Quando eu estava na sexta série, acordava às seis da manhã,
enrolava uns cinco minutinhos deitado, e, de uma vez, jogava as cobertas de
lado, levantava com os pés no chão frio - embora minha mãe sempre colocasse os
chinelos ali na beiradinha pra eu usá-los ,- arrumava a cama e vestia o
uniforme da escola na maior escuridão e silêncio possíveis – meu irmão ainda
dormia. Do quarto eu ia pra cozinha, ligava a televisão em preto e branco pra
ver as aulas do Telecurso 2000,
e enchia um copo de leite puro, que eu bebia de um só fôlego, pra não sentir o
gosto, o qual eu fazia questão de anular qualquer resquício indo direto pro
banheiro escovar os dentes. Em seguida eu enfiava a cabeça debaixo da torneira,
enxugava os cabelos, e punha-me a penteá-los numa arte demorada
que só finalizava com a montagem do topete com gel. Com a camisa um pouco
molhada e achando que o topete ficara ou grande ou pequeno demais, eu ia pra
sala e me sentava no sofá para calçar o tênis.
Numa certa manhã chuvosa de março, a aula que passava na TV era
sobre MPB. Dois jovens atores, numa fala mansa, tentavam explicar em quinze
minutos sobre a bossa nova. Após breves comentários sobre a batida de João
Gilberto, um deles pegou o violão e começou a cantar “Quando eu vou
cantar, você não deixa / E sempre vem a mesma queixa...”. Aquela música era
estranha. Nunca ouvira aquilo. Meus ouvidos estavam acostumados apenas às
músicas da rádio e ao som sertanejo que meu pai colocava em fita cassete no carro.
No entanto, nesta época, eu também já ouvia algumas músicas sinfônicas de Bach,
Beethoven, Mozart, Chopin e Tchaikovsky – eram os cinco CDs que eu tinha na
minha estante. Mas aquela música era brasileira, era a música mais estranha e
bonita que eu já conhecera. Naquele dia, ladeado pelo meu irmão, eu fui pra
escola muito mais feliz do que costumava ir, assobiando a melodia enquanto eu
caminhava.
Os próximos dez anos eu passaria escutando e pesquisando a música
europeia dos séculos XVII ao XIX, que muito me agradava, encantava e
surpreendia. Evidentemente acabei tendo contato com os grandes mestres
brasileiros da música orquestral como Villa-Lobos, Guerra-Peixe, Camargo
Guarnieri, Claudio Santoro e Francisco Mignone. Acontece que estes eram artistas
da primeira metade do século XX, criadores de um som um tanto moderno,
experimental, confuso para os meus ouvidos clássicos e ao mesmo tempo infantis. Confesso que eu não os
admirava; não os admirava porque eu não conseguia entendê-los, assim como não
entendia os compositores europeus do século XX como Mahler e Stravinsky, que me
causavam desagradáveis arrepios.
Morando já em Brasília, e com muitas terças-feiras de
comparecimento aos concertos gratuitos do Teatro Nacional, eu vivia tempos
pós-universitários, amargando o desemprego, a falta de grana e os estudos
sofríveis para concurso público. No cursinho acabei conhecendo uma moça de uns
20 anos, linda!, que tocava flauta com muita elegância. Estudávamos juntos na
biblioteca após a manhã de aulas. Ela era bem inteligente e prática, o que lhe
facilitava aprender rápido a matéria e acertar um grande número de exercícios.
Eu tentava acompanhá-la e era bom em explicar aquilo que ela não tinha
entendido muito bem – ou fingia não ter entendido. Enfim, logo estávamos indo
além dos estudos e, quando o estresse e a pressão da aprovação se tornavam
insuportáveis, permitíamo-nos ir ao cinema, a algum barzinho e aos concertos
juntos. Primeiro íamos com outros colegas, mas logo concluímos que éramos mais
felizes só nós dois. Algumas semanas assim renderam o primeiro entrelaçamento
de dedos, abraços de despedida mais demorados, sorrisos de reencontro mais
alegres, um primeiro beijo.
Eu queria aquela mulher pra mim. O dia dos namorados estava
chegando e planejei pedi-la em compromisso naquele dia. Além das flores
vermelhas, que são de lei, ainda tinha o presente, pra convencê-la da minha
intenção no longo prazo. Reuni todas as minhas moedinhas, deixei de viajar
naquele mês em visita a meus pais, e comprei um DVD do qual ela me falava há
muito tempo, ao qual juntei também uma caixa de chocolates Kopenhagen. Pronto, agora eu
estava seguro que a surpresa seria boa e ela não poderia me dizer não.
Era 12 de junho de 200..., segunda-feira, e ela não apareceu no
cursinho. Nem no dia seguinte. Nem na semana seguinte. Dez dias depois ela
retorna às aulas com um anel na mão direita. Um tanto sem graça, chorando, ela
me explica que um amigo dos tempos de conservatório lhe reaparecera com uma
canção composta para ela, convidando-a para acompanhá-lo no fim de semana no
Festival de Inverno de Campos do Jordão, onde a música concorria a uma
premiação. Ela diz ter pensado muito na proposta, mas acabou indo. A música não
foi bem classificada, mas ele ficou com meu prêmio. Nunca mais estudamos
juntos; joguei fora o resto das flores, que eu ainda guardava; comi todos os
chocolates em menos de uma hora e arremessei o DVD no fundo de uma gaveta. Só
me restava estudar.
E estudei! Foram quatro meses intensos até a realização do
Concurso do Tribunal Regional Federal. Não passei. Larguei o cursinho – ela já
nem mais estava lá, porque fora aprovada em outro concurso meses antes. Passei
alguns dias no escuro, comendo sorvete, assistindo a várias temporadas desses
seriados americanos. Quando decidi retornar à velha rotina, diante de nova
motivação pelo lançamento de um edital com excelente salário, tirei uma tarde
pra arrumar meus papéis e livros e apostilas. Em meio àquela bagunça encontrei
o DVD que me custara as economias do primeiro semestre. Eu não ia jogá-lo fora.
O sentimento que me arrasara e causava repulsa a tudo o que me lembrava ela já
havia passado da sua fase mais crítica, de modo que me foi possível tirar sem
raiva o plástico da capa do DVD e colocar para assisti-lo.
Uma tia minha diz que um amor antigo só se cura com um novo amor.
Disso concluí que eu nunca fora o amor daquela que eu parecia ter amado;
descobri também que o novo amor não necessariamente precisa ser outra pessoa.
Eu estava então novamente apaixonado, e o objeto da devoção da minha alma era a
Música. Jobim Sinfônico era o DVD que eu comprara para ser a
trilha sonora daquele dia dos namorados. Não foi. Tornou-se a trilha sonora da
minha vida. Tom Jobim tornou-se o meu maestro soberano.
Eu deveria ter voltado a estudar com a determinação e disciplina de sempre no dia seguinte, mas não consegui. Fui para a biblioteca da universidade, sentei e comecei a ler as páginas de Direito Constitucional, Administrativo e Tributário, mas logo Lígia me entrava pelo ouvidos. Luiza, Teresa e Ângela também, sem falar nos passarinhos e correntezas de rios que me arrastavam para bem longe do rigor dos concursos. Durante semanas travei uma luta de concentração entre a Arte e a Ciência, a Música e o Direito. Venceu a beleza das melodias. Passei a ir para a biblioteca não para estudar para concurso, mas para ler tudo o que eu podia sobrea música do Tom. Mas esta disciplina é tão vasta quanto qualquer direito, pois na fonte de Jobim bebeu a maioria dos músicos brasileiros que lhe sucederam. Se Tom Jobim fosse grande apenas na música, já lhe seríamos todos imensamente gratos. Mas como todos os homens que são grandes em sua arte, Jobim também foi grande em sua vida. E foi em entender a sua humanidade que eu pude entender a sua música, a ponto de não achá-la apenas a mais bonita música brasileira; a música de Tom Jobim é a mais bonita música da Natureza.
Eu deveria ter voltado a estudar com a determinação e disciplina de sempre no dia seguinte, mas não consegui. Fui para a biblioteca da universidade, sentei e comecei a ler as páginas de Direito Constitucional, Administrativo e Tributário, mas logo Lígia me entrava pelo ouvidos. Luiza, Teresa e Ângela também, sem falar nos passarinhos e correntezas de rios que me arrastavam para bem longe do rigor dos concursos. Durante semanas travei uma luta de concentração entre a Arte e a Ciência, a Música e o Direito. Venceu a beleza das melodias. Passei a ir para a biblioteca não para estudar para concurso, mas para ler tudo o que eu podia sobrea música do Tom. Mas esta disciplina é tão vasta quanto qualquer direito, pois na fonte de Jobim bebeu a maioria dos músicos brasileiros que lhe sucederam. Se Tom Jobim fosse grande apenas na música, já lhe seríamos todos imensamente gratos. Mas como todos os homens que são grandes em sua arte, Jobim também foi grande em sua vida. E foi em entender a sua humanidade que eu pude entender a sua música, a ponto de não achá-la apenas a mais bonita música brasileira; a música de Tom Jobim é a mais bonita música da Natureza.







