terça-feira, 26 de julho de 2022

26 - A VIAGEM DE GONNEVILLE E ESSOMERICQ (IÇÁ-MIRIM) (1503-1505)

 Volto a publicar aqui, depois de sete anos, trazendo um texto histórico que dificilmente se encontra na íntegra na internet. Narra a incrível aventura de Essomericq (Içá-Mirim), o primeiro índio brasileiro a vir do Brasil para França, onde constituiu família e viveu até os 95 anos. 

Essa história ganhou maior visibilidade em 1992, com o livro Vinte Luas, de Leyla Perrone-Moisés, ganhador do Prêmio Jabuti de 1993 de melhor Ensaio e Biografia.




RELAÇÃO DA VIAGEM

DO CAPITÃO DE GONNEVILLE

ÀS NOVAS TERRAS DAS ÍNDIAS

 

 

Os oficiais do Almirantado da França

Na Sede Geral da Mesa de Mármore do Palácio de Ruão

Fazem saber

Que dos registros do cartório da dita Sede,

Ano de mil quinhentos e cinco,

Foi extraído e colacionado com a minuta original que segue.

 

DECLARAÇÃO DA VIAGEM DO CAPITÃO GONEVILLE

E SEUS COMPANHEIROS ÀS ÍNDIAS

E observações feitas durante a dita viagem apresentada à Justiça

Pelo Capitão e os ditos companheiros,

Conforme requerido pela gente do Rei nosso Senhor

E ordenado lhe foi.

 

 

 

ARMAÇÃO DO NAVIO

 

Primeiramente dizem que, traficando em Lisboa, ele Gonneville e os honrados varões Jean l’Anglois e Pierre le Carpentier, vistas as belas riquezas de especiarias e outras raridades que chegavam àquela cidade por navios portugueses vindos das Índias Orientais, há alguns anos descobertas, combinaram de lá enviar um navio, depois de bem se informarem junto a alguns que tinham feito tal viagem e de contratarem por alto salário dois portugueses que de lá tinham voltado, um chamado Bastião Moura, o outro Diogo Couto, para que, no caminho das Índias, eles os ajudassem com seu saber.

 

E porque os três acima mencionados não tinham bastantes faculdades para realizarem sozinhos tão alta empresa, associaram-se aos honrados varões Etienne e Antoine, conhecidos como os irmãos Thiéry, Andrieu de la Mare, Batiste Bourgeoz, Thomas Atinal e Jean Carrey, burgueses de Honfleur. E os nove, com gastos e despesas comuns, equiparam um navio do porte de cento e vinte toneladas, aproximadamente, chamado L’Espoir, que somente havia servido para fazer uma viagem a Hamburgo, bom de casco e de velas e dos mais bem equipados e aparelhados do porto de Honfleur; e nenhuma economia foi feita pelos burgueses para bem aprovisionar o dito navio, segundo o inventário de mostra, a saber:

 

Como munições de guerra:

Dois canhões fundidos de cobre e latão;

Dois canhonetes de igual fundição;

Seis falconetes e bombardas de ferro fundido de variados calibres;

Quarenta mosquetes, arcabuzes e outras armas de fogo;

Mil e seiscentas libras de bala de diversos calibres para artilharias, não compreendidas aí três dúzias de balas de cavilha e correntes;

Além disso, quatrocentas libras de balas para as citadas armas de fogo e chumbo em barra de lingotes;

Quinhentas libras de ferragens e metralhas para as ditas artilharias; Duas mil libras de pólvora de canhão, um quinto dela granulada;

Trezentas e cinquenta mechas para armas de fogo;

As ditas artilharias montadas em as carretas, e guarnecidas do número e quantidade necessários de soquetes com saca-trapo na ponta, agulhões, escovilhões, placas, vertedouros, palmetas, pinças de mira, e outros bota-fogos, cartuchos de ferro e de madeira, pergaminho de papel grosso para cartuchame, bragas guarnecidas de roldanas, rocegas e outros pertences necessários;

Quarenta lanças, dardos, partazanas e adagas;

 

Além disso, para substituição:

Duas carretas;

Seis rodas de carreta;

Uma dúzia e meia de peças de ferro sobressalentes;

Seis ganchos para cordas;

E quatro dúzias de cavilhas e chavetas

 

E também como munições de navegação, para substituição:

Duas âncoras além das ordinárias, pesando uma quinhentas outra trezentas libras;

Dois cabos suplementares, um de cento e vinte braças, outro de cem;

E dois cabos de massa, também para substituição;

E seiscentas varas de lona de algodão, tanto dupla como simples, pano cru e tratado para troca de velas;

Oito vaquetas para as bombas e vergas dos gurupés;

Uma dúzia de machadinhas, de combate como de trabalho;

E um timão e barra de leme para substituição.

 

E tudo isso verificado verdadeiro pele inventário acima fornecido, mostrando a grande perda que o dito Capitão e companheiros sofreram com a pilhagem e o saque de seu navio, razão pela qual eles se queixam à Justiça; no qual inventário haviam omitido, por inadvertência ou por outra razão qualquer, a menção da quantidade e das espécies de suas munições.

 

Além disso foi o dito navio abastecido de biscoito, grão e farinha para cerca de dois anos, visto o número de pessoas da tripulação;

 

Ervilhas, favas, toicinho, carne de cabra e peixes salgados e secos, sidras e outras bebidas, sem contar a provisão de água, para um ano ou mais;

 

E também foi abastecido de muitos alimentos frescos antes da partida;

 

Também foi aviada a arca do Cirurgião do navio com numerosos medicamentos de primeira necessidade e com os instrumentos e utensílios de sua arte.

 

Quanto às mercadorias, foi o navio carregado de:

Trezentas peças de tecidos diversos;

Machados, enxadas, foices, relhas, segadeiras num total de quatro milheiros;

Dois mil pentes de várias espécies;

Cinquenta dúzias de espelhinhos;

Seis quintais de miçangas de vidro;

E oito de quinquilharias de Ruão;

Vinte grosas de facas e canivetes;

Um fardo de alfinetes e agulhas;

Vinte peças de droguete;

Trinta de fustão;

Quatro de tecido tingido escarlate;

Oito outras de diversas estampas;

Um de veludo com figuras;

Algumas outras douradas;

E moedas de prata que, segundo souberam, valiam na Índia tanto quanto ouro.

 

E tudo igual ao que costumam carregar os portugueses, por serem essas coisas, do lado de lá e no caminho, as de melhor tráfico.

 

Dizem que no navio embaraçaram ao todo sessenta almas; e com o acordo de todos, e especialmente dos burgueses do navio, foi estabelecido capitão e chefe principal aquele de Gonneville, para governar a viagem da melhor forma, com os conselhos de Andrieu de la Mare e Antoine Thiéry, dos ditos burgueses do navio que faziam a viagem.

 

E para o mister do mar ia como piloto Colin Vasseur, de Sain-Arnous-lez-deTouques, bom e velho navegador e mestre; e Nollet Epeudry de Grestaing, co-piloto.

 

E todos, tanto os principais quanto os companheiros, receberam antes de partir os sacramentos, tanto pela fortuna de tão longa viagem quanto pela dúvida de não o receberem por muito tempo, já que não havia capelão no navio e eles iam para fora da Cristandade.

 

E assim partiram do porto de Honfleur, no próprio dia de Monsenhor São João Batista [24 de junho] do ano da graça de mil quinhentos e três.

 

 

VIAGEM DE IDA

 

Diziam também que tendo partido, e sendo o mar aflorado por vento nordeste propício, em dezoito dias mais ou menos chegaram à Ilhas Canárias, que são terras altas, sobretudo a de Tenerife, entre a qual e a de Gomera passaram sem parar, indo daí em direção da Barbaria[1], costeando esse país, que é terra chã e campanha rasa.

 

Da Barbaria foram à demanda das ilhas de Cabo Verde, cheias de montanhas e rochedos, habitadas por portugueses que aí fazem tráfico de cabritos, abundantes nas ditas ilhas.

 

E passando adiante, chegaram à grande terra de Cabo Verde, país de Mouros, os quais trocaram com os navios cuxu[2], uma espécie de arroz, galinhas pretas e outras virtualhas, por ferro, miçangas e outras bugigangas; e foi o navio refrescado, provido de água e limpo das conchas. Para tanto, í permaneceu durante dez dias.

 

Também dizem que tendo retomado o mar, na véspera do dia de São Lourenço [9 de agosto], foi decidido seguir ao longo da costa da África, para evitar os perigos e a pestilência dessa costa. E tinham então vento bastante favorável, que assim continuou por seis semanas; entretanto às vezes elevavam-se turbilhoes em tempo sereno, que atormentavam muito, mas não duravam. E também eram incomodados por chuvas fétidas, que manchavam as roupas; caindo sobre a pele, provocavam borbulhas; e eram frequentes.

 

Dizem também que a linha do Equador foi por eles ultrapassada  no dia doze de setembro; e viram, tanto de um lado como de outro, peixes-voadores em bandos como fariam em França os estorninhos, com asas como as de morcego, e de tamanho próximos ao de arenque branco. Além disso, viam-se peixes-galo, golfinhos e outros peixes, que os marinheiros pescavam para fazer caldeiradas.

 

 

Começou então no navio o mal do mar[3], que afligiu dois terços da população; e disso morreram o Senhor Coste, de Harfleur, que por curiosidade fazia a viagem; Pierre Estieuvre e Louis Le Carpentier, de Honfleur; Cardot Hescamps, artilheiro de Pont-eau-de-mer; Marc Drugeon de Breuil e Philippe Muris, de Touques.

 

E desde então começaram a dirigir-se pelo Cruzeiro do outro Polo.

 

Dizem também que pito dias depois do dia de Todos os Santos [9 de novembro] viram flutuando no mar longos e grossos caniços com suas raízes, que os dois portugueses disseram ser o sinal do Cabo da Boa Esperança, o que lhes deu grande alegria; e porque não viam os pássaros chamados mangas-de-veludo[4], pensavam que o navio estivesse cursando muito abaixo do dito Cabo; e também porque sentiam mais frio.

 

Dizem que então começaram a ter tempo e vento contrários, de modo que, durante três semanas, não avançamos nada.

 

E morreu-lhes Colin Vasseur, seu piloto principal, de apoplexia súbita, o que foi grande perda para a viagem.

 

E foi essa infelicidade seguida de outra, a saber, rudes tormentas, tão veementes que obrigados foram a se deixarem ir, por alguns dias, ao sabor do mar, a abandono [das correntes marítimas]; e perderam a rota; o que muito os afligia, dada a necessidade que tinham de água e de se refrescarem em terra.

 

Dizem que a tormenta foi seguida de alguma calmaria, de modo que eles pouco avançavam. Mas Deus os reconfortou, pois começaram a ver vários pássaros, vindo e voltando para o lado sul, o que os fez pensar que não estavam afastados da terra; razão pela qual, embora ir naquela direção fosse voltar as costas à Índia Oriental, a necessidade os fez virar s velas; e no dia cinco de janeiro descobriram uma grande terra, onde só puderam arribar no crepúsculo do dia seguinte, por causa de um vento de terra contrário; e ancoraram em bom fundo.

 

E já naquele dia alguns tripulantes foram à terra reconhecer; e já na manhã seguinte foi enviada uma barga à costa para encontrar um porto, e voltou à tarde; e conduziu o navio a um rio que ela havia achado, e que é quase como o rio Orne.

 

 

ESTADA NAS NOVAS TERRAS DAS ÍNDIAS

 

Dizem ter permanecido no dito país até o mês de julho seguinte, por estar o navio tão carunchoso e gasto que tinha grande necessidade de limadura; no que foi empregado não pouco tempo, por falta de operários com prática nessas coisas.

 

E aí os companheiros do navio decidiram voltar à França, recusando-se a navegar do dito lugar até à Índia, dizendo que aquele mar ainda não fora navegado por cristãos, que o tempo fora perdido, e também o principal piloto, que era a principal fiança da viagem; e que, ainda mais, o dito navio não poderia aguentar tal percurso. De modo que, por essas e outras razões, que todos endossaram, para desencargo do Capitão, foi decidia a volta à Cristandade.

 

Dizem também que, durante sua permanência na dita terra, conversavam cordialmente com as gentes dali, depois que ela foram cativadas pelos cristãos por meio das festas e pequenos presentes que estes lhe faziam; sendo os tais índios gente simples, que não pediam mais do que levar uma vida alegre sem grandes trabalhos, vivendo da caça e da pesca, e do que a terra lhes dá de per si, e de alguns legumes e raízes que plantam; indo meio nus, os jovens e a maioria dos homens usando mantos, ora de fibras trançadas, ora de couro, ora de plumas, como aqueles que usam em seus países os egípcios e os boêmios, exceto que são mais couros, com uma espécie de avental amarrado sobre as ancas, indo até os joelhos, nos homens, e nas mulheres até o meio das pernas; pois homens e mulheres se vestem da mesma maneira, exceto que a vestimenta da mulher é mais longa.

 

E usam as fêmeas colares e pulseiras de osso e de conchas; não o homem, que usa, em vez disso, arco e flecha tendo por virotão um osso devidamente acerado, e um chuço de madeira muito duro, queimado e afiado no alto; o que constitui toda sua armadura.

 

E vão as mulheres e as meninas com a cabeça coberta, tendo as cabeças gentilmente trançadas com cordéis de ervas tingidas com cores vivas e brilhantes. Quanto aos homens, usam longos cabelos soltos, com um círculo de plumas altas, de cores vivas e bem dispostas.

 

Dizem ainda terem entrado no dito país, aí avançando por dois dias, e ao longo da costa mais tempo, tanto à direita como à esquerda; e terem notado que o país é fértil, provido de muitos animais, pássaros, peixes, árvores, e outras coisas singulares desconhecidas na Cristandade, cujas formas o falecido senhor Nicole Le Febvre de Honfleur, que fazia a viagem como voluntário, curioso e personagem de saber, tinha retratado; o que se perdeu com os diários de bordo por ocasião da piratagem do navio; perda em razão da qual muitas coisas e boas observações são aqui omitidas.

 

Também dizem que o sito país é medianamente povoado.

 

E as habitações dos índios formam aldeias de trinta, quarenta, cinquenta ou oitenta cabanas, feias à maneira de galpões com estacas unidas umas às outras, ligadas por ervas e folhas, com as quais os ditos habitantes são igualmente cobertos; e têm por chaminé um buraco, para fazer sair a fumaça. As portas são bastões corretamente ligados; e eles se fecham com chaves de madeira, quase como as que se usam, nos campos da Normandia, nos estábulos.

 

E seus leitos são esteiras macias cheias de folhas ou penas, suas cobertas são esteiras, peles de animais ou plumagens; e seus utensílios domésticos são de madeira, mesmo as panelas, mas estas são revestidas de uma espécie de argila da espessura de um dedo, o que impede que o fogo as queime.

 

Também dizem ter notado que o dito país está dividido em cantões, cada um com seu Rei; e embora os ditos reis não sejam mais bem alojados e vestidos do que os outros, são muito reverenciados por seus súditos; e nenhum é tão atrevido que ouse desobedecer-lhes já que eles têm poder de vida e de morte sobre seus vassalos. Disso alguns do navio viram um exemplo digno de memória, a saber, o de um rapaz de dezoito a vinte anos que, num momento de exaltação, deu uma bofetada em sua mãe; tendo isso chegado ao conhecimento do chefe, embora a mãe não se tenha queixado, este mandou buscar o rapaz e ordenou que o jogassem no rio, com uma pedra no pescoço, depois de chamar, por aviso público, os jovens da aldeia e das aldeias vizinhas; e ninguém conseguiu obter remissão, nem mesmo a mãe que, de joelhos, veio implorar perdão para seu filho.

 

O dito rei era aquele em cuja terra permaneceu o navio; seu nome era Arosca. Seu país tinha a extensão de um dia, e era povoado por cerca de uma dúzia de aldeias, cada uma das quais tinha o seu capitão em particular, e todos obedeciam ao dito Arosca.

 

O dito Arosca tinha, ao que parece, uns sessenta anos, e era viúvo; tinha seis filhos machos de trinta até quinze anos; e vinham, ele e os filhos, frequentemente ao navio. Homem de postura grave, estatura média, gordinho, de olhar bondoso; em paz com os Reis vizinhos, mas ele e estes guerreavam com outros povos das terras interiores: contra os quais investiu duas vezes, durante a estada do navio levando de quinhentos a seiscentos homens cada vez. E da última vez, seu retorno foi motivo de grande alegria para todo o seu povo, porque ele tinha alcançado grande vitória; suas ditas guerras não eram mais do que excursões de poucos dias contra o inimigo. E ele bem que gostaria que alguns do navio o acompanhassem com suas armas de fogo e artilharia, para atemorizar e desbaratar seus ditos inimigos; mas disso a gente se escusou.

 

Também dizem que não notaram nenhum sinal particular que distinguisse o dito Rei dos outros Reis do dito país, dos quais cinco vieram ver o navio, afora que os ditos Reis usam na cabeça plumagens de uma única cor; e seus vassalos, pelo menos os principais, usam em seus círculos de pena algumas da cor de seu chefe, que era o verde na do dito Arosca, seu hospedeiro.

 

Também dizem que se os cristãos fossem anjos descidos do céu não seriam mais estimados por esses pobres índios, que estavam todos assombrados com a grandeza do navio, com a artilharia, os espelhos e outras coisas que eles aí viam, e sobretudo com o fato de que, por um recado escrito que se enviasse de bordo aos tripulantes que estavam nas aldeias, se lhes fizesse saber o que se queria; eles não conseguiam explicar como o papel podia falar. Também por isso os cristãos eram por ele temidos, e pelo amor de algumas pequenas liberalidades que lhes faziam, pentes, facas, machados, espelhos, miçangas e outras bugigangas, tão amadas que por elas se deixariam esquartejar, e lhes traziam abundância de carne e peixes, frutas e víveres, e tudo o que eles viam ser agradável aos cristãos, como peles, plumagens e raízes para tingir; em troca do que lhe eram dadas quinquilharias e outras coisas de baixo preço: de modo que reuniu-se cerca de cem quintais das ditas mercadorias, que na Franças teriam alcançado bom preço.

 

 Dizem também que, desejando deixar, no dito país, marcas de que ali haviam chegado cristãos, foi feita uma grande cruz de madeira, alta de trinta e cinco pés ou mais, bem pintada; a qual foi plantada num outeiro com vista para o mar, em bela e devota cerimônia, tambor e trombeta soando, em dia bem escolhido, a saber, o dia de Páscoa de mil quinhentos e quatro. E foi a dita cruz carregada pelo Capitão e pelos principais do navio, todos descalços; e ajudavam-nos o dito chefe Arosca e seus filhos e outros índios notáveis, que para tanto foram convidados de honra, e eles se mostravam alegres. Seguia a tripulação armada, cantando a ladainha, e um grande povo de índios de todas as idades, aos quais há muito fazíamos festa, quietos e muito atentos ao mistério.

 

Plantada a dita cruz, foram dados vários tiros de escopeta e artilharia, e oferecidos festim e presentes honestos ao dito chefe Arosca e principais índios; e quanto à populaça, não houve ninguém a quem não se fizesse algum dom de bugigangas baratas, mas por eles prezadas, tudo para que o fato lhes ficasse na memória; dando-lhes a entender, por sinais e de outras formas, o melhor possível, que eles deviam conservar e honrar a dita cruz.

 

E nesta estava gravado, de um lado, o nome do nosso Santo Padre e o Papa de Roma, do Rei nosso Senhor e do Senhor Almirante de França; do Capitão, burgueses e companheiros, do maior até o menor. E fez o marceneiro do navio essa obra, o que lhe valeu o menor. E fez o marceneiro do navio essa obra, o que lhe valeu um presente de cada companheiro. Do outro lado foi gravado um presente de cada companheiro. Do outro lado foi gravado um dístico numeral latino composto pelo senhor Nicole Le Febvre e acima citado, que de gentil maneira declarava a data do ano da chantadura da cruz, e quem a havia chantado; e ali estava:

 

HIC SACRA PALMARIVS POSVIT GONIVILA BINOTVS;

GREX SOCIVS PARITER, NEUSTRAQVE PROGENIES[5]

 

Dizem ainda que estando finalmente o navio limado, calafetado e abastecido o melhor possível para a volta, foi decidido que se partisse para a França.

 

E porque é costume daqueles que chegam às novas terras das Índias levarem delas à Cristandade alguns índios, tanto se fez, com tal gentileza, que o dito chefe Arosca consentiu que um de seus filhos jovens, o qual se dava bem com os do navio, viesse à Cristandade, já que se prometia ao pai e ao filho trazê-lo de volta dentro de vinte luas ao mais tardar; pois assim eles contavam os meses. E o que lhes davam mais vontade: faziam-no crer que, àqueles que viessem do lado de cá, ensinariam a artilharia; o que ele desejava intensamente, para poderem dominar seus inimigos: como também a fazer espelhos, facas, machados e tudo o que viam e admiravam dos cristãos; o que era prometer-lhes tanto como prometer a um cristão ouro, prata e pedrarias, ou ensinar-lhes a pedra filosofal.

 

Tendo acreditado firmemente nessas coisas, o dito Arosca estava contente de que levassem seu filho, que se chamava Essomericq; e deu-lhe por companhia um índio de trinta e cinco ou quarenta anos, chamado Namoa.

 

E vieram, ele e seu povo, em escolta até o navio; fornecendo-lhes muitos víveres, numerosas e belas plumagens e outras rariudades, como presentes que eles enviavam ao Rei nosso Senhor. E o dito chefe Arosca e os seus esperaram a partida do navio, fazendo o Capitão jurar que voltaria dali a vinte luas; e na hora da partida o povo todo soltou um grande grito, e davam a entender que conservariam bem a cruz; fazendo o sinal dela com dois dedos cruzados.

 

 

VIAGEM DE VOLTA

 

Dizem também que assim partiram das ditas Índias Meridionais, no dia três de junho de mil quinhentos e quatro, e desde então não viram terra até o dia seguinte ao de São Dinis [10 de novembro], tendo ocorrido diversas fortunas e tendo sido atormentado por febre maligna, que atacou vários do navio e matou quatro, a saber: Jean Bicherel de Pont-ç’Evêque, cirurgião do navio; Jean Renoult, soldado de Honfleur; Stenoz Vennier, de Goneville-sur-Honfleur, valete do capitão; e o índio Namoa.

 

E foi posto em dúvida se devíamos batizá-lo, para evitar a perdição de sua alma; mas o dito senhor Nicole dizia que seria profanar o batismo em vão, já que o dito Namoa não conhecia a crença de nossa Santa Madre Igreja, como devem saber os que recebem o batismo tendo a idade da razão; e acreditamos no senhor Nicole, como sendo o mais sábio do navio. Entretanto, depois ele teve escrúpulos; de modo que, estando doente por sua vez o jovem índio Essomericq, e em perigo, foi, a seu conselho, batizado; e administrou-lhe o sacramento o dito senhor Nicole, e foram padrinhos o dito de Goneville, Capitão, e Antoine Thiéry; e, no lugar da madrinha, tomou-se Andrieu de la Mare como terceiro padrinho; e recebeu o nome de Binot, que era o nome de batismo do Capitão: foi no dia quatorze de setembro que isso se fez. E parece que o dito batismo serviu de remédio à alma do corpo, porque depois dele o índio melhorou, sarou, e está agora em França.

 

Dizem que as ditas doenças provinham de estarem gastas  e fedorentas as águas do navio, e também do ar marítimo, como puderam verificar, já que o ar da terra e carnes e águas frescas curaram todos os doentes. Razão pela qual, cientes da causa de seu mal, todos desejavam a terra.

 

Ora, passado o Trópico de Capricórnio e medida a altura, achavam estar mais afastados da África do que do país das Índias Ocidentais onde, desde há alguns anos, homens de Dieppe e de Saint-Malo assim como outros normandos e bretões vão buscar madeira para tingir de vermelho, algodão, macacos, papagaios e outras mercadorias: de modo que, como o vento de leste, que eles tinham notado ser costumeiro entre o dito Trópico e o de Câncer, para lá os empurrava, foi deliberado por unanimidade que se buscasse aquele país, sobretudo para carregar as ditas mercadorias e assim compensar as despesas da viagem.

 

E ali chegaram no dia seguinte ao de São Dinis, como se disse acima.

 

Também dizem que lá encontraram índios rudes, nus como vindos do ventre da mãe, homens e mulheres; pouco tinham cobrindo sua natureza; o corpo pintado, sobretudo de negro; lábios furados, os buracos guarnecidos de pedras verdes bem polidas e encaixadas; cortados em vários lugares da pele, aos lanhos, para parecerem mais garbosos; sem barba, cabeça meio raspada. De resto, cruéis comedores de homens; grandes caçadores, pescadores e nadadores; dormem pendurados em leitos feitos como redes, armam-se com grandes arcos e clavas de madeira, e não tem nem Rei nem chefes: pelo menos não viram sinal deles.

 

Quanto ao mais, habitam um belo país, de bom ar, terra fértil em frutas, pássaros e animais; e o mar tem muito peixe, de espécies diferentes das da Europa. E fazem seu pão e sua bebida com certas raízes.

 

Dizem ainda que nos lugares do dito país onde aportaram já tinham estado cristãos, como se via pelas mercadorias da Cristandade que os ditos índios possuíam: assim, não estavam espantados de ver o navio; e entretanto temiam sobretudo os canhões e os arcabuzes.

 

E tendo bravamente descido à terra, enquanto alguns dos companheiros pegavam água, os outros estavam ali sem armas e sem temor de nada, foram traiçoeiramente atacados por aqueles índios maus, que mataram um pajem do navio chamado Henry Jesanne, capturaram e levaram para o mato Jacques l’Homme, apelidado de La Fortune, soldado, e Colas Mancel, marinheiro, todos de Honfleur; e foram esses dois coitados perdidos, sem que se pudesse dar-lhes reconforto.

 

Além deles estavam ainda em terra quatro homens, que ganharam a barga e fugiram, todos feridos, menos um; e um deles morreu assim que subiu ao navio: e este era o senhor Nicole Le Febvre acima citado que, pela curiosidade de que estava cheio, tinha descido à terra: e foi por todos pranteado, como merecedor de melhor ventura; pois ele era virtuoso, afável e sábio.

 

Também dizem que esse caso lamentável fez com que deixassem o lugar daquele mau encontro, e subissem a costa até umas cem léguas acima, onde encontraram índios de aparência semelhante: mas destes não receberam nenhum mau trato; se eles tivessem maquinado algo, não teriam conseguido realizar, porque o caso precedente fazia com que não se tivesse mais confiança.

 

E ali, durante sua estada, o navio foi carregado de víveres e de mercadorias do dito país acima declaradas, cuja quantidade está contida em detalhe na queixa depositada na Justiça contra aqueles que pilharem o navio: referir-se à mesma. E teriam as ditas mercadorias compensado os gastos da viagem, e além disso teriam dado bom lucro, se o navio tivesse chegado a bom porto.

 

Também dizem que partiram do dito país entre o dia de São Tomás [21 de dezembro] e o dia de Natal de quinhentos e quatro, tendo capturado dois índios, que eles pretendiam trazer para a França; mas já na primeira noite eles mergulharam no mar, estando então o navio a mais de três léguas da costa; esses malandros são tão bons nadadores que tal trajeto não os intimida.

 

Também dizem que, no percurso, nada viram digno de nota além do que tinham visto na ida, exceto que sete ou oito dias depois de sair do canal viram uma ilhota desabitada, coberta de florestas verdejantes, de onde vinham milhares de pássaros, tantos que alguns vieram pousar nos mastros e cordagens do navio; e aí se deixavam agarrar. E pareciam os ditos pássaros volumosos com as penas, mas depenados eram de pequena corpulência. 

 

E depois de cinco semanas, após muitos bordejamentos, com um vento de sudoeste ultrapassaram a Linha, e reviram a Estrela do Norte.

 

Depois tiveram ventos variáveis, e algumas tormentas. E se acharam um mar cheio de ervas, com grãos redondos como ervilhacas ou algo semelhante, ligadas por longos filamentos; e o mar é ali tão profundo que, tendo lançado a sonda, não se achou fundo.

 

E afinal, acreditando estar apenas na altura das ilhas Canárias, avistaram os Açores, e ancoraram na ilha do Faial no dia nove de março passado; e lá arranjaram víveres e outras coisas que necessitavam. Os ditos Açores são habitados por portugueses.

 

E no mar foram obrigados por tempestades a fazer escala na Irlanda, a fim de tapar alguns buracos do navio.

 

E tendo resposto as velas, navegaram felizmente até o sétimo dia de maio passado, quando, nas vizinhanças das ilhas Jersey e Guernesey, quis a infelicidade que encontrassem um corsário inglês, chamado Edouard Blunth, de Plymouth: contra o qual decidiram, de comum acordo, defender-se; o que foi feito, até que por detrás das ditas ilhas apareceu um outro bandido espinhoso, francês de nação, a saber, o Capitão Mouris Fortin, bretão, já condenado por piratarias. E então, por não estarem em igualdade de condições, foi preciso ir dar à costa, onde os homens foram em parte salvos, e o navio despedaçado e perdido com tudo o que nele havia, afora o que os ditos corsários tiveram tempo de saquear antes que o navio acabasse de afundar.

 

E houve homens mortos e matados, doze pessoas, e quatro que morreram depois na ilha, de seus ferimentos, tudo como consta em pormenor na queixa e reclamação que depositaram em juízo o dito Capitão de Gonneville e seus companheiros; referir-se à mesma.

 

E os nomes dos defuntos são: Nollet Epeudry, piloto, morto por um tiro de canhão; Jean Davy, e Perrot, filho do dito Jean; Robert Valllasse; Guillaume Du Bois; Guillaume Marie; Antoin Pain; Cardin Vastine; Jacques Sueur; o irmão do dito Jacques, chamado Henry; Robert Mahieu; Claude Verrier; Andrieu de Rubigny; o bastardo de Colué; Jean Le Boucher; e Marc Des Champs: todos de Honfleur e Touques, ou dos arredores.

 

E na ilha ficaram sabendo os nomes dos ditos corsários, e os males e piratarias que eles costumam praticar nas redondezas e alhures,

 

Também dizem que na ilha, depois que os feridos melhoraram, passaram ao porto de LA Hougue, onde deixaram três enfermos, a saber Pierre Toustain, Pierre de la Mare e o senhor de Saint-Clerimonies.

 

E os demais vieram por terra até Honfleur, onde chegaram no dia vinte de maio próximo passado, em número de vinte e oito, abaixo nomeados, a saber: de Goneville, Capitão; os ditos Thiéry e De la Mare, burgueses; os dois portugueses; o senhores Potier, Du Mont, De la Rivière, Du Ham, e De Bois-l-Fort, todos jovens aventureiros de Honfleur; Jean Cousisn, o mais velho, oitro chamado o Jovem, Claude Mignon, Thomas Bourgeoz, Alexis l’Amy, Collas Vallée, Guillaume Le Duc, Thomas Varin, Jean Poullain, Gilles Du Four, Robert Heuzé, Liénard Cudorge, Henry Richard, Jacques Richard e Jean Bosque, todos do ofício do mar; Liénard Cavalier e Thomas Bloche, pajens.

 

E mais o índio Essomericq, aliás Binot, que em Honfleur e por muitos lugares de passagem era muito bem olhado, por não ter jamais havido em França personagem de tão longínquo país; estando as pessoas da cidade contentes por verem seus compatriotas retornados de tal e tamanha viagem, e pesarosos pelos desastres advindos quase no limiar da casa.

 

Também dizem que para fins de, com a ajuda de Deus, obter reparação, eles e os burgueses que tinham participação no navio depositaram suas queixas e artigos na Justiça.

 

E que a gente do Rei nosso Senhor que os recebeu teria requisitado, pela raridade da dita viagem, e em razão da ordens da Marinha estipulando que se depositasse em juízo diários e declarações de todas as viagens de longo curso que o dito Capitão e o companheiros assim o fizesse: ei por que, obedecendo à Justiça, o capitão de Goneville e os ditos Andrieu de la Mare e Antoine Thiéry, que foram os chefes presentes durante toda a viagem, não podendo, a seu pesar, depositar nenhum de seus diários, já que estes se perderam com o navio, fizeram a presente declaração; dando fé de tudo o que foi dito à Justiça e, como tal a depositaram, neste dia dezenove de junho de mil quinhentos e cinco; e a assinaram.

 

 

 

 

 



[1] Nome antigo dos países da África do Norte.

[2] Couchu: forma antiga da palavra cuscuz.

[3] Escorbuto.

[4] Atobá. Plumagens brancas com remígios de um negro aveludado.

[5] Aqui Binot Palmier de Goneville plantou este objeto sagrado, associando em paridade a tribo com a linhagem normanda.

domingo, 17 de julho de 2022

25 - POPULISMO DE DIREITA NO BRASIL / RIGHT-WING POPULISM IN BRAZIL

 



Nos últimos sessenta anos, a direita chegou ao poder pela via eleitoral em apenas três oportunidades, todas elas com candidatos que se diziam outsiders e possuíam uma base eleitoral conservadora e uma agenda econômica liberal:

  

1. Jânio Quadros (UDN-PTN-PDC-PR-PL), na campanha de 1960, prometeu que varreria a corrupção e a inflação. Governou por meio de bilhetinhos, demonstrando seu desprezo pela burocracia. Não durou sete meses, renunciando em agosto de 1961 e desencadeando uma das maiores crises institucionais da República, que culminaria com o golpe de 1964 e 24 anos de ditadura militar.

  

2. Collor (PRN), na campanha de 1989, apresentou-se como o “caçador de marajás”, também prometendo o combate à corrupção, à inflação e a realização de privatizações. Governou por apenas dois anos e meio, renunciando em dezembro de 1992.

 

3. Bolsonaro (PSL), na campanha de 2018, surgiu com um discurso antipolítica e antipolíticos, na esteira das investigações e condenações da Operação Lava Jato. Mantem-se o mesmo discurso de combate à corrupção. Como a inflação já não fosse um problema, prometeu-se, mais uma vez, a diminuição do Estado, com privatizações. Elegeu-se e agiu conforme disse que agiria: um agente da destruição das políticas públicas de educação, meio-ambiente, direitos-humanos e saúde, entre outras; tensionamento da harmonia entre os três poderes da União, Legislativo, Executivo e Judiciário. Promoveu pelo menos uma tentativa séria de rompimento da institucionalidade democrática, em sete de setembro de 2021, quando, após dois discursos golpista, um em Brasília, outro em São Paulo, de algum modo foi lembrado da sua insignificância, se acovardando, se recolhendo, por fim, assinou uma carta escrita pelo ex-presidente Michel Temer, colocando-se como refém do Centrão, mas, diferentemente dos outros dois modelos apresentados acima, garantiu-se até o término de seu mandato - pelo menos até o dia em que hoje escrevo, afinal, há outras formas de sair da vida e entrar para a história do Brasil que não sejam a renúncia e os golpes bem sucedidos, como comprovam o malogrado atentado contra Prudente de Morais e o suicídio de Vargas. Aguardo as cenas finais dessa história.

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In the last sixty years, the right has come to power by electoral means on only three occasions, all of them with candidates who called themselves outsiders and had a conservative electoral base and a liberal economic agenda:


1. Jânio Quadros, in the 1960 campaign, promised that he would sweep away corruption and inflation. He ruled by means of little notes, demonstrating his contempt for bureaucracy. He did not last seven months, resigning in August 1961 and triggering one of the Republic's greatest institutional crises, which would culminate in the 1964 coup and 24 years of military dictatorship.

 

2. Collor, in the 1989 campaign, presented himself as the “marajás hunter”, also promising to fight corruption, inflation and pursuing the ideal of the minimal State. He ruled for just two and a half years, resigning in December 1992.

 

3. Bolsonaro, in the 2018 campaign, came up with an anti-political discourse, in the wake of the investigations and convictions of Operation Lava Jato. The same discourse on combating corruption remains. As inflation was no longer a problem, it was promised, once again, the reduction of the State, with privatizations. He was elected and acted as he said he would: an agenda for the destruction of public policies in education, the environment, human rights and health, among others; tensioning the harmony between the three powers of the Union, Legislative, Executive and Judiciary. He promoted at least one serious attempt to break democratic institutions, on September 7, 2021, when, after two coup speeches, one in Brasília, the other in São Paulo, he was somehow reminded of his insignificance, cowering and withdrawing. Finally, he signed a letter written by former president Michel Temer, placing himself as a hostage to the Centrão, but, unlike the other two models presented above, he guaranteed himself until the end of his term - at least until the day when today I write, after all, there are other ways to get out of life and enter the history of Brazil other than the resignation and the successful coups , as evidenced by the unsuccessful attack against Prudente de Morais and the suicide of Vargas. For now, I await the final scenes.