI, como a personagem Josefa, alter ego da autora.

 

“A paca fala de uma maneira, o tabaco fala de outra. A anta tem um acento, o jacaretinga tem outro. Tem palavras que só as onças usam e que não é dados a nenhum outro anima dizê-las [...] A voz da árvore tem semelhança com a voz da nuvem, e a voz da pedra é em igual tom ao da voz dos espíritos, uma fala muito clara e cortante” (p. 39).

 

O livro mal toca na questão da escravidão negra e tangencia sem coragem os tempos sombrios e convulsionados do governo Bolsonaro quanto à questão ambiental, dos direitos humanos e proteção das terras e saúde indígena. Deveria ter ido além. A arte serve para isso, a despeito dos que defendem a falsa nobreza da sua inutilidade. Mas o livro cumpre certamente a sua missão de colocar o índio no centro da nossa alma brasileira, resgatando-o dos nomes de ruas, praças, cidades, que, conforme lembrado pela autora, foram assim nomeados apenas como ornamentos linguísticos, troféus de uma guerra em que o índio ainda resiste. O livro instiga o rugido da nossa onça interior na cara de uma sociedade que não se reconhece nem indígena nem africana, preferindo ainda ser pálida cópia de uma decadente Europa.