O melhor da literatura inglesa no final do século XIX foi produzido por estrangeiros: os americanos H. James e T. S. Eliot; os irlandeses B. Shaw, O. Wilde, e Yeats; o polonês J. Conrad. E o que Conrad Samuel Beckett, Emil Cioran, Vladimir Nabokov e Chinua Achebe têm em comum? São autores que escreveram grandes obras num idioma diferente do seu próprio. Dentre todos os autores listados, Conrad, no entanto, foi o que primeiro ousei ler – mas não consegui.
Dez
anos foram precisos para ultrapassar as seis primeiras páginas de Coração da
Trevas de J. Conrad. Mas depois que as venci, depois que deixei as brumas das
margens do Tâmisa e ganhei a foz do caudaloso rio Congo, fui progredindo na
leitura como Marlow subia esse rio-serpente em busca de Kurtz. Se vocês
conhecem a história, sabem que não foi uma viagem fácil, assim como não foi fácil a
minha leitura. Mas aquelas seis primeiras páginas foram, durante uma década,
quase impossíveis para mim. Virá-las foi como um rito de passagem para um nível
mais elevado de literatura. Elas foram o vestíbulo escuro e assustador para
colocar-me diante das verdadeiras portas do inferno. E então, como eu
conseguira chegar lá, o jeito foi abri-las e abandonar qualquer esperança que
eu tivesse. Entrei.
Pela
criteriosa busca das palavras, construção das imagens e lapidação das frases, o
livro não poderia ter mesmo mais que 120 páginas - perfeitas. 120 páginas
difíceis de vencer porque estruturadas numa prosa densa e cinza; sensorial e
psicológica. Em poucas sentenças Conrad consegue descrever os contornos de um
cenário selvagem que, simultaneamente, narra como símile as aventuras
psicológicas dos personagens. A prosa é poética e enevoada dos estilos
literários impressionista e simbolista, o que, muitas vezes, nos deixa confusos
– deixa mesmo. Assim, não conseguimos sobreviver a uma longa sessão de leitura
sem que o cérebro sue ou o coração endureça e, ao mesmo tempo, que a alma
sorria meio constrangida e meio aliviada de ser descoberta por identificação
com toda a crueza da humanidade que nos é apresentada.
Crueza
que parece ter corrompido o super-homem Kurtz, mas a qual o espírito de Marlow
conseguiu resistir. Talvez tenha sido dessa maneira porque este, assim como
Conrad, teve uma curta temporada na selva tenebrosa. Kurtz já estava lá há anos
e foi possuído. Morreu. Mas morto, já nos tinha dado a conhecer o essencial de
si – não pela sua própria boca, mas pela dos outros, porta-vozes enfeitiçados
por sua personalidade mitológica. É tudo desse jeito, meio sugerido, meio
duvidoso, meio irreal, indigesto, mas verdadeiro e belo, como no trecho a
seguir:
“Então,
ao olhar para baixo, vi um rosto próximo da minha mão. Os ossos negros
completamente prostrados com um ombro encostado na árvore, e, aos poucos, as
pálpebras se ergueram, e os olhos fundos me encararam, enormes e vazios, uma
espécie de chama cega e branca nas profundezas das órbitas, que se apagaram
lentamente. O homem parecia jovem – quase um garoto – mas vocês sabem que é
difícil afirmar isso. Não encontrei nada a fazer além de lhe oferecer um dos
biscoitos do navio do bom sueco, que eu havia guardado no bolso. Os dedos se
fecharam vagarosamente sobre ele e o seguraram – não houve nenhum outro
movimento, nenhum outro olhar. [...] Perto da mesma árvore outros dois
amontoados de ângulos agudos, estavam sentados com as pernas para cima. Um
deles, com o queixo apoiado nos joelhos, observava o nada de maneira
intolerável e apavorante: seu espectro irmão descansava sobre a própria testa,
como que arrebatado pelo próprio cansaço; e todos os que estavam em volta se
espalhavam com poses de colapso contorcido, como uma pintura de massacre ou
pestilência. Enquanto eu ficava ali parado e horrorizado, uma dessas criaturas
se apoiou sobre as mãos e os joelhos e foi de quatro beber água no rio. Usou a
mão, em seguida sentou-se sob o sol, cruzando as canelas na frente do corpo e,
depois de algum tempo, deixou a cabeça lanosa desabar sobre o tórax.” (Coração
das Trevas, pp. 45-46).
Uma
obra como esta não nasce apenas da imaginação. Conrad a viveu. Esteve no Congo
em 1890, mas em vez de lá permanecer por 3 anos, suportou apenas 6 meses,
voltando enfermo e com a necessidade de colocar a experiência no papel. Ele
então planejou um volume de contos composto pelos livros Juventude, Lord
Jim e Coração das Trevas.
Eram
os tempos do Estado Livre do congo, uma propriedade privada de 2 milhões de
quilômetros quadrados, reconhecida pela Conferência de Berlim (1885),
pertencente ao rei belga Leopoldo II. Aí houve um dos maiores genocídios da
história. Morreram tantas pessoas – 8, 9, 10, 11 milhões? – quanto aquelas que
morreram no tráfico de escravos africanos dos séculos XVI ao XIX. Morreram de
fome, em pequenas guerras detonadas pelo colonizador, morreram escravizados,
pela desestruturação da sociedade milenar e pela destruição da floresta e dos
rios. Morreram pelo marfim, pelo ouro, pela madeira, pelos seringais. Mataram o
coração da África para que a Europa da belle époque brilhasse. O horror,
o horror! A obra é, em parte, uma denuncia contundente do neoimperialismo europeu.
Mas
como a prática nunca cessou, porque os sistemas políticos e econômicos se
retroalimentam dela, é sempre revisitada em novos imperialismos como o norte-americano
no Vietnã (1955 – 1975), no Iraque (2003 – 2017) e no Afeganistão (2003 –
2011); o soviético no Afeganistão (1979 - 1989); e o russo na Ucrânia (2014;
2022). Mas a essa violência sempre sobrevém novas denuncias e Coração das
Trevas inspirou muitas delas. É o caso do filme Apocalypse Now (1979), de
Francis Ford Coppola, que, como no livro, conta a jornada em um barco (Erebus)
de um narrador contemplativo (capitão Willard) na busca por um homem de valor, porém
agora corrompido (coronel W. E. Kurtz); a destruição de um povo (vietcongues)
causada por outra “civilização”; a descoberta do pior do humano.
Ao
final do filme, o coronel W. E. Kurtz cita os versos de Hollow Men (Os Homens
Ocos) de T. S. Eliot que, por sua vez, utilizou a frase “Mistah Kurtz – he
dead” como epígrafe desse seu longo poema. Acredito, porém, que o trecho abaixo
seja ainda mais inspirador:
“Mas
a selva o descobrira cedo, e realizara nele vingança pela fantástica invasão.
Imagino que lhe sussurrou coisas sobre si mesmo que ele desconhecia, coisas das
quis ele não tinha nenhuma noção até se aconselhar com essa solidão profunda -
e o sussurro se provou irresistivelmente fascinante. Ecoou de modo ruidoso
dentro dele, porque no âmago ele estava oco...” (Coração das Trevas, pp.
104-105).
Kurtz
é um desses homens ocos, um mito, um “elmo cheio de nada”, como escreve Eliot:
Nós
somos os homens ocos
Os
homens empalhados
Uns
nos outros amparados
O
elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas
vozes dessecadas,
Quando
juntos sussurramos,
São
quietas e inexpressas
Como
o vento na relva seca
Ou
pés de ratos sobre cacos
Em
nossa adega evaporada.
[...]
Assim
expira o mundo
Assim
expira o mundo
Assim
expira o mundo
Não
com uma explosão, mas com um gemido.
Assim, gemendo,
passei dez anos até conseguir ler este livro fundamental; assim também o
termino.

