segunda-feira, 3 de abril de 2023

34 - A ARTE NA GUERRA

 



“O que seria da vida

se não tivéssemos coragem

de tentar alguma coisa?”

(Vincent van Gogh)

 

A arte empodera porque liberta e confere formas sedutoras às ideias até então silenciadas em nossas mentes anestesiadas. A beleza criada pelo artista desperta os demais do torpor. A liberdade abre as portas do ser para que se tenha a chance de ser o que realmente se é. E o que é por inteiro não abaixa a cabeça para ninguém, seja pai, mãe, professor, chefe, companheiro, governante ou deus. Isso incomoda numa democracia, porque torna as decisões e ações coletivas mais custosas, lentas, irritantemente negociadas, exigindo concessões, recuos e adiamentos para todos os envolvidos. Fazer política torna-se arte.

 

No Brasil convulso de 2016, em que um vice-presidente ascendeu ao poder após um “golpe de sorte”, ou depois de uma facada nas costas por parte da “base aliada”, uma das primeiras medidas do novo governo foi a extinção do Ministério da Cultura (Minc). O governo era frágil, a resposta do OcupaMinc foi contundente, e a decisão foi revertida em apenas dez dias. Apesar da reviravolta, aquele gesto de intimidação estatal foi um sinal. O sinal ganhou sua forma terrível com a posse de JB, o desprezível, que novamente extinguiu o MinC subordinando-o como secretaria do Ministério do Turismo – era a cultura sendo vendida como mero souvenir de viagem. E foram quatro anos sofríveis para o fomento da arte brasileira até que tudo voltasse ao “normal”, não sem antes testemunharmos a afronta às instituições democráticas da República por meio da destruição simbólica do nosso patrimônio cultural: As Mulatas (Di Cavalcanti), Bailarina (Victor Brecheret), O Flautista (Bruno Giorgi), Galhos e Sombras (Frans Krajcberg), A Justiça (Alfredo Ceschiatti), Muro Escultórico e Painel Vermelho (Athos Bulcão), Painel Araguaia (Marianne Peretti), Bandeira do Brasil (Jorge Eduardo), sem falar na própria estrutura arquitetônica e decoração dos palácios dos três poderes. Que selvagens!

 

Se a liberdade inspirada pela própria cultura nacional incomodou num Brasil que flertava – e ainda flerta - com o conservadorismo neofascista, os bons ares da arte são inadmissíveis num regime despótico. Nos regimes totalitários de todos os tempos, os artefatos artísticos e os poetas são as primeiras vítimas. Na noite de 10 de Maio de 1933, Goebbels ordenou a pilhagem e queima dos livros de Freud, Kafka, Fourier, Marx, Thomas Mann e Bertold Brecht; obras de Klimt foram incendiadas pelos mesmos nazistas; García Lorca foi morto pela ditadura de Franco; na Noite dos Poetas Assassinados, 12 poetas foram mortos a mando de Stálin; Pablo Neruda, amigo de Allende, foi envenenado menos de duas semanas após o golpe dado por Pinochet. No regime despótico russo do século XXI não é diferente.

 

“O bem deve ter punhos

O bem precisa de mão de ferro

Para arrancar a pele daqueles

Que o ameaçam”

 

Na cidade russa de Yefremov, pode-se ler esse poema perturbador num muro coberto de imagens patrióticas da operação militar especial. As letras Z e V adornam outros painéis espalhados por essa cidade russa, onde se encontram fotografias apoteóticas de soldados russos mascarados e armados. Talvez por não ter outra alternativa realista, em abril de 2022, a professora de arte de uma escola localizada nessa cidade orientou seus alunos a produzirem obras que pudessem servir de apoio moral às tropas russas no front. Apesar das atrocidades russas cometidas em Butcha naquela semana, a direção da escola se esforçava para que seus alunos acreditassem “em nós mesmos e em nossa pátria, que nunca erra.".

 

Masha, 12 anos, fez o seu melhor: desenhou uma mãe de longos cabelos negros, braço em riste e mão espalmada, enfrentando com uma expressão corajosa, frente a frente, dois mísseis que vinham em sua direção. Atrás dessa mãe, a filha que lhe dá a mão diante de uma tremulante bandeira ucraniana onde se lê “Glória à Ucrânia”, fincada no solo das férteis e verdejantes planícies ao sopé dos montes Cárpatos; do lado de onde vinham os foguetes, estendida e rota sob cinzas terras degeladas, uma bandeira russa com os dizeres “Não à guerra”; nos céus, se avistam os rápidos e pontiagudos caças Su-34, quase irrelevantes diante  do sol a brilhar bem amarelo, como o olho justiceiro de um deus, sobre a fronteira entre os dois países. O poder emocional e político dessa arte se revela ao sabermos que Masha não tem mãe nem é ucraniana.

 

Em menos de um dia, Masha e seu pai Alexei foram separados. Ela ficou sob a custódia do serviço de proteção à infância e ele da polícia. Menos de um ano após aquele desenho ter sido criado, Alexei foi multado, condenado e preso – “ele que ele estava criando sua filha de um jeito errado”, disseram as autoridades; Masha foi conduzida a um orfanato. A Rússia regride aos tempos do Grande Terror da era de Stálin, quando os filhos de pessoas "inimigas do Estado" eram separados de seus pais. Agora o terror tem o nome de Vladimir Putin.

 

Numa Rússia cada vez mais asfixiada e amedrontada, a órfã Masha não está sozinha na sua luta pela paz. Antes dela, o grupo de punk rock Pussy Riot já fazia suas críticas ao crescente autoritarismo de Putin. Mas após o início da guerra e o aumento da censura estatal, outros tantos artistas russos contrários à guerra estão entrando na clandestinidade, reeditando as exposições secretas dos tempos soviéticos com obras underground de protesto viscerais. É nessas ocasiões que a arte perde seu glamour elitista, seu ar supérfluo e brando, sua função de entretenimento, e se mostra a que realmente presta: revelar a verdade, despertar a indignação, a reflexão e inspirar a mudança.

 

Masha está numa trilha de arte que incomoda, denuncia e sacode já percorrida por Goya, Picasso e Otto Dix. Em Los Desastres de la Guerra (180 – 15), Goya retrata a resistência espanhola à invasão napoleônica. Na esteira miserável da Primeira Guerra, Dix se revoltou com a maneira com que os ex-soldados feridos e aleijados eram tratados na Alemanha. Isto se refletiu nas suas pinturas, que adotavam como modelo aquela série de gravuras de Goya. Em 1937, Picasso pintou “Guernica”, o maior manifesto contra a violência do século XX.

 

Eugène Delacroix nos ensinou que o que anima os artistas “não são novas ideias, mas sua obsessão com a ideia de que o que já foi dito não foi suficiente.” Parece que nada que é dito sobre a infâmia da guerra, a maldade das ditaduras e a covardia da censura é suficiente. Sempre é preciso dizer mais. É preciso dizer sempre, de um modo cada vez mais criativo, eloquente, incontornável. E Masha já fez isso. Deu-nos um novo recado. Em março de 2023, quando o advogado de Alexei chegou ao tribunal para acompanhar a leitura do veredicto, levava outro desenho da filha e uma carta dela onde se lia: "Pai, você é meu herói."

 

Masha, você também é nossa heroína.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário