T. era linda e sabia disso. Nos olhos fervilhava uma inteligência criativa; a boca declarava em sensualidades de dentes e lábios e língua aquilo que o resto do corpo aflorava em seios redondinhos, quadril largo e cabelos negros ao meio das costas. Não era vulgar. Era um anjo que se equilibrava entre a disciplina do estudo e as seduções da juventude. Todas essas impressões reforçavam-se ainda mais quando se trata da primeira pessoa que você vem a conhecer no primeiro ano do curso colegial. Eu já estava sentado, à espera do início da primeira aula semestre, quando entrou apressada pela sala essa garota: mal deixou os livros e cadernos sobre a carteira dela, a pilha de material escolar escorregou e veio ao chão. Rapidamente pus-me a ajudá-la. Ela abriu um sorriso inesquecível que expressava o agradecimento e o constrangimento daquele evento.
Depois dos doze anos de idade, os menores incidentes com o sexo oposto podem dar ensejo ao início de um grande encantamento – que acabam se tornando as mais belas idealizações de outro ser humano que alguém é capaz de fazer ao longo da sua vida. Há quem se apaixone por quem lhe pise no pé numa valsa debutante; por quem lhe derrube o lanche no recreio ou por quem, de tão tímido, nunca lhe diz um oi. Alguns anos antes daquele dia inaugural do colegial eu convivi com uma menina chamada D., cujo nome todos sabíamos não por ela, mas pela chamada que os professores faziam dos alunos conferindo a presença de cada um em sala de aula. Mesmo nessas ocasiões ela apenas levantava discretamente o braço, nada dizia. Era uma loirinha caipira do interior de Santa Catarina. Era duma beleza erótica demais pra pouca idade que tinha e que nem todos os meninos percebiam. Dizia-se que por ter um sotaque carregado do qual fora vítima de gozação anteriormente, preferia ficar calada; outros diziam que ela não falava português, apenas alemão. Eu nunca soube sua verdadeira história porque nunca pude ouvir sua voz. Ela nunca me disse nada, mas pelo seu silêncio eu permaneci apaixonado por três anos.
Foi um amor sem palavras, mas não sem mãos e beijos. Amor escondido como todo primeiro amor, mas coletivo. Compartilhei-a com outros dois colegas meus, ao final das aulas, na curva escura da escada da cantina da escola. Alternávamos os dias da semana e fingíamos não saber um do outro. D. foi nossa lição inicial sobre a mulher. Ela, por não falar nada também não era muito falada. Saiu da escola cheia de mistérios, mas depois de anos com seus pequenos meio sorrisos substituindo as palavras, todos tinham em conta que ela era uma espécie de santa.
T. não tinha as aparentes virtudes de D.; era fatal e manteve-me sob seu signo por mais tempo que qualquer outra conseguiria. Foi ela a minha estátua de mármore eterna, meu mais sofrido aprendizado do feminino. Algumas semanas depois de nosso primeiro contato já almoçávamos juntos nos dias que havia aulas à tarde. Falávamos dos livros que líamos e das músicas que ouvíamos, sentados num banquinho no jardim da escola, em meio à algazarra de outros grupos de rapazes e garotas.
Eu lhe presenteava chocolates e ela me beijava o rosto e dava gargalhadas de prazer. Como eu era feliz quando entre uma frase e outra eu lhe tocava o braço ou pousava-lhe no joelho minha mão. Mas o que eu queria mesmo era entrelaçar os meus dedos aos dela e sentir o mais perto possível o perfume barato que ela sempre usava. Eu ainda não tinha me dado conta de como em tão pouco tempo eu já a amava e a admirava, como eu a queria só para mim. Também não me dera conta que ela já não era, nem nunca seria, apenas minha. Com frequência cada vez maior garotos cheios de espinha vinham interromper nossas conversas ou ela mesmo se dispersava com acontecimentos ao nosso redor. Fui ficando sozinho com o meu amor passarinho, frágil e rápido; invisível na mata, dele só se escutando fino assobio. Então quis dar forma ao meu canto já triste. Desolado pela ausência dela, escrevi um fatídico bilhetinho apaixonado, diploma de todo amor romântico destinado ao fracasso.
Foi o fim. No outro dia ela pediria junto à coordenação da escola pra mudar de turma e nós nos distanciamos tanto quanto um dia estivemos próximos. Eu quis ter chorado, mas não me permiti tal fraqueza; procurei-a na praça da escola, mas, ao me ver, ela apenas esticava aborrecida o canto da boca, abaixava o olhar e, com crueldade, lentamente, ia me dando às costas: os longos cabelos negros, as nádegas firmes, o lacinho sobre o calcanhar da sapatilha rosa. Fiquei sem resposta por dias, até que uma amiga dela me cutucou no meio duma aula de química e me entregou um papelzinho que sentenciava: para sempre seremos grandes amigos! Beijos. T.
Como é difícil, no princípio da juventude, dissociar o amor da amizade e a admiração do tesão. Esses sentimentos se confundem em diferentes pessoas, sejam por homens ou mulheres, e criam uma confusão de gêneros e interesses que ora paralisa e conduz-nos para uma caixa de solidão, ora nos atiça e nos impele para uma festa de beijos, abraços e cerveja. Mas como é prazeroso sofrer nessa idade. A vida ganha maior densidade e até mais importância quanto maior é a dor do encantamento que súbito se desfaz em desdém. Mas há um limite, e o meu foi o dia em que eu a vi sendo amparada do frio de maio pelos braços de um aluno alto, magro e que falava com voz esganiçada. Resignei-me. Entre o primeiro e aquele último passaram-se quatro meses, dois séculos naqueles tempos de esperas mínimas e ansiedades máximas; entre o gênesis e o apocalipse daquela paixão, rompi com Deus.

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