A coragem é o medo educado, nos ensinou Paulo Freire. Acontece, contudo, que somos educados para o medo. Liguem a televisão a qualquer hora. Deem ouvidos aos seus pais. Obedeçam a seus chefes. Em todos os casos é proibido arriscar, inovar, fazer diferente. Os custos podem ser muito altos: ser assassinado enquanto se esperava o sinal abrir; não conseguir um emprego assim que terminar a faculdade; perder o emprego por extrapolar os limites da burocracia. Melhor mesmo ficar em casa rindo sozinho com o Facebook ou com o Netflix.
A minha maior covardia apareceu aos outros como a minha maior ousadia. Certa vez o diretor da escola entrou em nossa sala colegial e questionou-nos: o que você quer ser quando crescer? Entre respostas como médico, fazendeiro, empresário, dentista, cientista, destacou-se a minha: embaixador do Brasil na ONU. Quase todos riram da minha ambição, mas o diretor me levou muito a sério e, durante anos, me usou como exemplo de pessoa determinada e sonhadora e corajosa para motivar os vestibulandos. Enquanto isso, eu sofria com o meu medo e carregava essa promessa de grande futuro como um peso cada vez mais insuportável.
Mais de dez anos depois, eu mesmo me rio do que dissera, porque eu não queria e nunca quis ser político. Eu queria ser era artista, um artista que fosse bom o suficiente pra ser a imagem do Brasil no mundo, como são os embaixadores, como o foram Vinícius, João Cabral e Guimarães Rosa. Mas como eu diria isso numa sala cheia de futuros médicos e advogados e engenheiros? Ririam de mim. Bem, de um jeito ou de outro acabaram rindo: nem diplomata nem artista.
Certo dia, decidi parar de olhar para o horizonte que me prometia um grande sucesso. Deixando os grandes planejamentos de lado – estratégias cheias de condicionalidades e etapas que só servem como desculpas e justificativas para possíveis fracassos –, resolvi tocar aquela linha infinita que confunde mar e céu. Mesmo inatingível, resolvi alcançá-la. Dei um passo e depois outro à medida que ia me despindo, deixando no passado o peso da promessa adolescente. Nu, entrei no mar gelado, em ondas, em busca de ser igual a mim mesmo.
Quero
dar a volta ao mundo e
chegar
onde bem agora estou,
mas
reencontrar-me diferente,
reencontrar-me
Homem.
Resiste
ainda o receio de partir com a minha nau e
perder-me,
naufragar-me, ter que ser resgatado ou morrer ali,
de
frio e sede, num mar salgado,
eu,
que adoro doce!
Pra
cruzar o Bojador é preciso ir além da dor.
Mas é que já doeu tanto...
tem
de ir mais?
Alguém
grita:
Você
não quer a sua Penélope?
Então
viva a sua Odisséia!
Então
eu olho para traz e vejo
a
minha estrada tão caminhada, tão pisada;
olho
para frente e vejo a praia amansada pelas ondas bravas.
Qual
nau qual nada! Eu vou é nadando!
E
mergulhei atrás de mim mesmo.
Embalava-me
os braços o canto da sereia única.
Chegasse
eu a Ítaca,
ela
transformar-se-ia na minha Princesa.
Morresse
tentado,
engolir-me-ia
com debochada risada .
Cada
vez mais quero chegar,
encordoar meu próprio arco e
mostrar
que este camponês é da estirpe dos Ulisses,
e
que quem me aguarda não precisa mais tecer infinitamente nosso enxoval.
Quantas
epopeias já não recusei?
Quantos
afogamentos preferi padecer a persistir tentando?
Quantas
vezes não cheguei onde quebram as ondas e
voltei
para sentar-me na cadeira e tomar meu sol –
frio
e só.
É
que nesse tempo apenas estava em jogo eu mesmo,
e
eu sei do meu reles valor.
Um
grão de areia a mais na borda do continente.
Mas
agora é diferente: há o amor.
O
vento me chama para as águas e eu vou –
não
há como não ir.
O
vento é aquele sedutor canto, impossível resistir.
A
poesia é a minha Vidaverdade.
Porém há algo que nasceu em mim e me tem feito melhor.
Sutil
e ligeiro, mas desta vez parece querer se demorar.
Veio
de mim e fala de mim.
É
um sino que bate em minha cabeça: é hora de ressurgir!
Há
alguém que te espera há muito tempo.
E
este alguém sou eu mesmo - criança,
aquela
que nada temia e nunca fugia.
Dê-lhe
a mão e deixe-a conduzi-lo ao oceano de dúvidas e grande medo.
Escute
a sua infância: vai menino, seja você mesmo!
E
foi assim que eu desapareci sobre a espuma de areia e sal para,
levando adiante a coragem que agora me inspira
e
o amor que vem por um certo canto,
eu
possa reerguer-me nas praias da ilha
que
a minha Arte sempre me prometeu.
Lá
vai ter uma outra cadeira para eu tomar sol,
mas
dessa vez será um sol quente e eu não estarei só.
Estarei
comigo mesmo!
E
o prêmio: Penélope.
Nem
mais nem menos,
será
nobre e da minha qualidade:
sangue,
suor e cumplicidade.