quinta-feira, 7 de agosto de 2014

16 - GAMELEIRA


Aquelas terras cultivadas durante décadas não passavam, no meu tempo de criança, de uma talhão abandonado coberto de lobeiras, gabirobas e uma braquiária pisoteada por poucas cabeças de um gado magro e mestiço. Nas primeiras vezes em que estive ali eu não pude notar nada disso: era sempre noite, logo depois de assistirmos à missa. Saindo da cidade, meu pai seguia numa estrada poeirenta e reta cercada de extensa plantação de café; continuava o caminho descendo numa parte de cascalho, atravessava lento por um curso de água bom de ouvir; seguia subindo num declive suave, em curva à esquerda e depois à direita, o trecho final onde dos dois lados erguiam-se centenárias palmeiras. Margeava a estrada uma cerca velha de arame farpado enegrecido e retorcido, preso a ainda firmes postes de aroeira por pregos novos que brilhavam quando iluminados pelo farol do carro.

Nada disso eu via. Era escuro e, assim como meu irmão, já dormia desde a hora da leitura do Evangelho. Mas quando meu pai desligava a camionete, abria a porta e pegava as pastas com os documentos e dinheiro, a luz do interior do veículo se acendia e eu acordava. Somente ele saía corajoso pra desaparecer daí a poucos metros em meio ao mato fechado que consumia verdejante a nossa história decadente. Antes de a porta bater forte, eu sempre escutava a advertência nervosa de minha mãe: não bebe nem come nada! É que ela tinha convicção de que a avó da mulher do peão era uma velha feiticeira que queria encantar meu pai e tomar-lhes aquele esquecido pedaço de chão. Meu pai não levava aquilo a sério e dava suas recomendações sobre o trabalho na roça tomando um cafezinho quente e comendo broa de milho que lhe era hospitaleiramente oferecido, sem nunca qualquer desses alimentos produzir efeito fantástico que não fosse esquentar o peito e matar a fome. 

Aquela história de bruxaria me impressionava, mas mais me intimidavam os braços musculosos da gigantesca figueira sob a qual estacionávamos quase todo domingo. Caóticos em assustadores contorcidos. Diziam que aquela árvore costumava agarrar com seus galhos os curiosos que por baixo dela passavam com a intenção de roubar jabuticabas, mangas e laranjas – e essa era a melhor justificativa para eu não poder sair do carro. Mas a verdade é que aquela era uma boa árvore. Em suas extremidades mais altas e delicadas se acomodavam, eu descobriria mais tarde, ninhos de passarinhos e o sono tranquilo das galinhas. À sombra das suas folhas miúdas havia um curral desmantelado chamado “dos bezerros”; pequeno e com as tábuas grossas e remendadas; dobradiças e parafusos enferrujados; as porteiras indo ao chão, cansadas de apartar mães e filhos; àquelas horas estava sempre vazio, porque eu imaginava que nenhum animal gostaria de passar sozinho as noites naquele lugar de medo, sombra e frio. 

Como meu pai costumava demorar nos seus negócios, eu logo me cansava de esperar sentado e me deitava no banco. Minha mãe cochilava com meu irmão em seu colo. Antes que o cansaço me tomasse novamente, sob aquele ângulo que só as crianças conseguem obter em sua flexibilidade, eu me admirava do surgir e extinguir de estrelas entre as palmas esparsas das gabirobas se agitando ao vento; vento que parecia nunca deixar de ventar. Mas era o eterno e ensurdecedor coaxar dos sapos o verdadeiro leitmotiv de todas as noites. Eu imaginava aqueles anfíbios cheios de rugas como seres imensos mergulhados em poças de lama jogando truco com cobras e vaga-lumes.

Todos aqueles sons, 
à medida que eu ia adormecendo, eram filtrados pelas rede de gravetos da gameleira e começavam a se misturar na minha imaginação de menino; sonhos que seriam interrompidos quando meu pai retornava com cheiro de capim e esterco e as botas quase totalmente cobertas de barro; as calças apinhadas de sementes, carrapichos e infinitos carrapatos. Então eu tinha a certeza de que era mesmo bom ter rezado na igreja, o mínimo que fosse, antes de pararmos naquele cerrado assombrado. 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

15 - JÁ É TARDE, AMOR



Não acertei meu passo ao seu lado.
É hora de não mais dizer até logo -
nada haverá depois do fim.
Deixo o paço que te construí,
seu conforto tão insistentemente reclamado,
mas não me conformo de você não mais ser minha
e eu de você – pra sempre -,
embora o id me peça pra te esquecer.
Volto a perseguir meu destino de antes :
é de dores e dúvidas o meu caminho ;
na minha estrada se anda sozinho.

Como te amo ! Sempre te quis !
e ainda te desejo de saia jeans e douradas tranças,
o sorriso no rosto e o andar de como quem dança.
Vem cá, deixa eu te acariciar vermelho e dentro,
consolar-te, consolar-me
da nossa derrota  num último lamento.
Deixa eu encostar minha cabeça no teu seio
tão de mãe, tão voraz, tão sem paz, que me faz
assim tão não-eu, tão sem-mim, tão não-seu.
Senta no meu colo e me beija uma última vez ;
Não chore, eu não sei, eu também não sei
o que fazer com os restos do melhor de você.
Só espero que me rasgue,
quando me terminar de ler. 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

14 - AINDA É CEDO, AMOR - BOM DIA!




Sonho te aconchegar num cantinho,
e ao mesmo tempo sair correndo de mãos dadas
gritando absurdos nalguma rua mal iluminada.
Mas eu quero mesmo é te ver dormindo. 
Você, sempre agitada, elétrica,
e cheia de silêncios e dúvidas em busca de descanso.
Meu desejo é te ver dormindo, quando, enfim,
eu poderei ajoelhar-me à beira da sua cama,
e, sem sono, ficar te olhando olhando olhando
aliviado porque seu rosto está tão calmo
e o seu coraçãozinho batendo forte.
O perfume, o escuro, o calor
e eu ao seu lado esperando esperando esperando
o melhor acontecer...
Mas os barulhos da cidade te acordam, num tremor...
despertam e assustam ; mas daí a pouco, disfarçando o mau humor:

Bom Dia, Meu Amor!

me aproximo contente junto ao seu rostinho
que recebe os lábios meus.
E nós com isso muito satisfeitos,
conscientes de que tudo não passa de um soluço de Deus
que pode se extinguir quando menos esperamos.
Uma semana? 70 anos?
Então você me inventa e se apressa em mim - os filhos por vir;
eu te descubro e me descanso em você – casar pra quê ?
Não nos acho tão diferentes.... nem tão iguais.
Há amor. Um ocasional tesão. 
O desespero mudo de sempre.
No fundo uma vontade de ser o único leão.
Uma vontade de estar no cio e ser cadela.
No fundo uma vontade de alcançar o fundo.
Mas eu quero mesmo é te ver dormindo serena e bela
sem desejar além disso nada que não seja
sua liberdade de ser fêmea e não precisar ser mulher,
ou de ser mulher e não temer o fechar da primavera.
Quem sabe quando você acordar, princesa, com aquele 

Bom Dia !

exibindo seus seios róseos generosos ?
Seu corpo branquinho se misturando com o branco da cama,
com o branco de mim mesmo.
Sete minutos? Uma semana? 
O banheiro apertado, o abraçar sem fôlego em fog e sabão
A toalha é pequena pra nós dois, mas não sentimos frio.
As roupas coloridas do cotidiano cinza.
Os sapatos soam duros batendo no chão,
atravessando a porta e virando a esquina.
A cama por fazer... A vida por fazer...
Chega de dormir! A noite se apagou !

Bom dia, Meu Amor!
Arranca-me do marasmo
com o seu beijo de sol!
Pega-me nos seus braços
com uma vontade de herói!
Encaixa-me no seu corpo,
presas selvagens numa romã,
e deixa-me- rindo até surgir a manhã.
Tanto assim, e de novo, e de novo, vezes sem fim,
acordar com suas mãos em meu cabelo despenteado ;
sua voz grave em meu ouvido ; desliza atrás de mim
o suor que pinga do seu queixo recém barbeado.
Que bom é nascer... pra logo morrer,
toda sua.
E gastar a vida apenas nisso.
Paixão infinita à distância mínima.
Nua.

13 - AINDA É CEDO, AMOR - O PRÊMIO DA VIDA


(Foto by Dayane Kisse)


A paixão acaba
nos cem primeiros beijos;
nas dez primeiras transas;
na primeia briga.
O amor nunca acaba,
mas não o procure,
apenas doe-se...
ele vai se revelar na hora melhor,
quando vc estiver pronto.
Continue preparando-se...
não para a champanhe, mas para a corrida.
Quando vc estiver bem consigo o amor aparecerá,
que o amor é o prêmio da vida;
o amor pelo outro, que é de todos o mais fácil;
o amor por si próprio, que é mais difícil;
e o amor a Deus, bem complicado,
porque misturamos pedidos e reclamações
onde só deveria haver agradecimento.

12 - AINDA É CEDO, AMOR - É SUAVE O VENTO QUE BALANÇA AS CORTINAS





Houve um tempo de tempestade em que era bom sofrer de paixão,
quando eu amava mais amar do que a pessoa amada.
Mais tarde eu quis ser romântico
e ter uma amante.
E tive.
Arrependo-me por tê-la quisto.
O gozo e as lágrimas.
Agora isso me é insuportável,
de tal modo que não chamo “amor”
aquilo que me dói.

Hoje, intensamente desejo, sem pressa,
amor virgem e sábio;
o amor de mãos dadas, não o de cama,
de pernas agitadas, enlaçadas;
o amor de casa cheia, com visitas amigas e
crianças brincando de ser feliz
– é suave o vento que balança as cortinas;
o amor do sorriso confidente e leal
para quem sorrimos leal e confidentemente.


11 - AINDA É CEDO, AMOR - NEM TODO DIA É DIA




Ontem mesmo estava olhando, no fundo da minha gaveta,
uma colcha de retalhos que minha vó fez pra mim.
Uma singeleza e importância que prevalecem sobre a do lençol
de não sei quantos mil fios ando me enrolando...
Lá tem sentimento, alma, história.
Hoje eu estou meio assim,
restos de mim costurados com mil fios...
A cabeça confusa...
Provavelmente vá pra algum lugar com uma música alta,
pessoas bem diferentes de mim,
pra não ter que pensar muito.
Amanhã já serei outra.


10 -AINDA É CEDO, AMOR - IN EXTREMIS


Como é bom me iludir com vc!
Você escreve e pensa claramente,
mas fala dos subterrâneos.
Dispõe-se a aparecer inteira...
Mas somos imensos...
E em vez de me aproximar,
deliciando-me nos seus detalhes,
arriscando-me a não compreendê-la como um todo,
afasto-me, para, de longe,
poder te ver completa,
ainda que sem pormenores.
Deixemos o tempo passar e, lentamente,
nos teremos na parte e no todo.
Meu frio é grande
e me move, trêmulo, mas decidido,
em sua direção solicitando seus retalhos
 que um dia, bem costurados com paciência e amor,
serão vc inteirinha em torno de mim.
Vc me aquecendo de fora para dentro,
eu retribuindo no sentido inverso.
Não queria parar por aqui,
mas já é inverno,
e meus pés já estão geladíssimos,
 bem como os dedos das mãos.
As extremidades são sempre mais frágeis,
e é por elas que nos ligamos.
Persistamos e venceremos o tempo...
mais tarde as distâncias...

sexta-feira, 27 de junho de 2014

9 - AINDA É CEDO, AMOR - RETALHOS DE NÓS DOIS



 Eu:

Somos tantos!
Caberemos todos numa mesma cama?
Enquanto espero teu novo miado,
vou te imaginando e te costurando a partir dos teus retalhos.
O que teremos ao final:
um lenço ou uma colcha?


Ela:

Você terá uma colcha,
se tiver a paciência de costurar cada pedacinho de pano.
Isso dependerá apenas de você
e do seu frio.





quinta-feira, 26 de junho de 2014

8 - AINDA É CEDO, AMOR - MULHER GATO



A parte mais diabólica do meu ser
é poder ser quem eu quiser.
 Se você compreender e aceitar um gato como ele é,
com seus diversos ronronares, atitudes e olhares,
saberá me tocar como ninguém.
Porque sou doce, carinhosa, dengosa,
perigosa.
Olhinhos brilhantes, mendigando por carinho,
te envolvendo e enfeitiçando
para, fugindo, ir me esconder de novo,
no escuro.

Mas também sou aquela que não consegue se isolar sem sentir solidão -
carrego um enigma pesado pra minha vida tão leve e breve.
Assim, como bom entendedor de gatos,
Você saberá que é necessário dar-se aquele banho,
feito a ponta de áspera língua,
num elegante exorcismo molhado,
para tirar o pó que sobrou das ruínas das expectativas.

Aberta pra pessoa certa
Sou aquela que é companheira
pra baladas e funerais.
Me entrego e me enterro
com o mesmo sorriso honesto
que me despeço.
Esteja avisado:
não quero só um beijo,
quero a alma em azul
e a carne em sangue;
conexão de infinitos,
ponte sobre abismos,
salto felino.


terça-feira, 24 de junho de 2014

7 - AINDA É CEDO, AMOR - QUEM É VOCÊ?



Não nos abordamos pela sedução das flores;
pegamo-nos pelo fundo, pela podridão das raízes;
das mais fininhas e insignificantes,
fomos subindo Árvore da Vida adentro,
sem risco de sermos ludibriados por serpentes
com frutos proibidos - será?

Quem é você, senhorita diabólica?
Vem cá no canto, ninguém precisa saber:
desfaz seu feitiço, vamos! que eu estou à sua mercê.
Não, não...  deixa como tá...
ao menos assim, insano,
me julgo homem pra ir além
do seu belo rosto,
do seu cheiroso corpo,
do seu batom de alegria,
das suas coloridas sombras de angústia.
Te procuro onde nem mesmo você quisera ir.
Vou enroscando a sua tortuosidade infeliz na minha,
vamos nos escavando, nos desenterrando,
numa arqueologia da alma e do amor.

Será carência? Vaidade?
A solidão e o silêncio?
Minha carência é espaço de sobra no meu coração;
a solidão é o silêncio, sou eu mesmo;
vaidade é o prazer de, em você, ser mais do que devo ser.
Posso mergulhar fundo e você nem sentir.
Perigoso, às vezes torno-me o espectro
de quem me disponho a desassombrar.
O dentro do armário, o debaixo da cama,
o vento que abre a porta.