Como é usual nas aulas de dança de salão, havia mais homens que mulheres divertindo-se com a salsa, de modo que me encostei a parede para ceder a vez de aprender o passo a um outro cavalheiro. Foi quando recebi o seguinte zapzap: vc está em BSB? Pronto, eu já adivinhara tudo: nosso dia chegara.
Nunca a havia visto antes,
a não ser em fotos do Facebook – que linda, que linda! Falamo-nos algumas vezes
por telefone – e aquele seu gostoso acento nordestino demorava dias pra me sair
dos ouvidos. Escrevemo-nos, muito. Durante três anos foi quase semanal e
ininterrupta nossa correspondência. Perdemos um pouco do fôlego quando cada um
iniciou seu respectivo namoro, mas, em segredo, com palavras mais sussurradas e
cheias dos mistérios que só nós sabíamos desvendar, permanecemos em nossa
escrita. Existia a curiosidade de nos encontrarmos em férias ou feriados
prolongados, mas constrangia-nos o medo desse levantar de véu revelar o que
seria mais bonito oculto. Deixar como estava parecia de maior valor: assentávamo-nos
apenas em palavras sinceras, na confiança, na lealdade. E fomos deixando assim,
sem criar expectativas de um dia nos vermos.
Talvez tenha se
decidido de repente; talvez não quisesse ter de passar muito tempo
comigo; acontece que estava no shopping fazendo hora pra embarcar no avião de volta às praias. Não tive sequer tempo de ir em casa tomar banho e,
mesmo suado pelo ritmo latino da tarde, fui dar com ela. Em tempos de
Tinder e Lovoo, parecia que seria mais um daqueles meus encontros às escuras em
que na maioria das vezes eu me surpreendia com a incoerência estética entre a
foto das moças e a realidade, ou então entre a falta de delicadeza no agir e aquilo que elas escrevem tão carinhosas nas mensagens de
celular.
Teclei: onde vc está? Ela: sentada num sofá ao lado da Siberian. Coincidentemente, era por ali
que eu passava, de modo que apenas parei e olhei para a minha direita: R. terminava de digitar vc já
chegou? Apenas apoiei minha mão sobre o ombro dela pra dizer solene cheguei!
Um ser macio e alvo, com olhos de gato,
cabelos em brasa, batom de pimenta,
ancas empinadas em elegante par de sapatos:
puta casta que me enternece e tenta,
que me beija invisível e confere ao viver mais gosto ;
fantasma uébico de altivo busto e lívido rosto.
Um tremer sem susto, porque embora escuro,
há uma enorme lua lá fora.
No meu retrato fatal não pude me representar –
ao invés da minha imagem de grito rouco e riso tímido,
pintei um anjo gauche com meus dedos em tinta guache – miragem :
não era minha sombra nem o meu reflexo no chão liso do abismo ;
naquela tela-espelho emergiu um espectro indefinido, mas belo :
caos de cores e formas claras para onde
saltara o Ser alado da sua dimensão de diamante,
e, assim encorajado, pisei o inevitável passo adiante.
Anjo e homem, em prometido destino, caíam -
os lábios quase se tocando, as asas em anestesia -
descolando a carne fria da alma vazia,
fundindo a anima íntegra ao animal envolvente.
Quedaram helicóides essas duas sementes e
entoando odes entregaram-se para o amanhecer -
cada nascimento tem a sua exata hora;
cada existir o merecido desaparecer.
E nesse surgir-extinguir, nesse riso-canto,
anti-platônica mistura entre ideia e matéria,
herdei um quê de santo e
o Ser fez-se de anjo torto em mulher etérea.
Lado a lado abdicamos duma vaga (i)mortalidade
e abraçamo-nos na mais breve das eternidades.
Seguimos pelas galerias de lojas sem que ela deixasse eu carregar sua mala. Mais encantadora do que
na web. Mais envolvente que nos textos, neste encontro às presas, inesperado,
às cegas, ela abriu-me os olhos pra mim mesmo. Sentamos num café e conversamos
como quem é amigo dos tempos de criança. Falou-me das tempestades dela, mas
também de laranjas e amoras. Contei-lhe sobre como a minha vida estava melhor
desde que começara a ganhar um dinheiro que valia a pena, mas também de como eu
ainda temia ser o que eu deveria ser. Enquanto ela comia o bolo de chocolate mais gostoso
do mundo, me repetiu o que já me dissera dezenas de vezes.
Por medo, medo de
fracassar, de decepcionar os outros, fingimos não ser nossos os nossos sonhos.
Buscamos outros caminhos, mais retos, mais normais, que teoricamente nos
deixariam mais felizes – ou pelo menos nossos pais. Porém, ao cobrirmos nosso
espelho, escondemos nossa essência, vivemos a vida pela metade. Então, meu amigo,
sai desse armário cheio de naftalina! Coragem! Seja inteiro e deixe
que todos sintam o seu verdadeiro perfume!
Duas horas depois ela voava
pro mar e eu ficava aqui no cerrado, em flor, sendo eu: Leduc!

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