Há 42 anos morria
Angenor de Oliveira, o Cartola. Segue um testemunho em forma de homenagem.
A primeira vez que
tive consciência da sua música, ou seja, que eu a ouvi prestando atenção, eu
tinha doze anos. Era fevereiro de 1997, por voltas das seis e meia da manhã, e
eu tomava um copo de leite puro e gelado, já vestido com o uniforme escolar,
assistindo a uma aula de artes do Telecurso 2000. O apresentador, jovem, com
uma voz suave, toma o violão ao colo e começa a cantar As Rosas Não Falam. Que
coisa linda! Nunca tinha escutado aquilo. Fui para escola, na companhia do meu
irmão - como sempre íamos juntos, a pé - assobiando aquela melodia triste e
profundamente bonita, mais bonita do que triste.
Em julho de 2004, nas
férias universitárias, numa das raras vezes em que eu ia cinema, assisti ao
filme sobre um outro A[n]genor, o Cazuza, que apenas reconheceu seu nome de
batismo após se saber xará daquele das rosas que não falavam. Um da favela,
outro do Leblon; um, de antepassados escravistas, gravou seu primeiro disco aos
66 anos, outro era burguês e filho do fundador da Som Livre; um do sambódromo,
outro do Rock’n Rio; um consolou-se com o álcool, outro com o pó; um teve a
glória na velhice, outro ainda novo; um foi tocado pelo rosácea, outro pela
AIDS; um, apesar da vida difícil, envelheceu, outro, apesar da vida boa, foi-se
cedo demais.
Em inícios dos anos
1970, enquanto Cazuza ia para Londres de férias, Cartola era chamado às pressas
por D. Zica ao seu jardim, no pé do morro da Mangueira:
- Cartola, venha
aqui! Venha ver o jardim! Por que é que nasceu tanta rosa?
– Não sei, Zica. As
rosas não falam! respondeu o músico já percebendo aquela frase como o mote de
uma de suas composições mais famosas – atualmente a décima-primeira canção
brasileira mais regravada de todos os tempos.
As rosas não falam,
mas continuam exalando o perfume do mágico compositor Cartola.

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