domingo, 18 de janeiro de 2015

18 - A RAINHA DA NOITE



Passávamos os finais de semana perto do Rio Paranaíba, no Triângulo Mineiro. No pé da serra da Bocaina, a televisão em preto e branco funcionava com chuvisco, de modo que ela quase nunca era ligada. A mulher do Seu Geraldo, nosso peão de roça, sempre tinha música tocando no rádio. Eu preferia o canto dos pássaros, muitas vezes alvos dos estilingues dos moleques da fazenda. Naquelas caçadas com armadilhas feitas de bambu e arame, eu acompanhava os meninos não para ajudá-los, mas para desconcentrá-los na mira e, sorrateiramente, dar alguns passos atrás e desarmar as arapucas.

Eu amava a natureza e, criança, nunca senti falta de vídeo game, shopping centers e clubes. Não tinha predileção por nenhuma marca, nem desejo por viagens ao estrangeiro. Tudo o que eu precisava já estava ali naquele chão de barro vermelho, naquele ar com cheiro de mato, naquele céu infinito que fazia a minha alegria sem preço. E fui me descolando da cultura pop dos anos 1990, o que, em certo sentido, comprometeu o meu relacionamento com as garotas da adolescência. Mas esta pequena dificuldade, que adiou alguns prazeres, foi em muito compensada pelo prazer imediato que eu tinha em passear por aqueles campos gerais e pelas matas altas e úmidas.

Nessas idas à fazenda, meu pai saía a cavalo para inspecionar as cercas velhas da propriedade, porque algumas delas cediam a algum boi vizinho em busca das delícias da carne que estavam do nosso lado. Para chegar naqueles limites, era preciso atravessar extensa capoeira de feições atlânticas, a despeito do cerrado em redor. Acompanhava meu pai nessas expedições, mas eu insistia em ir a pé, por gostar de recolher umas pedras pra minha coleção de basaltos e cristais. No caminho, um rastro fundo e estreito cavado pelos cascos da criação, costumava fazer as mesmas perguntas sobre o nome das coisas, o que quase sempre não rendia resposta alguma. Às vezes meu pai dizia: basta olhar pras folhas; as miudinhas são de vinhático, as mais largas de jatobá; aquela ali é uma paineira e aquela outra, mais em baixo, uma aroeira.

No passeio seguinte eu perguntaria tudo de novo, porque a borda das folhas não era bem definida pela minha visão de Miguilim. Eu tentava identificar pela sua cor e forma geral aquelas plantas majestosas e, dependuradas em longos galhos e nos cipós enroscados, as pequenas flores. Foi com esse exercício que fui me tornando artista e não cientista: pelo sentimento da natureza e não pelo seu entendimento, já que meus olhos não eram tão apurados como devem ser os instrumentos da ciência. O sentir, passado certo tempo, leva ao compreender, mas isso eu só saberia depois.

Assim como meu pai me revelava o nome das plantas, das aves, dos peixes e de outros animaizinhos da selva da minha infância, Seu Geraldo me dizia das luzes da escuridão. Enquanto minha mãe fazia a janta no fogão de lenha, eu, meu irmão, e os muitos filhos e filhas do peão e de quem mais costumava aparecer por ali, gostávamos de brincar de pique esconde e pique pega, mas houve um dia em que decidimos não pegar uns aos outros, mas vagalumes. Eram muitos! Participei daquela agitação porque no final ninguém gostaria de comer aqueles bichinhos, cuja graça está em mantê-los vivos piscando verde, e não esmagados entre os dedos. Quem mais apanhasse os pontinhos fosforescentes que voavam baixo na grama molhada,  seria o vencedor da brincadeira, o dono da noite.

Passados vinte minutos, reuniram-se todos em círculo no meio do pátio entre o curral e o jardim. Stela, cândida menininha de uns nove anos, abriu lentamente suas delicadas mãos: saíram voando, sem pressa, em longas voltas desconfiadas, uns cento e sessenta vagalumes, ou mais. Eu, que só tinha apanhado seis, achei aquilo fantástico. Mais admirável era ver os insetos que iam subindo, subindo, subindo, uns acesos, outros se acendendo, tornando-se antigas estrelas. Os demais caçadores de luz, sem se importar com a competição em curso, abriram suas conchinhas feitas de dedos, acrescentando àquele balé mais integrantes que se transformariam em sóis milenares. Minha mãe já havia nos chamado para comer, mas não houve quem quisesse sair dali, apesar da fome. Era a vez em que inaugurávamos nosso olhar para o céu com a curiosidade da inocência, a curiosidade da ciência.



Seu Geraldo, que nos vigiava no meio do breu iluminado apenas por uma lâmpada amarela dependurada fora da casa, aproximou-se de nós, ainda de chapéu. Percebendo nosso maravilhamento, com o fumo enrolado na palha de milho queimando entre os dedos, apontou para o alto: aquele é o Cruzeiro do Sul; são oito e meia. Ninguém acreditou e todos se espantaram e riram, mas alguém correu pra dentro da sala para conferir o relógio e voltou dizendo é mesmo, são oito e meia! O peão da fazenda foi o primeiro astrônomo de quem tive notícia; tornou-se nosso guia sobre as esferas da noite e da manhã. Mesmo com a miopia, que me dificultava enxergar a estrela intrometida do Cruzeiro, deixei de colecionar pedras e passei a colecionar constelações. A algumas dei nomes que eu mesmo inventara; a mais brilhante delas chamei Stela, a Rainha da Noite, meu mais calmo amor ideal.

domingo, 7 de dezembro de 2014

17 - OS DESAFINADOS TAMBÉM TÊM UM CORAÇÃO



Quando eu estava na sexta série, acordava às seis da manhã, enrolava uns cinco minutinhos deitado, e, de uma vez, jogava as cobertas de lado, levantava com os pés no chão frio - embora minha mãe sempre colocasse os chinelos ali na beiradinha pra eu usá-los ,- arrumava a cama e vestia o uniforme da escola na maior escuridão e silêncio possíveis – meu irmão ainda dormia. Do quarto eu ia pra cozinha, ligava a televisão em preto e branco pra ver as aulas do Telecurso 2000, e enchia um copo de leite puro, que eu bebia de um só fôlego, pra não sentir o gosto, o qual eu fazia questão de anular qualquer resquício indo direto pro banheiro escovar os dentes. Em seguida eu enfiava a cabeça debaixo da torneira, enxugava os cabelos, e punha-me a penteá-los numa arte demorada que só finalizava com a montagem do topete com gel. Com a camisa um pouco molhada e achando que o topete ficara ou grande ou pequeno demais, eu ia pra sala e me sentava no sofá para calçar o tênis.

Numa certa manhã chuvosa de março, a aula que passava na TV era sobre MPB. Dois jovens atores, numa fala mansa, tentavam explicar em quinze minutos sobre a bossa nova. Após breves comentários sobre a batida de João Gilberto, um deles pegou o violão e começou a cantar “Quando eu vou cantar, você não deixa / E sempre vem a mesma queixa...”. Aquela música era estranha. Nunca ouvira aquilo. Meus ouvidos estavam acostumados apenas às músicas da rádio e ao som sertanejo que meu pai colocava em fita cassete no carro. No entanto, nesta época, eu também já ouvia algumas músicas sinfônicas de Bach, Beethoven, Mozart, Chopin e Tchaikovsky – eram os cinco CDs que eu tinha na minha estante. Mas aquela música era brasileira, era a música mais estranha e bonita que eu já conhecera. Naquele dia, ladeado pelo meu irmão, eu fui pra escola muito mais feliz do que costumava ir, assobiando a melodia enquanto eu caminhava.

Os próximos dez anos eu passaria escutando e pesquisando a música europeia dos séculos XVII ao XIX, que muito me agradava, encantava e surpreendia. Evidentemente acabei tendo contato com os grandes mestres brasileiros da música orquestral como Villa-Lobos, Guerra-Peixe, Camargo Guarnieri, Claudio Santoro e Francisco Mignone. Acontece que estes eram artistas da primeira metade do século XX, criadores de um som um tanto moderno, experimental, confuso para os meus ouvidos clássicos e ao mesmo tempo infantis. Confesso que eu não os admirava; não os admirava porque eu não conseguia entendê-los, assim como não entendia os compositores europeus do século XX como Mahler e Stravinsky, que me causavam desagradáveis arrepios.

Morando já em Brasília, e com muitas terças-feiras de comparecimento aos concertos gratuitos do Teatro Nacional, eu vivia tempos pós-universitários, amargando o desemprego, a falta de grana e os estudos sofríveis para concurso público. No cursinho acabei conhecendo uma moça de uns 20 anos, linda!, que tocava flauta com muita elegância. Estudávamos juntos na biblioteca após a manhã de aulas. Ela era bem inteligente e prática, o que lhe facilitava aprender rápido a matéria e acertar um grande número de exercícios. Eu tentava acompanhá-la e era bom em explicar aquilo que ela não tinha entendido muito bem – ou fingia não ter entendido. Enfim, logo estávamos indo além dos estudos e, quando o estresse e a pressão da aprovação se tornavam insuportáveis, permitíamo-nos ir ao cinema, a algum barzinho e aos concertos juntos. Primeiro íamos com outros colegas, mas logo concluímos que éramos mais felizes só nós dois. Algumas semanas assim renderam o primeiro entrelaçamento de dedos, abraços de despedida mais demorados, sorrisos de reencontro mais alegres, um primeiro beijo.

Eu queria aquela mulher pra mim. O dia dos namorados estava chegando e planejei pedi-la em compromisso naquele dia. Além das flores vermelhas, que são de lei, ainda tinha o presente, pra convencê-la da minha intenção no longo prazo. Reuni todas as minhas moedinhas, deixei de viajar naquele mês em visita a meus pais, e comprei um DVD do qual ela me falava há muito tempo, ao qual juntei também uma caixa de chocolates Kopenhagen. Pronto, agora eu estava seguro que a surpresa seria boa e ela não poderia me dizer não.

Era 12 de junho de 200..., segunda-feira, e ela não apareceu no cursinho. Nem no dia seguinte. Nem na semana seguinte. Dez dias depois ela retorna às aulas com um anel na mão direita. Um tanto sem graça, chorando, ela me explica que um amigo dos tempos de conservatório lhe reaparecera com uma canção composta para ela, convidando-a para acompanhá-lo no fim de semana no Festival de Inverno de Campos do Jordão, onde a música concorria a uma premiação. Ela diz ter pensado muito na proposta, mas acabou indo. A música não foi bem classificada, mas ele ficou com meu prêmio. Nunca mais estudamos juntos; joguei fora o resto das flores, que eu ainda guardava; comi todos os chocolates em menos de uma hora e arremessei o DVD no fundo de uma gaveta. Só me restava estudar.

E estudei! Foram quatro meses intensos até a realização do Concurso do Tribunal Regional Federal. Não passei. Larguei o cursinho – ela já nem mais estava lá, porque fora aprovada em outro concurso meses antes. Passei alguns dias no escuro, comendo sorvete, assistindo a várias temporadas desses seriados americanos. Quando decidi retornar à velha rotina, diante de nova motivação pelo lançamento de um edital com excelente salário, tirei uma tarde pra arrumar meus papéis e livros e apostilas. Em meio àquela bagunça encontrei o DVD que me custara as economias do primeiro semestre. Eu não ia jogá-lo fora. O sentimento que me arrasara e causava repulsa a tudo o que me lembrava ela já havia passado da sua fase mais crítica, de modo que me foi possível tirar sem raiva o plástico da capa do DVD e colocar para assisti-lo.


Uma tia minha diz que um amor antigo só se cura com um novo amor. Disso concluí que eu nunca fora o amor daquela que eu parecia ter amado; descobri também que o novo amor não necessariamente precisa ser outra pessoa. Eu estava então novamente apaixonado, e o objeto da devoção da minha alma era a Música. Jobim Sinfônico era o DVD que eu comprara para ser a trilha sonora daquele dia dos namorados. Não foi. Tornou-se a trilha sonora da minha vida. Tom Jobim tornou-se o meu maestro soberano. 

Eu deveria ter voltado a estudar com a determinação e disciplina de sempre no dia seguinte, mas não consegui. Fui para a biblioteca da universidade, sentei e comecei a ler as páginas de Direito Constitucional, Administrativo e Tributário, mas logo Lígia me entrava pelo ouvidos. Luiza, Teresa e Ângela também, sem falar nos passarinhos e correntezas de rios que me arrastavam para bem longe do rigor dos concursos. Durante semanas travei uma luta de concentração entre a Arte e a Ciência, a Música e o Direito. Venceu a beleza das melodias. Passei a ir para a biblioteca não para estudar para concurso, mas para ler tudo o que eu podia sobrea música do Tom. Mas esta disciplina é tão vasta quanto qualquer direito, pois na fonte de Jobim bebeu a maioria dos músicos brasileiros que lhe sucederam. Se Tom Jobim fosse grande apenas na música, já lhe seríamos todos imensamente gratos. Mas como todos os homens que são grandes em sua arte, Jobim também foi grande em sua vida. E foi em entender a sua humanidade que eu pude entender a sua música, a ponto de não achá-la apenas a mais bonita música brasileira; a música de Tom Jobim é a mais bonita música da Natureza.


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

16 - GAMELEIRA


Aquelas terras cultivadas durante décadas não passavam, no meu tempo de criança, de uma talhão abandonado coberto de lobeiras, gabirobas e uma braquiária pisoteada por poucas cabeças de um gado magro e mestiço. Nas primeiras vezes em que estive ali eu não pude notar nada disso: era sempre noite, logo depois de assistirmos à missa. Saindo da cidade, meu pai seguia numa estrada poeirenta e reta cercada de extensa plantação de café; continuava o caminho descendo numa parte de cascalho, atravessava lento por um curso de água bom de ouvir; seguia subindo num declive suave, em curva à esquerda e depois à direita, o trecho final onde dos dois lados erguiam-se centenárias palmeiras. Margeava a estrada uma cerca velha de arame farpado enegrecido e retorcido, preso a ainda firmes postes de aroeira por pregos novos que brilhavam quando iluminados pelo farol do carro.

Nada disso eu via. Era escuro e, assim como meu irmão, já dormia desde a hora da leitura do Evangelho. Mas quando meu pai desligava a camionete, abria a porta e pegava as pastas com os documentos e dinheiro, a luz do interior do veículo se acendia e eu acordava. Somente ele saía corajoso pra desaparecer daí a poucos metros em meio ao mato fechado que consumia verdejante a nossa história decadente. Antes de a porta bater forte, eu sempre escutava a advertência nervosa de minha mãe: não bebe nem come nada! É que ela tinha convicção de que a avó da mulher do peão era uma velha feiticeira que queria encantar meu pai e tomar-lhes aquele esquecido pedaço de chão. Meu pai não levava aquilo a sério e dava suas recomendações sobre o trabalho na roça tomando um cafezinho quente e comendo broa de milho que lhe era hospitaleiramente oferecido, sem nunca qualquer desses alimentos produzir efeito fantástico que não fosse esquentar o peito e matar a fome. 

Aquela história de bruxaria me impressionava, mas mais me intimidavam os braços musculosos da gigantesca figueira sob a qual estacionávamos quase todo domingo. Caóticos em assustadores contorcidos. Diziam que aquela árvore costumava agarrar com seus galhos os curiosos que por baixo dela passavam com a intenção de roubar jabuticabas, mangas e laranjas – e essa era a melhor justificativa para eu não poder sair do carro. Mas a verdade é que aquela era uma boa árvore. Em suas extremidades mais altas e delicadas se acomodavam, eu descobriria mais tarde, ninhos de passarinhos e o sono tranquilo das galinhas. À sombra das suas folhas miúdas havia um curral desmantelado chamado “dos bezerros”; pequeno e com as tábuas grossas e remendadas; dobradiças e parafusos enferrujados; as porteiras indo ao chão, cansadas de apartar mães e filhos; àquelas horas estava sempre vazio, porque eu imaginava que nenhum animal gostaria de passar sozinho as noites naquele lugar de medo, sombra e frio. 

Como meu pai costumava demorar nos seus negócios, eu logo me cansava de esperar sentado e me deitava no banco. Minha mãe cochilava com meu irmão em seu colo. Antes que o cansaço me tomasse novamente, sob aquele ângulo que só as crianças conseguem obter em sua flexibilidade, eu me admirava do surgir e extinguir de estrelas entre as palmas esparsas das gabirobas se agitando ao vento; vento que parecia nunca deixar de ventar. Mas era o eterno e ensurdecedor coaxar dos sapos o verdadeiro leitmotiv de todas as noites. Eu imaginava aqueles anfíbios cheios de rugas como seres imensos mergulhados em poças de lama jogando truco com cobras e vaga-lumes.

Todos aqueles sons, 
à medida que eu ia adormecendo, eram filtrados pelas rede de gravetos da gameleira e começavam a se misturar na minha imaginação de menino; sonhos que seriam interrompidos quando meu pai retornava com cheiro de capim e esterco e as botas quase totalmente cobertas de barro; as calças apinhadas de sementes, carrapichos e infinitos carrapatos. Então eu tinha a certeza de que era mesmo bom ter rezado na igreja, o mínimo que fosse, antes de pararmos naquele cerrado assombrado. 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

15 - JÁ É TARDE, AMOR



Não acertei meu passo ao seu lado.
É hora de não mais dizer até logo -
nada haverá depois do fim.
Deixo o paço que te construí,
seu conforto tão insistentemente reclamado,
mas não me conformo de você não mais ser minha
e eu de você – pra sempre -,
embora o id me peça pra te esquecer.
Volto a perseguir meu destino de antes :
é de dores e dúvidas o meu caminho ;
na minha estrada se anda sozinho.

Como te amo ! Sempre te quis !
e ainda te desejo de saia jeans e douradas tranças,
o sorriso no rosto e o andar de como quem dança.
Vem cá, deixa eu te acariciar vermelho e dentro,
consolar-te, consolar-me
da nossa derrota  num último lamento.
Deixa eu encostar minha cabeça no teu seio
tão de mãe, tão voraz, tão sem paz, que me faz
assim tão não-eu, tão sem-mim, tão não-seu.
Senta no meu colo e me beija uma última vez ;
Não chore, eu não sei, eu também não sei
o que fazer com os restos do melhor de você.
Só espero que me rasgue,
quando me terminar de ler. 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

14 - AINDA É CEDO, AMOR - BOM DIA!




Sonho te aconchegar num cantinho,
e ao mesmo tempo sair correndo de mãos dadas
gritando absurdos nalguma rua mal iluminada.
Mas eu quero mesmo é te ver dormindo. 
Você, sempre agitada, elétrica,
e cheia de silêncios e dúvidas em busca de descanso.
Meu desejo é te ver dormindo, quando, enfim,
eu poderei ajoelhar-me à beira da sua cama,
e, sem sono, ficar te olhando olhando olhando
aliviado porque seu rosto está tão calmo
e o seu coraçãozinho batendo forte.
O perfume, o escuro, o calor
e eu ao seu lado esperando esperando esperando
o melhor acontecer...
Mas os barulhos da cidade te acordam, num tremor...
despertam e assustam ; mas daí a pouco, disfarçando o mau humor:

Bom Dia, Meu Amor!

me aproximo contente junto ao seu rostinho
que recebe os lábios meus.
E nós com isso muito satisfeitos,
conscientes de que tudo não passa de um soluço de Deus
que pode se extinguir quando menos esperamos.
Uma semana? 70 anos?
Então você me inventa e se apressa em mim - os filhos por vir;
eu te descubro e me descanso em você – casar pra quê ?
Não nos acho tão diferentes.... nem tão iguais.
Há amor. Um ocasional tesão. 
O desespero mudo de sempre.
No fundo uma vontade de ser o único leão.
Uma vontade de estar no cio e ser cadela.
No fundo uma vontade de alcançar o fundo.
Mas eu quero mesmo é te ver dormindo serena e bela
sem desejar além disso nada que não seja
sua liberdade de ser fêmea e não precisar ser mulher,
ou de ser mulher e não temer o fechar da primavera.
Quem sabe quando você acordar, princesa, com aquele 

Bom Dia !

exibindo seus seios róseos generosos ?
Seu corpo branquinho se misturando com o branco da cama,
com o branco de mim mesmo.
Sete minutos? Uma semana? 
O banheiro apertado, o abraçar sem fôlego em fog e sabão
A toalha é pequena pra nós dois, mas não sentimos frio.
As roupas coloridas do cotidiano cinza.
Os sapatos soam duros batendo no chão,
atravessando a porta e virando a esquina.
A cama por fazer... A vida por fazer...
Chega de dormir! A noite se apagou !

Bom dia, Meu Amor!
Arranca-me do marasmo
com o seu beijo de sol!
Pega-me nos seus braços
com uma vontade de herói!
Encaixa-me no seu corpo,
presas selvagens numa romã,
e deixa-me- rindo até surgir a manhã.
Tanto assim, e de novo, e de novo, vezes sem fim,
acordar com suas mãos em meu cabelo despenteado ;
sua voz grave em meu ouvido ; desliza atrás de mim
o suor que pinga do seu queixo recém barbeado.
Que bom é nascer... pra logo morrer,
toda sua.
E gastar a vida apenas nisso.
Paixão infinita à distância mínima.
Nua.

13 - AINDA É CEDO, AMOR - O PRÊMIO DA VIDA


(Foto by Dayane Kisse)


A paixão acaba
nos cem primeiros beijos;
nas dez primeiras transas;
na primeia briga.
O amor nunca acaba,
mas não o procure,
apenas doe-se...
ele vai se revelar na hora melhor,
quando vc estiver pronto.
Continue preparando-se...
não para a champanhe, mas para a corrida.
Quando vc estiver bem consigo o amor aparecerá,
que o amor é o prêmio da vida;
o amor pelo outro, que é de todos o mais fácil;
o amor por si próprio, que é mais difícil;
e o amor a Deus, bem complicado,
porque misturamos pedidos e reclamações
onde só deveria haver agradecimento.

12 - AINDA É CEDO, AMOR - É SUAVE O VENTO QUE BALANÇA AS CORTINAS





Houve um tempo de tempestade em que era bom sofrer de paixão,
quando eu amava mais amar do que a pessoa amada.
Mais tarde eu quis ser romântico
e ter uma amante.
E tive.
Arrependo-me por tê-la quisto.
O gozo e as lágrimas.
Agora isso me é insuportável,
de tal modo que não chamo “amor”
aquilo que me dói.

Hoje, intensamente desejo, sem pressa,
amor virgem e sábio;
o amor de mãos dadas, não o de cama,
de pernas agitadas, enlaçadas;
o amor de casa cheia, com visitas amigas e
crianças brincando de ser feliz
– é suave o vento que balança as cortinas;
o amor do sorriso confidente e leal
para quem sorrimos leal e confidentemente.


11 - AINDA É CEDO, AMOR - NEM TODO DIA É DIA




Ontem mesmo estava olhando, no fundo da minha gaveta,
uma colcha de retalhos que minha vó fez pra mim.
Uma singeleza e importância que prevalecem sobre a do lençol
de não sei quantos mil fios ando me enrolando...
Lá tem sentimento, alma, história.
Hoje eu estou meio assim,
restos de mim costurados com mil fios...
A cabeça confusa...
Provavelmente vá pra algum lugar com uma música alta,
pessoas bem diferentes de mim,
pra não ter que pensar muito.
Amanhã já serei outra.


10 -AINDA É CEDO, AMOR - IN EXTREMIS


Como é bom me iludir com vc!
Você escreve e pensa claramente,
mas fala dos subterrâneos.
Dispõe-se a aparecer inteira...
Mas somos imensos...
E em vez de me aproximar,
deliciando-me nos seus detalhes,
arriscando-me a não compreendê-la como um todo,
afasto-me, para, de longe,
poder te ver completa,
ainda que sem pormenores.
Deixemos o tempo passar e, lentamente,
nos teremos na parte e no todo.
Meu frio é grande
e me move, trêmulo, mas decidido,
em sua direção solicitando seus retalhos
 que um dia, bem costurados com paciência e amor,
serão vc inteirinha em torno de mim.
Vc me aquecendo de fora para dentro,
eu retribuindo no sentido inverso.
Não queria parar por aqui,
mas já é inverno,
e meus pés já estão geladíssimos,
 bem como os dedos das mãos.
As extremidades são sempre mais frágeis,
e é por elas que nos ligamos.
Persistamos e venceremos o tempo...
mais tarde as distâncias...

sexta-feira, 27 de junho de 2014

9 - AINDA É CEDO, AMOR - RETALHOS DE NÓS DOIS



 Eu:

Somos tantos!
Caberemos todos numa mesma cama?
Enquanto espero teu novo miado,
vou te imaginando e te costurando a partir dos teus retalhos.
O que teremos ao final:
um lenço ou uma colcha?


Ela:

Você terá uma colcha,
se tiver a paciência de costurar cada pedacinho de pano.
Isso dependerá apenas de você
e do seu frio.