Passávamos os finais de semana perto do Rio
Paranaíba, no Triângulo Mineiro. No pé da serra da Bocaina, a televisão em
preto e branco funcionava com chuvisco, de modo que ela quase nunca era ligada. A
mulher do Seu Geraldo, nosso peão de roça, sempre tinha música tocando no
rádio. Eu preferia o canto dos pássaros, muitas vezes alvos dos estilingues dos
moleques da fazenda. Naquelas caçadas com armadilhas feitas de bambu e arame,
eu acompanhava os meninos não para ajudá-los, mas para desconcentrá-los na mira
e, sorrateiramente, dar alguns passos atrás e desarmar as arapucas.
Eu amava a natureza e, criança, nunca senti falta de
vídeo game, shopping centers e clubes. Não tinha predileção por nenhuma marca,
nem desejo por viagens ao estrangeiro. Tudo o que eu precisava já estava ali
naquele chão de barro vermelho, naquele ar com cheiro de mato, naquele céu
infinito que fazia a minha alegria sem preço. E fui me descolando da cultura
pop dos anos 1990, o que, em certo sentido, comprometeu o meu relacionamento
com as garotas da adolescência. Mas esta pequena dificuldade, que adiou alguns
prazeres, foi em muito compensada pelo prazer imediato que eu tinha em passear
por aqueles campos gerais e pelas matas altas e úmidas.
Nessas idas à fazenda, meu pai saía a cavalo para
inspecionar as cercas velhas da propriedade, porque algumas delas cediam a
algum boi vizinho em busca das delícias da carne que estavam do nosso lado.
Para chegar naqueles limites, era preciso atravessar extensa capoeira de
feições atlânticas, a despeito do cerrado em redor. Acompanhava meu pai nessas
expedições, mas eu insistia em ir a pé, por gostar de recolher umas pedras pra
minha coleção de basaltos e cristais. No caminho, um rastro fundo e estreito
cavado pelos cascos da criação, costumava fazer as mesmas perguntas sobre o
nome das coisas, o que quase sempre não rendia resposta alguma. Às vezes meu
pai dizia: basta olhar pras folhas; as miudinhas são de vinhático, as mais
largas de jatobá; aquela ali é uma paineira e aquela outra, mais em baixo, uma
aroeira.
No passeio seguinte eu perguntaria tudo de novo,
porque a borda das folhas não era bem definida pela minha visão de Miguilim. Eu
tentava identificar pela sua cor e forma geral aquelas plantas majestosas e,
dependuradas em longos galhos e nos cipós enroscados, as pequenas flores. Foi
com esse exercício que fui me tornando artista e não cientista: pelo sentimento
da natureza e não pelo seu entendimento, já que meus olhos não eram tão
apurados como devem ser os instrumentos da ciência. O sentir, passado certo
tempo, leva ao compreender, mas isso eu só saberia depois.
Assim como meu pai me revelava o nome das plantas,
das aves, dos peixes e de outros animaizinhos da selva da minha infância, Seu
Geraldo me dizia das luzes da escuridão. Enquanto minha mãe fazia a janta no
fogão de lenha, eu, meu irmão, e os muitos filhos e filhas do peão e de quem
mais costumava aparecer por ali, gostávamos de brincar de pique esconde e pique
pega, mas houve um dia em que decidimos não pegar uns aos outros, mas vagalumes.
Eram muitos! Participei daquela agitação porque no final ninguém gostaria de
comer aqueles bichinhos, cuja graça está em mantê-los vivos piscando verde, e
não esmagados entre os dedos. Quem mais apanhasse os pontinhos fosforescentes
que voavam baixo na grama molhada, seria
o vencedor da brincadeira, o dono da noite.
Passados vinte minutos, reuniram-se todos em círculo
no meio do pátio entre o curral e o jardim. Stela, cândida menininha de uns
nove anos, abriu lentamente suas delicadas mãos: saíram voando, sem pressa, em
longas voltas desconfiadas, uns cento e sessenta vagalumes, ou mais. Eu, que só
tinha apanhado seis, achei aquilo fantástico. Mais admirável era ver os insetos
que iam subindo, subindo, subindo, uns acesos, outros se acendendo, tornando-se
antigas estrelas. Os demais caçadores de luz, sem se importar com a competição
em curso, abriram suas conchinhas feitas de dedos, acrescentando àquele balé
mais integrantes que se transformariam em sóis milenares. Minha mãe já havia
nos chamado para comer, mas não houve quem quisesse sair dali, apesar da fome.
Era a vez em que inaugurávamos nosso olhar para o céu com a curiosidade da
inocência, a curiosidade da ciência.
Seu Geraldo, que nos vigiava no meio do breu
iluminado apenas por uma lâmpada amarela dependurada fora da casa, aproximou-se
de nós, ainda de chapéu. Percebendo nosso maravilhamento, com o fumo enrolado
na palha de milho queimando entre os dedos, apontou para o alto: aquele é o
Cruzeiro do Sul; são oito e meia. Ninguém acreditou e todos se espantaram e
riram, mas alguém correu pra dentro da sala para conferir o relógio e voltou
dizendo é mesmo, são oito e meia! O peão da fazenda foi o primeiro astrônomo de
quem tive notícia; tornou-se nosso guia sobre as esferas da noite e da manhã. Mesmo
com a miopia, que me dificultava enxergar a estrela intrometida do Cruzeiro,
deixei de colecionar pedras e passei a colecionar constelações. A algumas dei
nomes que eu mesmo inventara; a mais brilhante delas chamei Stela, a Rainha da
Noite, meu mais calmo amor ideal.








