domingo, 1 de junho de 2014

3 - ULISSES



A coragem é o medo educado, nos ensinou Paulo Freire. Acontece, contudo, que somos educados para o medo. Liguem a televisão a qualquer hora. Deem ouvidos aos seus pais. Obedeçam a seus chefes. Em todos os casos é proibido arriscar, inovar, fazer diferente. Os custos podem ser muito altos: ser assassinado enquanto se esperava o sinal abrir; não conseguir um emprego assim que terminar a faculdade; perder o emprego por extrapolar os limites da burocracia. Melhor mesmo ficar em casa  rindo sozinho com o Facebook ou com o Netflix.

A minha maior covardia apareceu aos outros como a minha maior ousadia. Certa vez o diretor da escola entrou em nossa sala colegial e questionou-nos: o que você quer ser quando crescer? Entre respostas como médico, fazendeiro, empresário, dentista, cientista, destacou-se a minha: embaixador do Brasil na ONU. Quase todos riram da minha ambição, mas o diretor me levou muito a sério e, durante anos, me usou como exemplo de pessoa determinada e sonhadora e corajosa para motivar os vestibulandos. Enquanto isso, eu sofria com o meu medo e carregava essa promessa de grande futuro como um peso cada vez mais insuportável.

Mais de dez anos depois, eu mesmo me rio do que dissera, porque eu não queria e nunca quis ser político. Eu queria ser era artista, um artista que fosse bom o suficiente pra ser a imagem do Brasil no mundo, como são os embaixadores, como o foram Vinícius, João Cabral e Guimarães Rosa. Mas como eu diria isso numa sala cheia de futuros médicos e advogados e engenheiros? Ririam de mim. Bem, de um jeito ou de outro acabaram rindo: nem diplomata nem artista. 

Certo dia, decidi parar de olhar para o horizonte que me prometia um grande sucesso. Deixando os grandes planejamentos de lado – estratégias cheias de condicionalidades e etapas que só servem como desculpas e justificativas para possíveis fracassos –, resolvi tocar aquela linha infinita que confunde mar e céu. Mesmo inatingível, resolvi alcançá-la. Dei um passo e depois outro à medida que ia me despindo, deixando no passado o peso da promessa adolescente. Nu, entrei no mar gelado, em ondas, em busca de ser igual a mim mesmo. 


Quero dar a volta ao mundo e 
chegar onde bem agora estou,
mas reencontrar-me diferente,
reencontrar-me Homem.
Resiste ainda o receio de partir com a minha nau  e
perder-me, naufragar-me, ter que ser resgatado ou morrer ali,
de frio e sede, num mar salgado,
eu, que adoro doce!

Pra cruzar o Bojador é preciso ir além da dor.
Mas é que já doeu tanto... 
tem de ir mais?
Alguém grita:
Você não quer a sua Penélope?
Então viva a sua Odisséia!
Então eu olho para traz e vejo
a minha estrada tão caminhada, tão pisada;
olho para frente e vejo a praia amansada pelas ondas bravas.
Qual nau qual nada! Eu vou é nadando!
E mergulhei atrás de mim mesmo.
Embalava-me os braços o canto da sereia única.
Chegasse eu a Ítaca,
ela transformar-se-ia na minha Princesa.
Morresse tentado,
engolir-me-ia com debochada risada .

Cada vez mais quero chegar,
encordoar meu próprio arco e
mostrar que este camponês é da estirpe dos Ulisses,
e que quem me aguarda não precisa mais tecer infinitamente nosso enxoval.
Quantas epopeias já não recusei?
Quantos afogamentos preferi padecer a persistir tentando?
Quantas vezes não cheguei onde quebram as ondas e
voltei para sentar-me na cadeira e tomar meu sol –
frio e só.
É que nesse tempo apenas estava em jogo eu mesmo,
e eu sei do meu reles valor.
Um grão de areia a mais na borda do continente.
Mas agora é diferente: há o amor.
O vento me chama para as águas e eu vou –
não há como não ir.
O vento é aquele sedutor canto, impossível resistir.

 A poesia é a minha Vidaverdade.
Porém há algo que nasceu em mim e me tem feito melhor.
Sutil e ligeiro, mas desta vez parece querer se demorar.
Veio de mim e fala de mim.
É um sino que bate em minha cabeça: é hora de ressurgir!
Há alguém que te espera há muito tempo.
E este alguém sou eu mesmo - criança,
aquela que nada temia e nunca fugia.
Dê-lhe a mão e deixe-a conduzi-lo ao oceano de dúvidas e grande medo.
Escute a sua infância: vai menino, seja você mesmo!

E foi assim que eu desapareci sobre a espuma de areia e sal para,
levando adiante a coragem que agora me inspira
e o amor que vem por um certo canto,
eu possa reerguer-me nas praias da ilha
que a minha Arte sempre me prometeu.
Lá vai ter uma outra cadeira para eu tomar sol,
mas dessa vez será um sol quente e eu não estarei só.
Estarei comigo mesmo!
E o prêmio: Penélope.
Nem mais nem menos,
será nobre e da minha qualidade:
sangue, suor e cumplicidade.





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