Iñe-e
é a menina miranha que foi onçada, ainda bebê, por Tai-tipai uu. Uma vez nessa
condição, era inevitável que se tornasse Uaara-Iñe-e, onça nova, caçadora,
vingativa.
Após
ter sido dada por seu pai em meio a uma transação escravista, foi levada como
souvernir do Brasil para a Baviera pelos naturalistas Spix e Martius, em 1821.
Morreria assim que chegasse, logo após o ter tido o mesmo fim seu
inimigo-irmão, uma criança juri, Caracara-í.
Duzentos
anos depois, Josefa, em São Paulo, é onçada, em um museu, por uma gravura que
retrata essas duas crianças. Gravura que suscita nela a vontade de resgatar
suas raízes étnicas da avó pega no laço, raízes cortadas ao longo de séculos de
colonialismo cultural e sexual. Empreende então sua jornada europeia em busca
daquelas crianças. Ao fim, saberemos os destinos dos brasis Iñe-e, Caracara-í,
embarcados na igara do céu, como os demais espíritos amazônicos - sejam gente
ou bicho; sabemos também como acabam Spix e Martius, mas não sabemos o que se
deu com Josefa – teria se reencontrado seu rosto mestiço essencial e escrito este
livro?
“O
som do rugido da onça” é um fraco miado de gato de sala-de-estar. Mistura
registros cultos com populares, mas longe da maestria do Guimarães Rosa e seu
Grande Sertão, referenciado numa das epígrafes. Os registros populares não
convencem na boca de quem são emitidos, indígenas do início do século XIX – e
não caboclos amazônicos do século XX. Mistura também realidade e fantasia,
história brasileira e mitos indígenas – e é onde reside alguma inventividade e
brilho, indo do século XIX ao XXI, do Brasil à Alemanha, de Belém ao Rio, do
Amazonas ao Isar; mas também oscilando entre uma autobiografia maldisfarçada
(mas bem contada) à invenção de biografias muito fugidia das duas personagens
principais; os hábitos da nobreza alemã de antanho refletem mais os da
burguesia brasileira de hoje; e muitos dos mitos indígenas são tratados com
pressa, quase que citados, sem serem incorporados no cerne da história. Não
engoli.
Li
sem riso, sem dor, sem amor. Mas li até o fim, o que nem sempre acontece,
porque o tédio faz com que eu deixe
muitos livros caídos ao pé da cama. O que me segurou foi um certo lirismo,
ainda que acanhado, resumido a poucas palavras, poucas linhas, espaçado ao
longo da obra, como nos exemplos a seguir.
“E
toda voz da infância, sabe-se, é selvagem, animal, insubordina os sentidos” (p.
15)
“O
chocalho a desperta em sobressalto cada vez que o sono vem fechar seus olhos
[...] A criança toca o instrumento que tange o mundo que ela conhece e o mundo
que ela enxerga no vazio” (p. 80-81).
O
que me prendeu a atenção foi a descrição de alguns costumes indígenas, enriquecedora,
mas quase sempre servindo apenas a isso mesmo, descrever costumes, sem que
essas manifestações culturais tivessem uma maior penetrabilidade para explicar
a narrativa.
“É
possível envenená-la, zarabatana, como fazem os guerreiros do povo miranha com
o curare preparado com suor e sangue das mulheres, É possível incendiá-la,
curare quente e amargo” (p. 15).
O
grande mérito da obra está em dar vida àquilo que na maioria das histórias
tropicais é apenas cenário: as árvores, os arbustos, as epífitas, o solo, a
chuva, os rios, o mar, os grandes mamíferos, os pequenos anfíbios, os répteis
ancestrais. Tudo isso numa cosmologia que perpassa, seja por meio da linguagem
das águas ou pelo voo da onça, todos os tempos e lugares, sem fronteiras
físicas, penetrando profundamente a psiquê dos mais diversos povos originários
e antigos e, de vez em quando, dos cidadãos do século XXI, como a personagem
Josefa, alter ego da autora.
“A
paca fala de uma maneira, o tabaco fala de outra. A anta tem um acento, o
jacaretinga tem outro. Tem palavras que só as onças usam e que não é dados a
nenhum outro anima dizê-las [...] A voz da árvore tem semelhança com a voz da
nuvem, e a voz da pedra é em igual tom ao da voz dos espíritos, uma fala muito
clara e cortante” (p. 39).
O
livro mal toca na questão da escravidão negra e tangencia sem coragem os tempos
sombrios e convulsionados do governo Bolsonaro quanto à questão ambiental, dos
direitos humanos e proteção das terras e saúde indígena. Deveria ter ido além.
A arte serve para isso, a despeito dos que defendem a falsa nobreza da sua
inutilidade. Mas o livro cumpre certamente a sua missão de colocar o índio no
centro da nossa alma brasileira, resgatando-o dos nomes de ruas, praças,
cidades, que, conforme lembrado pela autora, foram assim nomeados apenas como
ornamentos linguísticos, troféus de uma guerra em que o índio ainda resiste. O
livro instiga o rugido da nossa onça interior na cara de uma sociedade que não
se reconhece nem indígena nem africana, preferindo ainda ser pálida cópia de
uma decadente Europa.
