domingo, 8 de junho de 2014

4 - A DANÇA




Há cerca de três anos eu já havia dançado na vida de muitas formas. Era preciso fazer algo. Eu tinha que dançar, mas dançar diferente, dançar bonito dessa vez. Meio que de súbito, no meu ato mais corajoso, procurei uma escola de dança. Até então era inconcebível pra mim balançar meu corpo de forma ora sensual ora infantil – era assim que eu enxergava quem dançava. Porém, eu também já não suportava o meu andar correto e reto, mas de cabeça baixa; já não suportava mais ficar sentado diante do computador ou da televisão; meu corpo pedia algo mais que andar, sentar ou deitar. Meu corpo pedia muito mais do que aquela vida parada que eu me consentia. Apesar de toda essa agitação interna, foi preciso fechar os olhos, respirar fundo e subir lentamente as escadas da Leandro Theodoro. 

Enquanto o terminar simplesmente acontece, o começar exige um grande esforço: empenho para o primeiro passo e mais empenho ainda para dar os seguintes que consolidarão aquele movimento como uma caminhada e não como um tropeço. Meu primeiro passo de dança foi pisar os degraus daquela escada. Subi. Do outro lado do vidro, no salão de tacos de madeira, as pessoas evoluíam em passos mágicos de samba. Era aquilo que eu queria fazer – não exatamente sambar, mas flutuar sobre a realidade sem abandonar completamente o chão; transcender sem deixar o corpo. Fiz minha matrícula sem mesmo fazer aula experimental – entrar no salão seria meu segundo passo, dado no dia seguinte, na turma do professor Wisley. Junto da sua parceira Aline, ele tornou-se meu introdutor na arte de alcançar o equilíbrio da alma desequilibrando com elegância o eixo do corpo. 

Mas acontece que eu era a desorganização corporal em pessoa. O dois pra lá, dois pra cá já foi um grande desafio; nos giros do bolero foi difícil decidir se era eu quem girava, se era minha parceira, ou se era o mundo ou se era tudo ao mesmo tempo. Eu não tinha lateralidade – esquerda? direita? só na política mesmo -, e quando eu mexia as pernas eu me esquecia dos braços; quando eu conseguia executar o meu movimento eu me esquecia da dama; quando eu me lembrava da dama ou eu tomava o espaço dela o lhe apertava muito a mão. Foi um começo lento, mas o bom humor das aulas, e a paciência das alunas animaram-me a não desistir. 

Nos primeiros dois meses eram apenas duas horas de aulas na semana. Com mais um mês tomei coragem e fui ao meu primeiro baile. Fiquei sentado a maior parte do tempo, ri um bocado, tomei uma cervejinha e dancei com duas meninas. Que vitória! Eu começava a dançar com autonomia. Desajeitado e sem fluidez, é verdade, mas já era alguma coisa. Mas ainda havia muita insegurança: eu me preocupava com as pessoas que me olhavam no salão – embora ninguém estivesse reparando em ninguém, estando apenas ligados em seus respectivos parceiros; ainda era meio constrangedor dançar uma música com apenas cinco passos – hoje, porém, acredito poder dançar uma música toda com apenas um ou dois passinhos e ainda sairmos, eu e a dama, bem contentes. 

Seis meses depois as coisas pareciam melhorar. Pablo, jovem professor com quem logo fiz minha melhor amizade, começava a confiar em mim como aluno e me delegava a função de ajudá-lo em suas aulas. Achei interessante fazer os passinhos da dama – até que eu levava jeito, hehe. Acho que a minha entrega sem pudor e a minha dedicação, mais do que qualquer talento (que eu de fato não tinha), me abriu portas pro Leandro, dono da escola, permitir frequentar as aulas intermediárias que ela dava em outros horários. Desse modo, em pouco mais de 100 dias eu saía de duas horas semanais pra dançar quase toda a noite, todas as noites. Iniciava-se então uma das épocas mais realizadoras da minha vida. 

O zouk com o Wisley-Aline e o forró com o Pablo foram fundamentais pra eu acreditar e dar liberdade ao meu corpo, mas foi no tango com o Leandro e a Camila que aprendi a dançar com a mente, com a imaginação. Com eles aprendi que o erro é a grande oportunidade da invenção e, portanto, quanto mais erros, melhor. E como eu errava! A diferença é que eu passei a aceitar-me e a aceitar os meus erros. Com o tempo, simples distrações, limitações da minha elasticidade, da minha atenção aos comandos e da minha capacidade de memorizar os passos transformaram-se e momentos de descontração e surpresa para mim e para a minha parceira. Eu estava então criando, improvisando, encantando. 

As alunas passaram a apreciar a minha condução dos passos. Sentia-me cada vez mais confiante com a evolução do meu aprendizado, mesmo que lento. Fiz o que pude, fiz o meu melhor. Ainda que não tenha sido o suficiente pra ser um bom dançarino, fiz o suficiente pra ser uma melhor pessoa e merecer a consideração de integrar a Companhia Leandro Theodoro, convite que me foi feito pela primeira vez um ano depois do meu ingresso na dança. À época eu intensificava meus estudos e dividia esse tempo com um novo relacionamento com a mulher. Foi difícil conciliar estudo intenso, dança intensa e paixão intensa. Contudo, ou talvez por causa da harmonia que consegui nesta tríade, consegui ser aprovado num concurso público, em Brasília, minha meta durante muito tempo. 

Muitos dançam em Uberlândia, mas apenas o mais sortudos dançam na Leandro Theodoro, onde a alegria autêntica e o bom humor incomparáveis fazem a diferença, o que só é possível por se levar a sério a criança oprimida dentro de nós, permitindo-se ser o que de fato se é: feliz! Depois de alguns anos de solidão e estudos silenciosos, deixei-me levar pela dança, filha da musica e do amor. Aceitei meus erros, valorizei meus acertos e agora posso trazer a mulher entre meus braços, sorrindo; o menino nos meus pés, pernas, peito, alma - sem medo.






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