segunda-feira, 30 de junho de 2014

14 - AINDA É CEDO, AMOR - BOM DIA!




Sonho te aconchegar num cantinho,
e ao mesmo tempo sair correndo de mãos dadas
gritando absurdos nalguma rua mal iluminada.
Mas eu quero mesmo é te ver dormindo. 
Você, sempre agitada, elétrica,
e cheia de silêncios e dúvidas em busca de descanso.
Meu desejo é te ver dormindo, quando, enfim,
eu poderei ajoelhar-me à beira da sua cama,
e, sem sono, ficar te olhando olhando olhando
aliviado porque seu rosto está tão calmo
e o seu coraçãozinho batendo forte.
O perfume, o escuro, o calor
e eu ao seu lado esperando esperando esperando
o melhor acontecer...
Mas os barulhos da cidade te acordam, num tremor...
despertam e assustam ; mas daí a pouco, disfarçando o mau humor:

Bom Dia, Meu Amor!

me aproximo contente junto ao seu rostinho
que recebe os lábios meus.
E nós com isso muito satisfeitos,
conscientes de que tudo não passa de um soluço de Deus
que pode se extinguir quando menos esperamos.
Uma semana? 70 anos?
Então você me inventa e se apressa em mim - os filhos por vir;
eu te descubro e me descanso em você – casar pra quê ?
Não nos acho tão diferentes.... nem tão iguais.
Há amor. Um ocasional tesão. 
O desespero mudo de sempre.
No fundo uma vontade de ser o único leão.
Uma vontade de estar no cio e ser cadela.
No fundo uma vontade de alcançar o fundo.
Mas eu quero mesmo é te ver dormindo serena e bela
sem desejar além disso nada que não seja
sua liberdade de ser fêmea e não precisar ser mulher,
ou de ser mulher e não temer o fechar da primavera.
Quem sabe quando você acordar, princesa, com aquele 

Bom Dia !

exibindo seus seios róseos generosos ?
Seu corpo branquinho se misturando com o branco da cama,
com o branco de mim mesmo.
Sete minutos? Uma semana? 
O banheiro apertado, o abraçar sem fôlego em fog e sabão
A toalha é pequena pra nós dois, mas não sentimos frio.
As roupas coloridas do cotidiano cinza.
Os sapatos soam duros batendo no chão,
atravessando a porta e virando a esquina.
A cama por fazer... A vida por fazer...
Chega de dormir! A noite se apagou !

Bom dia, Meu Amor!
Arranca-me do marasmo
com o seu beijo de sol!
Pega-me nos seus braços
com uma vontade de herói!
Encaixa-me no seu corpo,
presas selvagens numa romã,
e deixa-me- rindo até surgir a manhã.
Tanto assim, e de novo, e de novo, vezes sem fim,
acordar com suas mãos em meu cabelo despenteado ;
sua voz grave em meu ouvido ; desliza atrás de mim
o suor que pinga do seu queixo recém barbeado.
Que bom é nascer... pra logo morrer,
toda sua.
E gastar a vida apenas nisso.
Paixão infinita à distância mínima.
Nua.

13 - AINDA É CEDO, AMOR - O PRÊMIO DA VIDA


(Foto by Dayane Kisse)


A paixão acaba
nos cem primeiros beijos;
nas dez primeiras transas;
na primeia briga.
O amor nunca acaba,
mas não o procure,
apenas doe-se...
ele vai se revelar na hora melhor,
quando vc estiver pronto.
Continue preparando-se...
não para a champanhe, mas para a corrida.
Quando vc estiver bem consigo o amor aparecerá,
que o amor é o prêmio da vida;
o amor pelo outro, que é de todos o mais fácil;
o amor por si próprio, que é mais difícil;
e o amor a Deus, bem complicado,
porque misturamos pedidos e reclamações
onde só deveria haver agradecimento.

12 - AINDA É CEDO, AMOR - É SUAVE O VENTO QUE BALANÇA AS CORTINAS





Houve um tempo de tempestade em que era bom sofrer de paixão,
quando eu amava mais amar do que a pessoa amada.
Mais tarde eu quis ser romântico
e ter uma amante.
E tive.
Arrependo-me por tê-la quisto.
O gozo e as lágrimas.
Agora isso me é insuportável,
de tal modo que não chamo “amor”
aquilo que me dói.

Hoje, intensamente desejo, sem pressa,
amor virgem e sábio;
o amor de mãos dadas, não o de cama,
de pernas agitadas, enlaçadas;
o amor de casa cheia, com visitas amigas e
crianças brincando de ser feliz
– é suave o vento que balança as cortinas;
o amor do sorriso confidente e leal
para quem sorrimos leal e confidentemente.


11 - AINDA É CEDO, AMOR - NEM TODO DIA É DIA




Ontem mesmo estava olhando, no fundo da minha gaveta,
uma colcha de retalhos que minha vó fez pra mim.
Uma singeleza e importância que prevalecem sobre a do lençol
de não sei quantos mil fios ando me enrolando...
Lá tem sentimento, alma, história.
Hoje eu estou meio assim,
restos de mim costurados com mil fios...
A cabeça confusa...
Provavelmente vá pra algum lugar com uma música alta,
pessoas bem diferentes de mim,
pra não ter que pensar muito.
Amanhã já serei outra.


10 -AINDA É CEDO, AMOR - IN EXTREMIS


Como é bom me iludir com vc!
Você escreve e pensa claramente,
mas fala dos subterrâneos.
Dispõe-se a aparecer inteira...
Mas somos imensos...
E em vez de me aproximar,
deliciando-me nos seus detalhes,
arriscando-me a não compreendê-la como um todo,
afasto-me, para, de longe,
poder te ver completa,
ainda que sem pormenores.
Deixemos o tempo passar e, lentamente,
nos teremos na parte e no todo.
Meu frio é grande
e me move, trêmulo, mas decidido,
em sua direção solicitando seus retalhos
 que um dia, bem costurados com paciência e amor,
serão vc inteirinha em torno de mim.
Vc me aquecendo de fora para dentro,
eu retribuindo no sentido inverso.
Não queria parar por aqui,
mas já é inverno,
e meus pés já estão geladíssimos,
 bem como os dedos das mãos.
As extremidades são sempre mais frágeis,
e é por elas que nos ligamos.
Persistamos e venceremos o tempo...
mais tarde as distâncias...

sexta-feira, 27 de junho de 2014

9 - AINDA É CEDO, AMOR - RETALHOS DE NÓS DOIS



 Eu:

Somos tantos!
Caberemos todos numa mesma cama?
Enquanto espero teu novo miado,
vou te imaginando e te costurando a partir dos teus retalhos.
O que teremos ao final:
um lenço ou uma colcha?


Ela:

Você terá uma colcha,
se tiver a paciência de costurar cada pedacinho de pano.
Isso dependerá apenas de você
e do seu frio.





quinta-feira, 26 de junho de 2014

8 - AINDA É CEDO, AMOR - MULHER GATO



A parte mais diabólica do meu ser
é poder ser quem eu quiser.
 Se você compreender e aceitar um gato como ele é,
com seus diversos ronronares, atitudes e olhares,
saberá me tocar como ninguém.
Porque sou doce, carinhosa, dengosa,
perigosa.
Olhinhos brilhantes, mendigando por carinho,
te envolvendo e enfeitiçando
para, fugindo, ir me esconder de novo,
no escuro.

Mas também sou aquela que não consegue se isolar sem sentir solidão -
carrego um enigma pesado pra minha vida tão leve e breve.
Assim, como bom entendedor de gatos,
Você saberá que é necessário dar-se aquele banho,
feito a ponta de áspera língua,
num elegante exorcismo molhado,
para tirar o pó que sobrou das ruínas das expectativas.

Aberta pra pessoa certa
Sou aquela que é companheira
pra baladas e funerais.
Me entrego e me enterro
com o mesmo sorriso honesto
que me despeço.
Esteja avisado:
não quero só um beijo,
quero a alma em azul
e a carne em sangue;
conexão de infinitos,
ponte sobre abismos,
salto felino.


terça-feira, 24 de junho de 2014

7 - AINDA É CEDO, AMOR - QUEM É VOCÊ?



Não nos abordamos pela sedução das flores;
pegamo-nos pelo fundo, pela podridão das raízes;
das mais fininhas e insignificantes,
fomos subindo Árvore da Vida adentro,
sem risco de sermos ludibriados por serpentes
com frutos proibidos - será?

Quem é você, senhorita diabólica?
Vem cá no canto, ninguém precisa saber:
desfaz seu feitiço, vamos! que eu estou à sua mercê.
Não, não...  deixa como tá...
ao menos assim, insano,
me julgo homem pra ir além
do seu belo rosto,
do seu cheiroso corpo,
do seu batom de alegria,
das suas coloridas sombras de angústia.
Te procuro onde nem mesmo você quisera ir.
Vou enroscando a sua tortuosidade infeliz na minha,
vamos nos escavando, nos desenterrando,
numa arqueologia da alma e do amor.

Será carência? Vaidade?
A solidão e o silêncio?
Minha carência é espaço de sobra no meu coração;
a solidão é o silêncio, sou eu mesmo;
vaidade é o prazer de, em você, ser mais do que devo ser.
Posso mergulhar fundo e você nem sentir.
Perigoso, às vezes torno-me o espectro
de quem me disponho a desassombrar.
O dentro do armário, o debaixo da cama,
o vento que abre a porta.

6 - AINDA É CEDO, AMOR - O COMEÇO

Provavelmente muitas coisas nos unam
e muitas outras nos separem.
Nossa força centrípeta, contudo, parece maior que a dispersão 
rumo ao silêncio que poderia se iniciar aqui.
Você está mesmo preparado?


quarta-feira, 11 de junho de 2014

5 - AINDA É CEDO, AMOR - CLASSIFICADOS




Precisa-se de uma mulher
que saiba passar
pelas dificuldades reclamando só o mínimo
e disposta a fazer o impossível com um sorriso de menina;
que saiba cozinhar
lentamente as incompreensões com panos quentes,
refogando tudo com paciência e bom humor;
que saiba lavar
da sua alma as más intenções libidinosas,
os ciúmes, as inseguranças, a vontade de ser a mais vistosa;
que saiba dar
e receber os mais diversos carinhos
sem cobrar anel, brinco ou jantar por isso;
que saiba brilhar,
uma estrela!, com uma luz só dela
mas que não dê passos maiores que seus pés de Cinderela;
que saiba amar,
seu companheiro e o próprio Amor,
que por fim irão consolá-la do último homem que a enganou.




domingo, 8 de junho de 2014

4 - A DANÇA




Há cerca de três anos eu já havia dançado na vida de muitas formas. Era preciso fazer algo. Eu tinha que dançar, mas dançar diferente, dançar bonito dessa vez. Meio que de súbito, no meu ato mais corajoso, procurei uma escola de dança. Até então era inconcebível pra mim balançar meu corpo de forma ora sensual ora infantil – era assim que eu enxergava quem dançava. Porém, eu também já não suportava o meu andar correto e reto, mas de cabeça baixa; já não suportava mais ficar sentado diante do computador ou da televisão; meu corpo pedia algo mais que andar, sentar ou deitar. Meu corpo pedia muito mais do que aquela vida parada que eu me consentia. Apesar de toda essa agitação interna, foi preciso fechar os olhos, respirar fundo e subir lentamente as escadas da Leandro Theodoro. 

Enquanto o terminar simplesmente acontece, o começar exige um grande esforço: empenho para o primeiro passo e mais empenho ainda para dar os seguintes que consolidarão aquele movimento como uma caminhada e não como um tropeço. Meu primeiro passo de dança foi pisar os degraus daquela escada. Subi. Do outro lado do vidro, no salão de tacos de madeira, as pessoas evoluíam em passos mágicos de samba. Era aquilo que eu queria fazer – não exatamente sambar, mas flutuar sobre a realidade sem abandonar completamente o chão; transcender sem deixar o corpo. Fiz minha matrícula sem mesmo fazer aula experimental – entrar no salão seria meu segundo passo, dado no dia seguinte, na turma do professor Wisley. Junto da sua parceira Aline, ele tornou-se meu introdutor na arte de alcançar o equilíbrio da alma desequilibrando com elegância o eixo do corpo. 

Mas acontece que eu era a desorganização corporal em pessoa. O dois pra lá, dois pra cá já foi um grande desafio; nos giros do bolero foi difícil decidir se era eu quem girava, se era minha parceira, ou se era o mundo ou se era tudo ao mesmo tempo. Eu não tinha lateralidade – esquerda? direita? só na política mesmo -, e quando eu mexia as pernas eu me esquecia dos braços; quando eu conseguia executar o meu movimento eu me esquecia da dama; quando eu me lembrava da dama ou eu tomava o espaço dela o lhe apertava muito a mão. Foi um começo lento, mas o bom humor das aulas, e a paciência das alunas animaram-me a não desistir. 

Nos primeiros dois meses eram apenas duas horas de aulas na semana. Com mais um mês tomei coragem e fui ao meu primeiro baile. Fiquei sentado a maior parte do tempo, ri um bocado, tomei uma cervejinha e dancei com duas meninas. Que vitória! Eu começava a dançar com autonomia. Desajeitado e sem fluidez, é verdade, mas já era alguma coisa. Mas ainda havia muita insegurança: eu me preocupava com as pessoas que me olhavam no salão – embora ninguém estivesse reparando em ninguém, estando apenas ligados em seus respectivos parceiros; ainda era meio constrangedor dançar uma música com apenas cinco passos – hoje, porém, acredito poder dançar uma música toda com apenas um ou dois passinhos e ainda sairmos, eu e a dama, bem contentes. 

Seis meses depois as coisas pareciam melhorar. Pablo, jovem professor com quem logo fiz minha melhor amizade, começava a confiar em mim como aluno e me delegava a função de ajudá-lo em suas aulas. Achei interessante fazer os passinhos da dama – até que eu levava jeito, hehe. Acho que a minha entrega sem pudor e a minha dedicação, mais do que qualquer talento (que eu de fato não tinha), me abriu portas pro Leandro, dono da escola, permitir frequentar as aulas intermediárias que ela dava em outros horários. Desse modo, em pouco mais de 100 dias eu saía de duas horas semanais pra dançar quase toda a noite, todas as noites. Iniciava-se então uma das épocas mais realizadoras da minha vida. 

O zouk com o Wisley-Aline e o forró com o Pablo foram fundamentais pra eu acreditar e dar liberdade ao meu corpo, mas foi no tango com o Leandro e a Camila que aprendi a dançar com a mente, com a imaginação. Com eles aprendi que o erro é a grande oportunidade da invenção e, portanto, quanto mais erros, melhor. E como eu errava! A diferença é que eu passei a aceitar-me e a aceitar os meus erros. Com o tempo, simples distrações, limitações da minha elasticidade, da minha atenção aos comandos e da minha capacidade de memorizar os passos transformaram-se e momentos de descontração e surpresa para mim e para a minha parceira. Eu estava então criando, improvisando, encantando. 

As alunas passaram a apreciar a minha condução dos passos. Sentia-me cada vez mais confiante com a evolução do meu aprendizado, mesmo que lento. Fiz o que pude, fiz o meu melhor. Ainda que não tenha sido o suficiente pra ser um bom dançarino, fiz o suficiente pra ser uma melhor pessoa e merecer a consideração de integrar a Companhia Leandro Theodoro, convite que me foi feito pela primeira vez um ano depois do meu ingresso na dança. À época eu intensificava meus estudos e dividia esse tempo com um novo relacionamento com a mulher. Foi difícil conciliar estudo intenso, dança intensa e paixão intensa. Contudo, ou talvez por causa da harmonia que consegui nesta tríade, consegui ser aprovado num concurso público, em Brasília, minha meta durante muito tempo. 

Muitos dançam em Uberlândia, mas apenas o mais sortudos dançam na Leandro Theodoro, onde a alegria autêntica e o bom humor incomparáveis fazem a diferença, o que só é possível por se levar a sério a criança oprimida dentro de nós, permitindo-se ser o que de fato se é: feliz! Depois de alguns anos de solidão e estudos silenciosos, deixei-me levar pela dança, filha da musica e do amor. Aceitei meus erros, valorizei meus acertos e agora posso trazer a mulher entre meus braços, sorrindo; o menino nos meus pés, pernas, peito, alma - sem medo.






domingo, 1 de junho de 2014

3 - ULISSES



A coragem é o medo educado, nos ensinou Paulo Freire. Acontece, contudo, que somos educados para o medo. Liguem a televisão a qualquer hora. Deem ouvidos aos seus pais. Obedeçam a seus chefes. Em todos os casos é proibido arriscar, inovar, fazer diferente. Os custos podem ser muito altos: ser assassinado enquanto se esperava o sinal abrir; não conseguir um emprego assim que terminar a faculdade; perder o emprego por extrapolar os limites da burocracia. Melhor mesmo ficar em casa  rindo sozinho com o Facebook ou com o Netflix.

A minha maior covardia apareceu aos outros como a minha maior ousadia. Certa vez o diretor da escola entrou em nossa sala colegial e questionou-nos: o que você quer ser quando crescer? Entre respostas como médico, fazendeiro, empresário, dentista, cientista, destacou-se a minha: embaixador do Brasil na ONU. Quase todos riram da minha ambição, mas o diretor me levou muito a sério e, durante anos, me usou como exemplo de pessoa determinada e sonhadora e corajosa para motivar os vestibulandos. Enquanto isso, eu sofria com o meu medo e carregava essa promessa de grande futuro como um peso cada vez mais insuportável.

Mais de dez anos depois, eu mesmo me rio do que dissera, porque eu não queria e nunca quis ser político. Eu queria ser era artista, um artista que fosse bom o suficiente pra ser a imagem do Brasil no mundo, como são os embaixadores, como o foram Vinícius, João Cabral e Guimarães Rosa. Mas como eu diria isso numa sala cheia de futuros médicos e advogados e engenheiros? Ririam de mim. Bem, de um jeito ou de outro acabaram rindo: nem diplomata nem artista. 

Certo dia, decidi parar de olhar para o horizonte que me prometia um grande sucesso. Deixando os grandes planejamentos de lado – estratégias cheias de condicionalidades e etapas que só servem como desculpas e justificativas para possíveis fracassos –, resolvi tocar aquela linha infinita que confunde mar e céu. Mesmo inatingível, resolvi alcançá-la. Dei um passo e depois outro à medida que ia me despindo, deixando no passado o peso da promessa adolescente. Nu, entrei no mar gelado, em ondas, em busca de ser igual a mim mesmo. 


Quero dar a volta ao mundo e 
chegar onde bem agora estou,
mas reencontrar-me diferente,
reencontrar-me Homem.
Resiste ainda o receio de partir com a minha nau  e
perder-me, naufragar-me, ter que ser resgatado ou morrer ali,
de frio e sede, num mar salgado,
eu, que adoro doce!

Pra cruzar o Bojador é preciso ir além da dor.
Mas é que já doeu tanto... 
tem de ir mais?
Alguém grita:
Você não quer a sua Penélope?
Então viva a sua Odisséia!
Então eu olho para traz e vejo
a minha estrada tão caminhada, tão pisada;
olho para frente e vejo a praia amansada pelas ondas bravas.
Qual nau qual nada! Eu vou é nadando!
E mergulhei atrás de mim mesmo.
Embalava-me os braços o canto da sereia única.
Chegasse eu a Ítaca,
ela transformar-se-ia na minha Princesa.
Morresse tentado,
engolir-me-ia com debochada risada .

Cada vez mais quero chegar,
encordoar meu próprio arco e
mostrar que este camponês é da estirpe dos Ulisses,
e que quem me aguarda não precisa mais tecer infinitamente nosso enxoval.
Quantas epopeias já não recusei?
Quantos afogamentos preferi padecer a persistir tentando?
Quantas vezes não cheguei onde quebram as ondas e
voltei para sentar-me na cadeira e tomar meu sol –
frio e só.
É que nesse tempo apenas estava em jogo eu mesmo,
e eu sei do meu reles valor.
Um grão de areia a mais na borda do continente.
Mas agora é diferente: há o amor.
O vento me chama para as águas e eu vou –
não há como não ir.
O vento é aquele sedutor canto, impossível resistir.

 A poesia é a minha Vidaverdade.
Porém há algo que nasceu em mim e me tem feito melhor.
Sutil e ligeiro, mas desta vez parece querer se demorar.
Veio de mim e fala de mim.
É um sino que bate em minha cabeça: é hora de ressurgir!
Há alguém que te espera há muito tempo.
E este alguém sou eu mesmo - criança,
aquela que nada temia e nunca fugia.
Dê-lhe a mão e deixe-a conduzi-lo ao oceano de dúvidas e grande medo.
Escute a sua infância: vai menino, seja você mesmo!

E foi assim que eu desapareci sobre a espuma de areia e sal para,
levando adiante a coragem que agora me inspira
e o amor que vem por um certo canto,
eu possa reerguer-me nas praias da ilha
que a minha Arte sempre me prometeu.
Lá vai ter uma outra cadeira para eu tomar sol,
mas dessa vez será um sol quente e eu não estarei só.
Estarei comigo mesmo!
E o prêmio: Penélope.
Nem mais nem menos,
será nobre e da minha qualidade:
sangue, suor e cumplicidade.