Essa história ganhou maior visibilidade em 1992, com o livro Vinte Luas, de Leyla Perrone-Moisés, ganhador do Prêmio Jabuti de 1993 de melhor Ensaio e Biografia.
RELAÇÃO DA VIAGEM
DO CAPITÃO DE GONNEVILLE
ÀS NOVAS TERRAS
DAS ÍNDIAS
Os oficiais do Almirantado da França
Na Sede Geral da Mesa de Mármore do Palácio de Ruão
Fazem saber
Que dos registros do cartório da dita Sede,
Ano de mil quinhentos e cinco,
Foi extraído e colacionado com a minuta original que
segue.
DECLARAÇÃO DA VIAGEM DO CAPITÃO GONEVILLE
E SEUS COMPANHEIROS ÀS ÍNDIAS
E observações feitas durante a dita viagem apresentada
à Justiça
Pelo Capitão e os ditos companheiros,
Conforme requerido pela gente do Rei nosso Senhor
E ordenado lhe foi.
ARMAÇÃO DO NAVIO
Primeiramente
dizem que, traficando em Lisboa, ele Gonneville e os honrados varões Jean
l’Anglois e Pierre le Carpentier, vistas as belas riquezas de especiarias e
outras raridades que chegavam àquela cidade por navios portugueses vindos das
Índias Orientais, há alguns anos descobertas, combinaram de lá enviar um navio,
depois de bem se informarem junto a alguns que tinham feito tal viagem e de
contratarem por alto salário dois portugueses que de lá tinham voltado, um
chamado Bastião Moura, o outro Diogo Couto, para que, no caminho das Índias,
eles os ajudassem com seu saber.
E
porque os três acima mencionados não tinham bastantes faculdades para
realizarem sozinhos tão alta empresa, associaram-se aos honrados varões Etienne
e Antoine, conhecidos como os irmãos Thiéry, Andrieu de la Mare, Batiste
Bourgeoz, Thomas Atinal e Jean Carrey, burgueses de Honfleur. E os nove, com
gastos e despesas comuns, equiparam um navio do porte de cento e vinte
toneladas, aproximadamente, chamado L’Espoir, que somente havia servido para
fazer uma viagem a Hamburgo, bom de casco e de velas e dos mais bem equipados e
aparelhados do porto de Honfleur; e nenhuma economia
foi feita pelos burgueses para bem aprovisionar o dito navio, segundo o
inventário de mostra, a saber:
Como munições de
guerra:
Dois canhões
fundidos de cobre e latão;
Dois canhonetes de
igual fundição;
Seis falconetes e
bombardas de ferro fundido de variados calibres;
Quarenta
mosquetes, arcabuzes e outras armas de fogo;
Mil e seiscentas
libras de bala de diversos calibres para artilharias, não compreendidas aí três
dúzias de balas de cavilha e correntes;
Além disso,
quatrocentas libras de balas para as citadas armas de fogo e chumbo em barra de
lingotes;
Quinhentas libras
de ferragens e metralhas para as ditas artilharias; Duas mil libras de pólvora
de canhão, um quinto dela granulada;
Trezentas e
cinquenta mechas para armas de fogo;
As ditas
artilharias montadas em as carretas, e guarnecidas do número e quantidade
necessários de soquetes com saca-trapo na ponta, agulhões, escovilhões, placas,
vertedouros, palmetas, pinças de mira, e outros bota-fogos, cartuchos de ferro
e de madeira, pergaminho de papel grosso para cartuchame, bragas guarnecidas de
roldanas, rocegas e outros pertences necessários;
Quarenta lanças,
dardos, partazanas e adagas;
Além disso, para
substituição:
Duas carretas;
Seis rodas de
carreta;
Uma dúzia e meia
de peças de ferro sobressalentes;
Seis ganchos para
cordas;
E quatro dúzias de
cavilhas e chavetas
E também como
munições de navegação, para substituição:
Duas âncoras além
das ordinárias, pesando uma quinhentas outra trezentas libras;
Dois cabos
suplementares, um de cento e vinte braças, outro de cem;
E dois cabos de
massa, também para substituição;
E seiscentas varas
de lona de algodão, tanto dupla como simples, pano cru e tratado para troca de
velas;
Oito vaquetas para
as bombas e vergas dos gurupés;
Uma dúzia de
machadinhas, de combate como de trabalho;
E um timão e barra
de leme para substituição.
E tudo isso
verificado verdadeiro pele inventário acima fornecido, mostrando a grande perda
que o dito Capitão e companheiros sofreram com a pilhagem e o saque de seu
navio, razão pela qual eles se queixam à Justiça; no qual inventário haviam
omitido, por inadvertência ou por outra razão qualquer, a menção da quantidade
e das espécies de suas munições.
Além disso foi o
dito navio abastecido de biscoito, grão e farinha para cerca de dois anos,
visto o número de pessoas da tripulação;
Ervilhas, favas,
toicinho, carne de cabra e peixes salgados e secos, sidras e outras bebidas,
sem contar a provisão de água, para um ano ou mais;
E também foi
abastecido de muitos alimentos frescos antes da partida;
Também foi aviada
a arca do Cirurgião do navio com numerosos medicamentos de primeira necessidade
e com os instrumentos e utensílios de sua arte.
Quanto às
mercadorias, foi o navio carregado de:
Trezentas peças de
tecidos diversos;
Machados, enxadas,
foices, relhas, segadeiras num total de quatro milheiros;
Dois mil pentes de
várias espécies;
Cinquenta dúzias
de espelhinhos;
Seis quintais de
miçangas de vidro;
E oito de quinquilharias
de Ruão;
Vinte grosas de
facas e canivetes;
Um fardo de
alfinetes e agulhas;
Vinte peças de
droguete;
Trinta de fustão;
Quatro de tecido
tingido escarlate;
Oito outras de
diversas estampas;
Um de veludo com
figuras;
Algumas outras
douradas;
E moedas de prata
que, segundo souberam, valiam na Índia tanto quanto ouro.
E tudo igual ao
que costumam carregar os portugueses, por serem essas coisas, do lado de lá e
no caminho, as de melhor tráfico.
Dizem
que no navio embaraçaram ao todo sessenta almas; e com o acordo de todos, e
especialmente dos burgueses do navio, foi estabelecido capitão e chefe
principal aquele de Gonneville, para governar a viagem da melhor forma, com os
conselhos de Andrieu de la Mare e Antoine Thiéry, dos ditos burgueses do navio
que faziam a viagem.
E
para o mister do mar ia como piloto Colin Vasseur, de
Sain-Arnous-lez-deTouques, bom e velho navegador e mestre; e Nollet Epeudry de
Grestaing, co-piloto.
E
todos, tanto os principais quanto os companheiros, receberam antes de partir os
sacramentos, tanto pela fortuna de tão longa viagem quanto pela dúvida de não o
receberem por muito tempo, já que não havia capelão no navio e eles iam para
fora da Cristandade.
E
assim partiram do porto de Honfleur, no próprio dia de Monsenhor São João
Batista [24 de junho] do ano da graça de mil quinhentos e três.
VIAGEM DE IDA
Diziam
também que tendo partido, e sendo o mar aflorado por vento nordeste propício,
em dezoito dias mais ou menos chegaram à Ilhas Canárias, que são terras altas, sobretudo
a de Tenerife, entre a qual e a de Gomera passaram sem parar, indo daí em
direção da Barbaria[1],
costeando esse país, que é terra chã e campanha rasa.
Da
Barbaria foram à demanda das ilhas de Cabo Verde, cheias de montanhas e
rochedos, habitadas por portugueses que aí fazem tráfico de cabritos,
abundantes nas ditas ilhas.
E
passando adiante, chegaram à grande terra de Cabo Verde, país de Mouros, os
quais trocaram com os navios cuxu[2], uma espécie de arroz,
galinhas pretas e outras virtualhas, por ferro, miçangas e outras bugigangas; e
foi o navio refrescado, provido de água e limpo das conchas. Para tanto, í
permaneceu durante dez dias.
Também
dizem que tendo retomado o mar, na véspera do dia de São Lourenço [9 de
agosto], foi decidido seguir ao longo da costa da África, para evitar os
perigos e a pestilência dessa costa. E tinham então vento bastante favorável,
que assim continuou por seis semanas; entretanto às vezes elevavam-se
turbilhoes em tempo sereno, que atormentavam muito, mas não duravam. E também
eram incomodados por chuvas fétidas, que manchavam as roupas; caindo sobre a
pele, provocavam borbulhas; e eram frequentes.
Dizem
também que a linha do Equador foi por eles ultrapassada no dia doze de setembro; e viram, tanto de um
lado como de outro, peixes-voadores em bandos como fariam em França os
estorninhos, com asas como as de morcego, e de tamanho próximos ao de arenque
branco. Além disso, viam-se peixes-galo, golfinhos e outros peixes, que os
marinheiros pescavam para fazer caldeiradas.
Começou
então no navio o mal do mar[3], que afligiu dois terços
da população; e disso morreram o Senhor Coste, de Harfleur, que por curiosidade
fazia a viagem; Pierre Estieuvre e Louis Le Carpentier, de Honfleur; Cardot
Hescamps, artilheiro de Pont-eau-de-mer; Marc Drugeon de Breuil e Philippe
Muris, de Touques.
E
desde então começaram a dirigir-se pelo Cruzeiro do outro Polo.
Dizem
também que pito dias depois do dia de Todos os Santos [9 de novembro] viram
flutuando no mar longos e grossos caniços com suas raízes, que os dois
portugueses disseram ser o sinal do Cabo da Boa Esperança, o que lhes deu
grande alegria; e porque não viam os pássaros chamados mangas-de-veludo[4], pensavam que o navio
estivesse cursando muito abaixo do dito Cabo; e também porque sentiam mais
frio.
Dizem
que então começaram a ter tempo e vento contrários, de modo que, durante três
semanas, não avançamos nada.
E
morreu-lhes Colin Vasseur, seu piloto principal, de apoplexia súbita, o que foi
grande perda para a viagem.
E
foi essa infelicidade seguida de outra, a saber, rudes tormentas, tão veementes
que obrigados foram a se deixarem ir, por alguns dias, ao sabor do mar, a
abandono [das correntes marítimas]; e perderam a rota; o que muito os afligia,
dada a necessidade que tinham de água e de se refrescarem em terra.
Dizem
que a tormenta foi seguida de alguma calmaria, de modo que eles pouco
avançavam. Mas Deus os reconfortou, pois começaram a ver vários pássaros, vindo
e voltando para o lado sul, o que os fez pensar que não estavam afastados da
terra; razão pela qual, embora ir naquela direção fosse voltar as costas à
Índia Oriental, a necessidade os fez virar s velas; e no dia cinco de janeiro
descobriram uma grande terra, onde só puderam arribar no crepúsculo do dia seguinte,
por causa de um vento de terra contrário; e ancoraram em bom fundo.
E
já naquele dia alguns tripulantes foram à terra reconhecer; e já na manhã
seguinte foi enviada uma barga à costa para encontrar um porto, e voltou à
tarde; e conduziu o navio a um rio que ela havia achado, e que é quase como o
rio Orne.
ESTADA NAS NOVAS TERRAS DAS ÍNDIAS
Dizem ter permanecido no dito país até
o mês de julho seguinte, por estar o navio tão carunchoso e gasto que tinha
grande necessidade de limadura; no que foi empregado não pouco tempo, por falta
de operários com prática nessas coisas.
E aí os companheiros do navio decidiram
voltar à França, recusando-se a navegar do dito lugar até à Índia, dizendo que
aquele mar ainda não fora navegado por cristãos, que o tempo fora perdido, e
também o principal piloto, que era a principal fiança da viagem; e que, ainda
mais, o dito navio não poderia aguentar tal percurso. De modo que, por essas e
outras razões, que todos endossaram, para desencargo do Capitão, foi decidia a volta
à Cristandade.
Dizem também que, durante sua
permanência na dita terra, conversavam cordialmente com as gentes dali, depois
que ela foram cativadas pelos cristãos por meio das festas e pequenos presentes
que estes lhe faziam; sendo os tais índios gente simples, que não pediam mais
do que levar uma vida alegre sem grandes trabalhos, vivendo da caça e da pesca,
e do que a terra lhes dá de per si, e de alguns legumes e raízes que plantam;
indo meio nus, os jovens e a maioria dos homens usando mantos, ora de fibras
trançadas, ora de couro, ora de plumas, como aqueles que usam em seus países os
egípcios e os boêmios, exceto que são mais couros, com uma espécie de avental
amarrado sobre as ancas, indo até os joelhos, nos homens, e nas mulheres até o
meio das pernas; pois homens e mulheres se vestem da mesma maneira, exceto que
a vestimenta da mulher é mais longa.
E usam as fêmeas colares e pulseiras de
osso e de conchas; não o homem, que usa, em vez disso, arco e flecha tendo por
virotão um osso devidamente acerado, e um chuço de madeira muito duro, queimado
e afiado no alto; o que constitui toda sua armadura.
E vão as mulheres e as meninas com a
cabeça coberta, tendo as cabeças gentilmente trançadas com cordéis de ervas
tingidas com cores vivas e brilhantes. Quanto aos homens, usam longos cabelos
soltos, com um círculo de plumas altas, de cores vivas e bem dispostas.
Dizem ainda terem entrado no dito país,
aí avançando por dois dias, e ao longo da costa mais tempo, tanto à direita
como à esquerda; e terem notado que o país é fértil, provido de muitos animais,
pássaros, peixes, árvores, e outras coisas singulares desconhecidas na
Cristandade, cujas formas o falecido senhor Nicole Le Febvre de Honfleur, que
fazia a viagem como voluntário, curioso e personagem de saber, tinha retratado;
o que se perdeu com os diários de bordo por ocasião da piratagem do navio;
perda em razão da qual muitas coisas e boas observações são aqui omitidas.
Também dizem que o sito país é
medianamente povoado.
E as habitações dos índios formam
aldeias de trinta, quarenta, cinquenta ou oitenta cabanas, feias à maneira de
galpões com estacas unidas umas às outras, ligadas por ervas e folhas, com as
quais os ditos habitantes são igualmente cobertos; e têm por chaminé um buraco,
para fazer sair a fumaça. As portas são bastões corretamente ligados; e eles se
fecham com chaves de madeira, quase como as que se usam, nos campos da
Normandia, nos estábulos.
E seus leitos são esteiras macias
cheias de folhas ou penas, suas cobertas são esteiras, peles de animais ou
plumagens; e seus utensílios domésticos são de madeira, mesmo as panelas, mas
estas são revestidas de uma espécie de argila da espessura de um dedo, o que
impede que o fogo as queime.
Também dizem ter notado que o dito país
está dividido em cantões, cada um com seu Rei; e embora os ditos reis não sejam
mais bem alojados e vestidos do que os outros, são muito reverenciados por seus
súditos; e nenhum é tão atrevido que ouse desobedecer-lhes já que eles têm
poder de vida e de morte sobre seus vassalos. Disso alguns do navio viram um
exemplo digno de memória, a saber, o de um rapaz de dezoito a vinte anos que,
num momento de exaltação, deu uma bofetada em sua mãe; tendo isso chegado ao
conhecimento do chefe, embora a mãe não se tenha queixado, este mandou buscar o
rapaz e ordenou que o jogassem no rio, com uma pedra no pescoço, depois de
chamar, por aviso público, os jovens da aldeia e das aldeias vizinhas; e
ninguém conseguiu obter remissão, nem mesmo a mãe que, de joelhos, veio
implorar perdão para seu filho.
O dito rei era aquele em cuja terra
permaneceu o navio; seu nome era Arosca. Seu país tinha a extensão de um dia, e
era povoado por cerca de uma dúzia de aldeias, cada uma das quais tinha o seu
capitão em particular, e todos obedeciam ao dito Arosca.
O dito Arosca tinha, ao que parece, uns
sessenta anos, e era viúvo; tinha seis filhos machos de trinta até quinze anos;
e vinham, ele e os filhos, frequentemente ao navio. Homem de postura grave,
estatura média, gordinho, de olhar bondoso; em paz com os Reis vizinhos, mas
ele e estes guerreavam com outros povos das terras interiores: contra os quais
investiu duas vezes, durante a estada do navio levando de quinhentos a
seiscentos homens cada vez. E da última vez, seu retorno foi motivo de grande
alegria para todo o seu povo, porque ele tinha alcançado grande vitória; suas
ditas guerras não eram mais do que excursões de poucos dias contra o inimigo. E
ele bem que gostaria que alguns do navio o acompanhassem com suas armas de fogo
e artilharia, para atemorizar e desbaratar seus ditos inimigos; mas disso a
gente se escusou.
Também dizem que não notaram nenhum
sinal particular que distinguisse o dito Rei dos outros Reis do dito país, dos
quais cinco vieram ver o navio, afora que os ditos Reis usam na cabeça plumagens
de uma única cor; e seus vassalos, pelo menos os principais, usam em seus
círculos de pena algumas da cor de seu chefe, que era o verde na do dito
Arosca, seu hospedeiro.
Também dizem que se os cristãos fossem
anjos descidos do céu não seriam mais estimados por esses pobres índios, que
estavam todos assombrados com a grandeza do navio, com a artilharia, os
espelhos e outras coisas que eles aí viam, e sobretudo com o fato de que, por
um recado escrito que se enviasse de bordo aos tripulantes que estavam nas
aldeias, se lhes fizesse saber o que se queria; eles não conseguiam explicar
como o papel podia falar. Também por isso os cristãos eram por ele temidos, e
pelo amor de algumas pequenas liberalidades que lhes faziam, pentes, facas,
machados, espelhos, miçangas e outras bugigangas, tão amadas que por elas se
deixariam esquartejar, e lhes traziam abundância de carne e peixes, frutas e
víveres, e tudo o que eles viam ser agradável aos cristãos, como peles,
plumagens e raízes para tingir; em troca do que lhe eram dadas quinquilharias e
outras coisas de baixo preço: de modo que reuniu-se cerca de cem quintais das
ditas mercadorias, que na Franças teriam alcançado bom preço.
Dizem também que, desejando deixar, no dito
país, marcas de que ali haviam chegado cristãos, foi feita uma grande cruz de
madeira, alta de trinta e cinco pés ou mais, bem pintada; a qual foi plantada
num outeiro com vista para o mar, em bela e devota cerimônia, tambor e trombeta
soando, em dia bem escolhido, a saber, o dia de Páscoa de mil quinhentos e
quatro. E foi a dita cruz carregada pelo Capitão e pelos principais do navio,
todos descalços; e ajudavam-nos o dito chefe Arosca e seus filhos e outros
índios notáveis, que para tanto foram convidados de honra, e eles se mostravam
alegres. Seguia a tripulação armada, cantando a ladainha, e um grande povo de
índios de todas as idades, aos quais há muito fazíamos festa, quietos e muito
atentos ao mistério.
Plantada a dita cruz, foram dados
vários tiros de escopeta e artilharia, e oferecidos festim e presentes honestos
ao dito chefe Arosca e principais índios; e quanto à populaça, não houve
ninguém a quem não se fizesse algum dom de bugigangas baratas, mas por eles
prezadas, tudo para que o fato lhes ficasse na memória; dando-lhes a entender,
por sinais e de outras formas, o melhor possível, que eles deviam conservar e
honrar a dita cruz.
E nesta estava gravado, de um lado, o
nome do nosso Santo Padre e o Papa de Roma, do Rei nosso Senhor e do Senhor
Almirante de França; do Capitão, burgueses e companheiros, do maior até o
menor. E fez o marceneiro do navio essa obra, o que lhe valeu o menor. E fez o
marceneiro do navio essa obra, o que lhe valeu um presente de cada companheiro.
Do outro lado foi gravado um presente de cada companheiro. Do outro lado foi
gravado um dístico numeral latino composto pelo senhor Nicole Le Febvre e acima
citado, que de gentil maneira declarava a data do ano da chantadura da cruz, e
quem a havia chantado; e ali estava:
HIC SACRA
PALMARIVS POSVIT GONIVILA BINOTVS;
GREX SOCIVS
PARITER, NEUSTRAQVE PROGENIES[5]
Dizem ainda que estando finalmente o
navio limado, calafetado e abastecido o melhor possível para a volta, foi
decidido que se partisse para a França.
E porque é costume daqueles que chegam
às novas terras das Índias levarem delas à Cristandade alguns índios, tanto se
fez, com tal gentileza, que o dito chefe Arosca consentiu que um de seus filhos
jovens, o qual se dava bem com os do navio, viesse à Cristandade, já que se
prometia ao pai e ao filho trazê-lo de volta dentro de vinte luas ao mais
tardar; pois assim eles contavam os meses. E o que lhes davam mais vontade:
faziam-no crer que, àqueles que viessem do lado de cá, ensinariam a artilharia;
o que ele desejava intensamente, para poderem dominar seus inimigos: como
também a fazer espelhos, facas, machados e tudo o que viam e admiravam dos
cristãos; o que era prometer-lhes tanto como prometer a um cristão ouro, prata
e pedrarias, ou ensinar-lhes a pedra filosofal.
Tendo acreditado firmemente nessas coisas,
o dito Arosca estava contente de que levassem seu filho, que se chamava
Essomericq; e deu-lhe por companhia um índio de trinta e cinco ou quarenta
anos, chamado Namoa.
E vieram, ele e seu povo, em escolta
até o navio; fornecendo-lhes muitos víveres, numerosas e belas plumagens e
outras rariudades, como presentes que eles enviavam ao Rei nosso Senhor. E o
dito chefe Arosca e os seus esperaram a partida do navio, fazendo o Capitão
jurar que voltaria dali a vinte luas; e na hora da partida o povo todo soltou
um grande grito, e davam a entender que conservariam bem a cruz; fazendo o
sinal dela com dois dedos cruzados.
VIAGEM DE VOLTA
Dizem também que assim partiram das
ditas Índias Meridionais, no dia três de junho de mil quinhentos e quatro, e
desde então não viram terra até o dia seguinte ao de São Dinis [10 de
novembro], tendo ocorrido diversas fortunas e tendo sido atormentado por febre
maligna, que atacou vários do navio e matou quatro, a saber: Jean Bicherel de
Pont-ç’Evêque, cirurgião do navio; Jean Renoult, soldado de Honfleur; Stenoz
Vennier, de Goneville-sur-Honfleur, valete do capitão; e o índio Namoa.
E foi posto em dúvida se devíamos
batizá-lo, para evitar a perdição de sua alma; mas o dito senhor Nicole dizia
que seria profanar o batismo em vão, já que o dito Namoa não conhecia a crença
de nossa Santa Madre Igreja, como devem saber os que recebem o batismo tendo a
idade da razão; e acreditamos no senhor Nicole, como sendo o mais sábio do
navio. Entretanto, depois ele teve escrúpulos; de modo que, estando doente por
sua vez o jovem índio Essomericq, e em perigo, foi, a seu conselho, batizado; e
administrou-lhe o sacramento o dito senhor Nicole, e foram padrinhos o dito de
Goneville, Capitão, e Antoine Thiéry; e, no lugar da madrinha, tomou-se Andrieu
de la Mare como terceiro padrinho; e recebeu o nome de Binot, que era o nome de
batismo do Capitão: foi no dia quatorze de setembro que isso se fez. E parece
que o dito batismo serviu de remédio à alma do corpo, porque depois dele o
índio melhorou, sarou, e está agora em França.
Dizem que as ditas doenças provinham de
estarem gastas e fedorentas as águas do
navio, e também do ar marítimo, como puderam verificar, já que o ar da terra e
carnes e águas frescas curaram todos os doentes. Razão pela qual, cientes da
causa de seu mal, todos desejavam a terra.
Ora, passado o Trópico de Capricórnio e
medida a altura, achavam estar mais afastados da África do que do país das
Índias Ocidentais onde, desde há alguns anos, homens de Dieppe e de Saint-Malo
assim como outros normandos e bretões vão buscar madeira para tingir de
vermelho, algodão, macacos, papagaios e outras mercadorias: de modo que, como o
vento de leste, que eles tinham notado ser costumeiro entre o dito Trópico e o
de Câncer, para lá os empurrava, foi deliberado por unanimidade que se buscasse
aquele país, sobretudo para carregar as ditas mercadorias e assim compensar as
despesas da viagem.
E ali chegaram no dia seguinte ao de
São Dinis, como se disse acima.
Também dizem que lá encontraram índios
rudes, nus como vindos do ventre da mãe, homens e mulheres; pouco tinham
cobrindo sua natureza; o corpo pintado, sobretudo de negro; lábios furados, os
buracos guarnecidos de pedras verdes bem polidas e encaixadas; cortados em
vários lugares da pele, aos lanhos, para parecerem mais garbosos; sem barba,
cabeça meio raspada. De resto, cruéis comedores de homens; grandes caçadores, pescadores
e nadadores; dormem pendurados em leitos feitos como redes, armam-se com
grandes arcos e clavas de madeira, e não tem nem Rei nem chefes: pelo menos não
viram sinal deles.
Quanto ao mais, habitam um belo país,
de bom ar, terra fértil em frutas, pássaros e animais; e o mar tem muito peixe,
de espécies diferentes das da Europa. E fazem seu pão e sua bebida com certas
raízes.
Dizem ainda que nos lugares do dito
país onde aportaram já tinham estado cristãos, como se via pelas mercadorias da
Cristandade que os ditos índios possuíam: assim, não estavam espantados de ver
o navio; e entretanto temiam sobretudo os canhões e os arcabuzes.
E tendo bravamente descido à terra,
enquanto alguns dos companheiros pegavam água, os outros estavam ali sem armas
e sem temor de nada, foram traiçoeiramente atacados por aqueles índios maus,
que mataram um pajem do navio chamado Henry Jesanne, capturaram e levaram para
o mato Jacques l’Homme, apelidado de La Fortune, soldado, e Colas Mancel,
marinheiro, todos de Honfleur; e foram esses dois coitados perdidos, sem que se
pudesse dar-lhes reconforto.
Além deles estavam ainda em terra
quatro homens, que ganharam a barga e fugiram, todos feridos, menos um; e um
deles morreu assim que subiu ao navio: e este era o senhor Nicole Le Febvre
acima citado que, pela curiosidade de que estava cheio, tinha descido à terra:
e foi por todos pranteado, como merecedor de melhor ventura; pois ele era
virtuoso, afável e sábio.
Também dizem que esse caso lamentável
fez com que deixassem o lugar daquele mau encontro, e subissem a costa até umas
cem léguas acima, onde encontraram índios de aparência semelhante: mas destes
não receberam nenhum mau trato; se eles tivessem maquinado algo, não teriam
conseguido realizar, porque o caso precedente fazia com que não se tivesse mais
confiança.
E ali, durante sua estada, o navio foi
carregado de víveres e de mercadorias do dito país acima declaradas, cuja
quantidade está contida em detalhe na queixa depositada na Justiça contra
aqueles que pilharem o navio: referir-se à mesma. E teriam as ditas mercadorias
compensado os gastos da viagem, e além disso teriam dado bom lucro, se o navio
tivesse chegado a bom porto.
Também dizem que partiram do dito país
entre o dia de São Tomás [21 de dezembro] e o dia de Natal de quinhentos e
quatro, tendo capturado dois índios, que eles pretendiam trazer para a França;
mas já na primeira noite eles mergulharam no mar, estando então o navio a mais
de três léguas da costa; esses malandros são tão bons nadadores que tal trajeto
não os intimida.
Também dizem que, no percurso, nada
viram digno de nota além do que tinham visto na ida, exceto que sete ou oito
dias depois de sair do canal viram uma ilhota desabitada, coberta de florestas
verdejantes, de onde vinham milhares de pássaros, tantos que alguns vieram
pousar nos mastros e cordagens do navio; e aí se deixavam agarrar. E pareciam
os ditos pássaros volumosos com as penas, mas depenados eram de pequena
corpulência.
E depois de cinco semanas, após muitos
bordejamentos, com um vento de sudoeste ultrapassaram a Linha, e reviram a
Estrela do Norte.
Depois tiveram ventos variáveis, e
algumas tormentas. E se acharam um mar cheio de ervas, com grãos redondos como
ervilhacas ou algo semelhante, ligadas por longos filamentos; e o mar é ali tão
profundo que, tendo lançado a sonda, não se achou fundo.
E afinal, acreditando estar apenas na
altura das ilhas Canárias, avistaram os Açores, e ancoraram na ilha do Faial no
dia nove de março passado; e lá arranjaram víveres e outras coisas que
necessitavam. Os ditos Açores são habitados por portugueses.
E no mar foram obrigados por
tempestades a fazer escala na Irlanda, a fim de tapar alguns buracos do navio.
E tendo resposto as velas, navegaram
felizmente até o sétimo dia de maio passado, quando, nas vizinhanças das ilhas
Jersey e Guernesey, quis a infelicidade que encontrassem um corsário inglês,
chamado Edouard Blunth, de Plymouth: contra o qual decidiram, de comum acordo,
defender-se; o que foi feito, até que por detrás das ditas ilhas apareceu um
outro bandido espinhoso, francês de nação, a saber, o Capitão Mouris Fortin,
bretão, já condenado por piratarias. E então, por não estarem em igualdade de
condições, foi preciso ir dar à costa, onde os homens foram em parte salvos, e o
navio despedaçado e perdido com tudo o que nele havia, afora o que os ditos
corsários tiveram tempo de saquear antes que o navio acabasse de afundar.
E houve homens mortos e matados, doze
pessoas, e quatro que morreram depois na ilha, de seus ferimentos, tudo como
consta em pormenor na queixa e reclamação que depositaram em juízo o dito
Capitão de Gonneville e seus companheiros; referir-se à mesma.
E os nomes dos defuntos são: Nollet
Epeudry, piloto, morto por um tiro de canhão; Jean Davy, e Perrot, filho do
dito Jean; Robert Valllasse; Guillaume Du Bois; Guillaume Marie; Antoin Pain;
Cardin Vastine; Jacques Sueur; o irmão do dito Jacques, chamado Henry; Robert
Mahieu; Claude Verrier; Andrieu de Rubigny; o bastardo de Colué; Jean Le
Boucher; e Marc Des Champs: todos de Honfleur e Touques, ou dos arredores.
E na ilha ficaram sabendo os nomes dos
ditos corsários, e os males e piratarias que eles costumam praticar nas
redondezas e alhures,
Também dizem que na ilha, depois que os
feridos melhoraram, passaram ao porto de LA Hougue, onde deixaram três
enfermos, a saber Pierre Toustain, Pierre de la Mare e o senhor de
Saint-Clerimonies.
E os demais vieram por terra até
Honfleur, onde chegaram no dia vinte de maio próximo passado, em número de
vinte e oito, abaixo nomeados, a saber: de Goneville, Capitão; os ditos Thiéry
e De la Mare, burgueses; os dois portugueses; o senhores Potier, Du Mont, De la
Rivière, Du Ham, e De Bois-l-Fort, todos jovens aventureiros de Honfleur; Jean
Cousisn, o mais velho, oitro chamado o Jovem, Claude Mignon, Thomas Bourgeoz,
Alexis l’Amy, Collas Vallée, Guillaume Le Duc, Thomas Varin, Jean Poullain,
Gilles Du Four, Robert Heuzé, Liénard Cudorge, Henry Richard, Jacques Richard e
Jean Bosque, todos do ofício do mar; Liénard Cavalier e Thomas Bloche, pajens.
E mais o índio Essomericq, aliás Binot,
que em Honfleur e por muitos lugares de passagem era muito bem olhado, por não
ter jamais havido em França personagem de tão longínquo país; estando as
pessoas da cidade contentes por verem seus compatriotas retornados de tal e
tamanha viagem, e pesarosos pelos desastres advindos quase no limiar da casa.
Também dizem que para fins de, com a
ajuda de Deus, obter reparação, eles e os burgueses que tinham participação no
navio depositaram suas queixas e artigos na Justiça.
E que a gente do Rei nosso Senhor que
os recebeu teria requisitado, pela raridade da dita viagem, e em razão da
ordens da Marinha estipulando que se depositasse em juízo diários e declarações
de todas as viagens de longo curso que o dito Capitão e o companheiros assim o
fizesse: ei por que, obedecendo à Justiça, o capitão de Goneville e os ditos
Andrieu de la Mare e Antoine Thiéry, que foram os chefes presentes durante toda
a viagem, não podendo, a seu pesar, depositar nenhum de seus diários, já que
estes se perderam com o navio, fizeram a presente declaração; dando fé de tudo
o que foi dito à Justiça e, como tal a depositaram, neste dia dezenove de junho
de mil quinhentos e cinco; e a assinaram.

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