segunda-feira, 20 de março de 2023

33 - UM REQUIEM PARA O MITO DA CRIATIVIDADE



“Quando sou completamente eu mesmo, quando me encontro sozinho e de bom humor — por exemplo, se estou viajando de carruagem, caminhando depois de uma boa refeição ou sem sono à noite — minhas ideias fluem melhor e com mais abundância. Tudo isso incendeia minha alma e, se eu não for incomodado, o tema em que estou pensando se expande, torna-se metodizado e definido, e o todo, ainda que longo, surge quase acabado e completo na minha mente, de modo que posso analisá-lo com um único olhar, como uma bela pintura ou uma linda estátua. Não ouço em minha imaginação as partes sucessivamente, ouço-as todas ao mesmo tempo. Quando passo a escrever tais ideias, faço-o com bastante rapidez, uma vez que tudo, como eu disse antes, já está acabado e no papel elas raramente diferem do que eram na imaginação” (Uma carta de Mozart, in: Allgemeine Musikalische   Zeitung, 1815).

 

Por décadas se achou que era essa a descrição do processo criativo de Mozart. Só que não. Esse parágrafo atribuído ao compositor é fake. Tanto quanto parece um pouco distante da verdade a cena do filme Amadeus em que é composta sua última música, o Requiem. A realidade da criação artística não é mágica, é árida, é trabalho, exaustivo trabalho – não à toa Mozart morreu aos 36 anos. Como numa barganha fáustica, atingir o ápice da criatividade humana teve o seu preço: uma breve vida.

 

Ainda que as partituras de Mozart, comparadas com as de Beethoven, por exemplo, sejam quase limpas de rasuras, correções e adendos, seu processo dependia revisões, reescrita. Apesar de seu imenso poder imaginativo, isso não o impedia que travasse em determinada peça, ou que fracassasse diante do público de gosto sempre cambiante. Tampouco ele compunha tudo apenas em sua mente, dependendo da presença física do piano e do cravo, onde ele poderia testar a harmonia do ritmo e da melodia que soavam em seu cérebro musical.

 

As sinfonias, óperas, sonatas e concertos não lhe eram dados por Euterpe, a deusa grega da música, em forma de perene inspiração. Tudo foi construído diariamente, durante anos, desde os seus quatro anos de idade. A invenção é um lento processo contínuo, não um salto fantástico. Assim, até o Requiem, foram mais de três décadas de extenuante trabalho apaixonado. A prática deu-lhe a fluência e a rapidez no raciocínio exibidos no vídeo. Mas dificilmente as coisas foram tão fáceis quanto o filme Amadeus sugere. Mozart morreu e sua última obra – fúnebre - ficou incompleta.

 

Todos nós somos criativos, assim como capazes de correr e nadar. Mas não seremos todos nós quem todo dia levantará cedo e se sentará ao piano para praticar e compor tendo em vista o próximo concerto; ou quem correrá 10 Km ou nadará 4 Km todos os dias sonhando com as Olimpíadas. Apesar das nossas potencialidades semelhantes, nossas disposições para o esforço são diversas. Uns podem e querem dar mais. Outros se contentam em apreciar. Tristemente, muitos podem e querem dar mais, mas as condições familiares e sociais as constrangem de tal modo que aqueles que vencem essas barreiras são mais que artistas ou atletas, são heróis. No Brasil, esses heróis ainda possuem uma vida tão ou mais breve quanto a de Mozart. Sacrificamos nosso gênio num prato de comida vazio, numa sala de aula sem professores, num posto de saúde sem médicos, num lar sem pais emocionalmente disponíveis. Mozart não teria sido quem foi sem a dedicação de seus pais. A criatividade precisa ser cultivada, mas é frágil. Cuide bem da sua e daqueles que você ama. Não zombe. Elogie. Seja gentil com a alma do outro  e com a sua. É o que você tem de mais valioso e te acompanhará até o fim, até a última nota do réquiem.  

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