“O
que seria da vida
se
não tivéssemos coragem
de
tentar alguma coisa?”
(Vincent
van Gogh)
A
arte empodera porque liberta e confere formas sedutoras às ideias até então
silenciadas em nossas mentes anestesiadas. A beleza criada pelo artista desperta
os demais do torpor. A liberdade abre as portas do ser para que se tenha a
chance de ser o que realmente se é. E o que é por inteiro não abaixa a cabeça
para ninguém, seja pai, mãe, professor, chefe, companheiro, governante ou deus.
Isso incomoda numa democracia, porque torna as decisões e ações coletivas mais
custosas, lentas, irritantemente negociadas, exigindo concessões, recuos e adiamentos
para todos os envolvidos. Fazer política torna-se arte.
No
Brasil convulso de 2016, em que um vice-presidente ascendeu ao poder após um “golpe
de sorte”, ou depois de uma facada nas costas por parte da “base aliada”, uma das
primeiras medidas do novo governo foi a extinção do Ministério da Cultura (Minc).
O governo era frágil, a resposta do OcupaMinc foi contundente, e a decisão foi
revertida em apenas dez dias. Apesar da reviravolta, aquele gesto de
intimidação estatal foi um sinal. O sinal ganhou sua forma terrível com a posse
de JB, o desprezível, que novamente extinguiu o MinC subordinando-o como secretaria
do Ministério do Turismo – era a cultura sendo vendida como mero souvenir de
viagem. E foram quatro anos sofríveis para o fomento da arte brasileira até que
tudo voltasse ao “normal”, não sem antes testemunharmos a afronta às
instituições democráticas da República por meio da destruição simbólica do nosso
patrimônio cultural: As Mulatas (Di Cavalcanti), Bailarina
(Victor Brecheret), O Flautista (Bruno Giorgi), Galhos e Sombras
(Frans Krajcberg), A Justiça (Alfredo Ceschiatti), Muro Escultórico
e Painel Vermelho (Athos Bulcão), Painel Araguaia (Marianne Peretti),
Bandeira do Brasil (Jorge Eduardo), sem falar na própria estrutura
arquitetônica e decoração dos palácios dos três poderes. Que selvagens!
Se a
liberdade inspirada pela própria cultura nacional incomodou num Brasil que
flertava – e ainda flerta - com o conservadorismo neofascista, os bons ares da
arte são inadmissíveis num regime despótico. Nos regimes totalitários de todos
os tempos, os artefatos artísticos e os poetas são as primeiras vítimas. Na
noite de 10 de Maio de 1933, Goebbels ordenou a pilhagem e queima dos livros de
Freud, Kafka, Fourier, Marx, Thomas Mann e Bertold Brecht; obras de Klimt foram
incendiadas pelos mesmos nazistas; García Lorca foi morto pela ditadura de
Franco; na Noite dos Poetas Assassinados, 12 poetas foram mortos a mando de
Stálin; Pablo Neruda, amigo de Allende, foi envenenado menos de duas semanas após
o golpe dado por Pinochet. No regime despótico russo do século XXI não é
diferente.
“O
bem deve ter punhos
O
bem precisa de mão de ferro
Para
arrancar a pele daqueles
Que
o ameaçam”
Na
cidade russa de Yefremov, pode-se ler esse poema perturbador num muro coberto de
imagens patrióticas da operação militar especial. As letras Z e V adornam
outros painéis espalhados por essa cidade russa, onde se encontram fotografias apoteóticas
de soldados russos mascarados e armados. Talvez por não ter outra alternativa
realista, em abril de 2022, a professora de arte de uma escola localizada nessa
cidade orientou seus alunos a produzirem obras que pudessem servir de apoio
moral às tropas russas no front. Apesar das atrocidades russas cometidas em Butcha
naquela semana, a direção da escola se esforçava para que seus alunos
acreditassem “em nós mesmos e em nossa pátria, que nunca erra.".
Masha,
12 anos, fez o seu melhor: desenhou uma mãe de longos cabelos negros, braço em
riste e mão espalmada, enfrentando com uma expressão corajosa, frente a frente,
dois mísseis que vinham em sua direção. Atrás dessa mãe, a filha que lhe dá a
mão diante de uma tremulante bandeira ucraniana onde se lê “Glória à Ucrânia”, fincada
no solo das férteis e verdejantes planícies ao sopé dos montes Cárpatos; do
lado de onde vinham os foguetes, estendida e rota sob cinzas terras degeladas, uma
bandeira russa com os dizeres “Não à guerra”; nos céus, se avistam os rápidos e
pontiagudos caças Su-34, quase irrelevantes diante do sol a brilhar bem amarelo, como o olho
justiceiro de um deus, sobre a fronteira entre os dois países. O poder
emocional e político dessa arte se revela ao sabermos que Masha não tem mãe nem
é ucraniana.
Em
menos de um dia, Masha e seu pai Alexei foram separados. Ela ficou sob a
custódia do serviço de proteção à infância e ele da polícia. Menos de um ano após
aquele desenho ter sido criado, Alexei foi multado, condenado e preso – “ele
que ele estava criando sua filha de um jeito errado”, disseram as autoridades;
Masha foi conduzida a um orfanato. A Rússia regride aos tempos do Grande Terror
da era de Stálin, quando os filhos de pessoas "inimigas do Estado"
eram separados de seus pais. Agora o terror tem o nome de Vladimir Putin.
Numa
Rússia cada vez mais asfixiada e amedrontada, a órfã Masha não está sozinha na
sua luta pela paz. Antes dela, o grupo de punk rock Pussy Riot já fazia suas críticas
ao crescente autoritarismo de Putin. Mas após o início da guerra e o aumento da
censura estatal, outros tantos artistas russos contrários à guerra estão
entrando na clandestinidade, reeditando as exposições secretas dos tempos
soviéticos com obras underground de protesto viscerais. É nessas ocasiões que a
arte perde seu glamour elitista, seu ar supérfluo e brando, sua função de
entretenimento, e se mostra a que realmente presta: revelar a verdade, despertar
a indignação, a reflexão e inspirar a mudança.
Masha
está numa trilha de arte que incomoda, denuncia e sacode já percorrida por
Goya, Picasso e Otto Dix. Em Los Desastres de la Guerra (180 – 15), Goya
retrata a resistência espanhola à invasão napoleônica. Na esteira miserável da Primeira
Guerra, Dix se revoltou com a maneira com que os ex-soldados feridos e
aleijados eram tratados na Alemanha. Isto se refletiu nas suas pinturas, que
adotavam como modelo aquela série de gravuras de Goya. Em 1937, Picasso pintou
“Guernica”, o maior manifesto contra a violência do século XX.
Eugène
Delacroix nos ensinou que o que anima os artistas “não são novas ideias, mas
sua obsessão com a ideia de que o que já foi dito não foi suficiente.” Parece
que nada que é dito sobre a infâmia da guerra, a maldade das ditaduras e a
covardia da censura é suficiente. Sempre é preciso dizer mais. É preciso dizer
sempre, de um modo cada vez mais criativo, eloquente, incontornável. E Masha já
fez isso. Deu-nos um novo recado. Em março de 2023, quando o advogado de Alexei
chegou ao tribunal para acompanhar a leitura do veredicto, levava outro desenho
da filha e uma carta dela onde se lia: "Pai, você é meu herói."
Masha,
você também é nossa heroína.

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