terça-feira, 12 de maio de 2015

22 - SEM SENHORA NEM SENHOR


 

Sem uma nem outra, procurei por terceiras; nenhuma me procurava. Restava-me o consolo de alguns amigos – mas amigos que estão no mesmo labirinto servem apenas para nos dar o inútil consolo de que estou tão perdido quanto eles! Por fim, apegamo-nos a Deus, companheiro com quem andava em bom diálogo ao longo do dia, todos os dias, desde as minhas mais remotas lembranças: minha mãe, com todos os seus cabelos ainda pretos, o terço na mão diante de um altar florido, rezando o rosário durante horas, com uma felicidade calma no rosto. Mas o Senhor não estava sendo suficiente para mim. Começava a correr mais sangue ao meu sul do que ao meu norte. O foco da minha mente fixava-se na boca da mulher, não no sorriso; no suor, não no perfume; tentava adivinhar pelo ritmo da respiração dela como ela gemeria se estivesse entre meus braços. E quanto mais eu abraçava minha deusa imaginária, buscando torná-la real, mais meu Deus real desfazia-se em mitologia. Quanto mais procurava sair de mim, buscando um sentido no exterior feminino, mais desmoronava-se o meu interior divino. Fui restando apenas homem, macho, apenas barro; sem forma, rumo, sem Eva.


Essa desconstrução da minha relação com o sublime não se deu apenas por obra do descaso da mulher para comigo, mas também pelo meu interesse crescente nas humanidades e na ciência. À medida que eu intensificava os estudos colegiais, foram desbotando as cores da religião que institucionalizara Deus no meu círculo social, na minha família e na minha mente. Deixei de enxergar a Igreja como templo do sagrado, vendo-a mais como um Ministério das Relações Celestiais, onde a política tinha primazia sobre o amor, o poder era mais importante que o perdão e o Papa poderia destituir o Imperador como se isso fosse a vontade do Altíssimo, desconsiderando-se a vontade do povo. Havia uma ditadura divina em que a tortura poderia ser chamada de inferno e pecado. Eu havia sido longa e suavemente educado nessa disciplina do medo revestido de proteção. Meu Deus servia apenas pra me afastar do martírio que ele potencialmente criara pra mim; e aumentando a minha insatisfação, Ele parecia não ter poder para me abrir as portas da mulher. Entristeci. Duvidei. Fiquei sozinho. 



Buscando àquela que me salvaria, perdi a Deus e a mim mesmo. Como é desértico e desassossegado o caminho de quem vai apenas escutando os próprios passos. Como é sem caminho a jornada em busca da própria alma. É como ter que reinventar os dez mil anos de civilização, no menor tempo possível, sob pena da perenidade da falta de sentido comprometer nossa sanidade e tranquilidade; é como ter que reinventar-se a si mesmo. Tornamo-nos o nosso próprio caminho e vamos nos pisando, marcando em nós nossos tropeços, sentindo nosso próprio peso, nossa falta de jeito em pisar com a ponta dos pés a estrada da existência. 

Desacreditado das lições do céu sumério, babilônico, judaico e cristão, não quis me entrincheirar em uma nova religião. Os fantásticos acontecimentos de setembro de 2001 deixaram claro que não apenas o cristianismo usava a relação dos homens com Deus como forma de incitação da guerra sacralizada. Ao longo dos séculos, todas as crenças se apropriaram sistematicamente do divino para legitimar a violência como forma de alcançar e manter o governo dos homens. Com esta verdade, ao menos uma questão pacificou-se em mim: não era de Deus que eu me afastara, mas sim da antropomorfização e socialização que lhe conferimos. E isto, que seria uma solução, tornou-se uma falta de ar. Como eu poderia novamente abraçar algo que não mais tinha braços? Como eu poderia contemplar os olhos paternais de quem não mais tinha rosto? Como eu poderia reencontrar alguém que não era mais ninguém? 

Os luminosos caminhos da razão claramente nos levam para a escuridão das incertezas. Os indesvendáveis caminhos da fé nitidamente nos conduzem para a verdade absoluta. Não seria mais cômodo reassumir sem contestação a antiga crença? Eu não deveria concordar com Santo Agostinho para quem a solução seria crer para compreender? Ou então, se eu me tornasse um deísta, como Voltaire, já não seria um avanço? Aliás, não seria até mesmo mais seguro do que levar adiante aquela dúvida sobre o essencial que dá sentido ao princípio e ao fim? Como seria meu além-vida se eu estivesse errado? Quente e sulfúrico? Melhor aderir a Pascal: na dúvida, creia! Porém isso me parecia uma grande covardia. Aprovaria Deus os que n’Ele creem por temor e não por amor? Enfim, teria mesmo Deus a sua própria justiça, ou seria Ele a Justiça Em Si? 

A investigação dessas metafísicas não tem ponto final, apenas interrogações. Eu não quis facilitar a minha vida voltando a me ajoelhar diante nos velhos bancos das Igrejas. Contudo, foi tornando-se muito desgastante pessoal e socialmente aquela busca. Parentes mais próximos e conhecidos começaram a me direcionar um olhar de pena, querendo me reprovar com alguma dose de compaixão com que foram doutrinados. Não pisei atrás, mas também não mais quis caminhar sozinho. Iniciei uma longa conversa, que dura até hoje, com aqueles que trilharam o mesmo caminho da dúvida capital. Na prisão conceitual e sentimental criada por mim mesmo, como para Boécio, restaram-me as consolações da filosofia e da ciência.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

21 - BEIJOS, T.




T. era linda e sabia disso. Nos olhos fervilhava uma inteligência criativa; a boca declarava em sensualidades de dentes e lábios e língua aquilo que o resto do corpo aflorava em seios redondinhos, quadril largo e cabelos negros ao meio das costas. Não era vulgar. Era um anjo que se equilibrava entre a disciplina do estudo e as seduções da juventude. Todas essas impressões reforçavam-se ainda mais quando se trata da primeira pessoa que você vem a conhecer no primeiro ano do curso colegial. Eu já estava sentado, à espera do início da primeira aula semestre, quando entrou apressada pela sala essa garota: mal deixou os livros e cadernos sobre a carteira dela, a pilha de material escolar escorregou e veio ao chão. Rapidamente pus-me a ajudá-la. Ela abriu um sorriso inesquecível que expressava o agradecimento e o constrangimento daquele evento.


Depois dos doze anos de idade, os menores incidentes com o sexo oposto podem dar ensejo ao início de um grande encantamento – que acabam se tornando as mais belas idealizações de outro ser humano que alguém é capaz de fazer ao longo da sua vida. Há quem se apaixone por quem lhe pise no pé numa valsa debutante; por quem lhe derrube o lanche no recreio ou por quem, de tão tímido, nunca lhe diz um oi. Alguns anos antes daquele dia inaugural do colegial eu convivi com uma menina chamada D., cujo nome todos sabíamos não por ela, mas pela chamada que os professores faziam dos alunos conferindo a presença de cada um em sala de aula. Mesmo nessas ocasiões ela apenas levantava discretamente o braço, nada dizia. Era uma loirinha caipira do interior de Santa Catarina. Era duma beleza erótica demais pra pouca idade que tinha e que nem todos os meninos percebiam. Dizia-se que por ter um sotaque carregado do qual fora vítima de gozação anteriormente, preferia ficar calada; outros diziam que ela não falava português, apenas alemão. Eu nunca soube sua verdadeira história porque nunca pude ouvir sua voz. Ela nunca me disse nada, mas pelo seu silêncio eu permaneci apaixonado por três anos. 

Foi um amor sem palavras, mas não sem mãos e beijos. Amor escondido como todo primeiro amor, mas coletivo. Compartilhei-a com outros dois colegas meus, ao final das aulas, na curva escura da escada da cantina da escola. Alternávamos os dias da semana e fingíamos não saber um do outro. D. foi nossa lição inicial sobre a mulher. Ela, por não falar nada também não era muito falada. Saiu da escola cheia de mistérios, mas depois de anos com seus pequenos meio sorrisos substituindo as palavras, todos tinham em conta que ela era uma espécie de santa. 

T. não tinha as aparentes virtudes de D.; era fatal e manteve-me sob seu signo por mais tempo que qualquer outra conseguiria. Foi ela a minha estátua de mármore eterna, meu mais sofrido aprendizado do feminino. Algumas semanas depois de nosso primeiro contato já almoçávamos juntos nos dias que havia aulas à tarde. Falávamos dos livros que líamos e das músicas que ouvíamos, sentados num banquinho no jardim da escola, em meio à algazarra de outros grupos de rapazes e garotas. 

Eu lhe presenteava chocolates e ela me beijava o rosto e dava gargalhadas de prazer. Como eu era feliz quando entre uma frase e outra eu lhe tocava o braço ou pousava-lhe no joelho minha mão. Mas o que eu queria mesmo era entrelaçar os meus dedos aos dela e sentir o mais perto possível o perfume barato que ela sempre usava. Eu ainda não tinha me dado conta de como em tão pouco tempo eu já a amava e a admirava, como eu a queria só para mim. Também não me dera conta que ela já não era, nem nunca seria, apenas minha. Com frequência cada vez maior garotos cheios de espinha vinham interromper nossas conversas ou ela mesmo se dispersava com acontecimentos ao nosso redor. Fui ficando sozinho com o meu amor passarinho, frágil e rápido; invisível na mata, dele só se escutando fino assobio. Então quis dar forma ao meu canto já triste. Desolado pela ausência dela, escrevi um fatídico bilhetinho apaixonado, diploma de todo amor romântico destinado ao fracasso.

Foi o fim. No outro dia ela pediria junto à coordenação da escola pra mudar de turma e nós nos distanciamos tanto quanto um dia estivemos próximos. Eu quis ter chorado, mas não me permiti tal fraqueza; procurei-a na praça da escola, mas, ao me ver, ela apenas esticava aborrecida o canto da boca, abaixava o olhar e, com crueldade, lentamente, ia me dando às costas: os longos cabelos negros, as nádegas firmes, o lacinho sobre o calcanhar da sapatilha rosa. Fiquei sem resposta por dias, até que uma amiga dela me cutucou no meio duma aula de química e me entregou um papelzinho que sentenciava: para sempre seremos grandes amigos! Beijos. T.

Como é difícil, no princípio da juventude, dissociar o amor da amizade e a admiração do tesão. Esses sentimentos se confundem em diferentes pessoas, sejam por homens ou mulheres, e criam uma confusão de gêneros e interesses que ora paralisa e conduz-nos para uma caixa de solidão, ora nos atiça e nos impele para uma festa de beijos, abraços e cerveja. Mas como é prazeroso sofrer nessa idade. A vida ganha maior densidade e até mais importância quanto maior é a dor do encantamento que súbito se desfaz em desdém. Mas há um limite, e o meu foi o dia em que eu a vi sendo amparada do frio de maio pelos braços de um aluno alto, magro e que falava com voz esganiçada. Resignei-me. Entre o primeiro e aquele último passaram-se quatro meses, dois séculos naqueles tempos de esperas mínimas e ansiedades máximas; entre o gênesis e o apocalipse daquela paixão, rompi com Deus.

20 - A CASA ANTIGA DO BREJO



Eu não sabia que atrás das cortinas pesadas daquelas noites de domingo da minha infância havia uma enorme cruz pra nos proteger – e por isso nada acontecia a meu pai, eu concluí depois. Na verdade não era uma simples cruz, era um cruzeiro de madeira, fixado numa base alta e quadrada de pedras e tijolos, à beira de volumoso rego d’água que fazia subir e descer o monjolo, num terreno mais abaixo. Eu também não sabia que na frente deste cruzeiro tinha um pequeno chafariz outrora revestido de pedrinhas brancas redondas; eu não sabia que diante deste chafariz, à sombra da tarde da gameleira mágica, na meia encosta de uma suave colina, havia uma grande casa em ruínas, a casa da minha bisavó. Descobri tudo isso em dia claro, quando fomos eu e meu irmão levados por meu pai para que pudéssemos entrar pela primeira e última vez naquele velho casarão. Era o dia do desmonte, quando se colocaria abaixo 70 anos de memória para aproveitar o que restara da antiga casa e erguer uma morada que pudesse abrigar com mais conforto o peão de fazenda e sua família.

Desde a morte de minha avó, uns cinco anos antes, tentava-se manter a terra produtiva pra que não fosse expropriada para a reforma agrária, num tempo em que os movimentos de “sem-terra” começavam a mostrar sua força. Foi-se engordando como dava o gado ruim que restara de outras eras mais venturosas. Tomava conta de tudo quem chamávamos de Nanico, mas ele era um moreno enorme, magro e forte, de uns 30 anos, com alguns poucos dentes na boca e três filhos para criar. Morava com a esposa, a sogra e o sogro no antigo paiol da propriedade – construção fechada com tábua, elevada do chão, com piso de largas tábuas. De ambos os lados havia um puxadinho também coberto de telhas em que se ergueram entre os mourões paredes de pau a pique delimitando a cozinha, com fogão de lenha também de barro, e o banheiro apenas pra se tomar banho, já que para satisfazer as demais necessidades havia, afastada, uma casinha de adobe sobre uma fossa; entre a casinha e a fossa uma laje de concreto com um buraco no meio, mais nada.

Mas havendo bem em frente ao paiol casarão imponente e vasto, porque morar em habitação tão mal arranjada? Caía sobre si mesmo o casarão. Depois de décadas de glória, sucederam-se alguns anos de abandono – o suficiente para que a casa fosse invadida e pilhada em sua mobília e até mesmo da sua estrutura: algumas janelas e portas haviam sido roubadas; telhas retiradas; parte da decoração do forro furtada. Ademais, aquela casa, dos princípios da década de 1920, fora construída com grossas paredes de tijolos se apoiando diretamente sobre vigas de aroeira que também sustentavam o piso de madeira. Acontece que o peso das paredes de quatro metros de altura, foi deformando as vigas que acabaram cedendo. A falta de conservação, somada ao vandalismo que vinha da cidade, não permitiam que ninguém mais morasse ali naqueles tempos. Como a casa como um todo poderia desmoronar sem aviso, optou-se por salvar a grande quantidade de material ainda utilizável e demolir o símbolo dos melhores tempos de antigamente.

Era uma manhã morna de sábado e eu tinha uns poucos anos. Antes que os pedreiros subissem nas escadas para começarem a descer as enegrecidas telhas francesas, pesados caibros e longas ripas, meu pai abriu as portas do passado para mim e meu irmão. Entramos apenas nós três, nossos passos e olhares conduzidos por uma lanterna. Havia muita, muita poeira e terra, por isso andávamos devagar. A sala de visitas era ampla, com quatro janelões. O teto era bem alto. Meu pai iluminou a parede – era azul clara com desenhos de arranjos de flores distribuídos harmonicamente aqui e ali. O forro também era pintado não sei de que cor e possuía em suas bordas um arremate delicado, em art nouveau. Contigua à sala havia um quarto, lacrado, que quando teve sua porta aberta, depois de um tranco que meu pai teve de dar na fechadura, revelou dois catres de madeira, em que se dormia sobre colchão de palha de milho ou palha de arroz. Retornamos à sala e entramos num corredor que dava para outros dois quartos, cada um de uma cor: um amarelo e outro verde; ambos com os mesmos delicados ramalhetes de flores apagando-se pela parede cujo reboco caía.

Havia cheiro de mofo e urina e durante toda aquela visitação fomos acompanhados pela trilha sonora de ratos que andavam nervosos sobre o forro, bem como éramos assediados por voos rasantes dos morcegos despertados pela nossa invasão. Também zuniam infinitos pernilongos e a toda hora finas teias de aranha eram iluminadas pelos cantos. Meu irmão quis voltar, mas segurei-o pela mão e disse: “somos o Indiana Jones! Vamos!”. E continuamos a expedição, enfiando nossos narizes sob a gola de nossas camisetas. Ao final do corredor abria-se um novo salão. Ali o piso rangia e estalava, com eco – estávamos sobre os porões. Então eu mesmo quis retornar; meu irmão ensaiou um início de choro, que terminou quando meu pai pegou-o e colocou sentado sobre a comprida mesa que estava no meio daquele que era o salão de festas. Pediu para que esperássemos ali, quietinhos; afastou-se e desligou a lanterna. Silêncios e sombras. Nós gritamos aflitos: paaaaaiii!!!!! mas antes que as lágrimas escorressem sobre nossos rostos, abriram-se simultâneas as duas folhas da porta que dava para uma estreita varanda de concreto, apoiada sobre três colunas, mirante sobre o antigo pomar. Por entre a balaustrada da sacada, a luz do sol anestesiou-nos um pouco os olhos, mas, instantes depois, sentimos os cheiros que hoje posso dizer: são o perfume dos meus sete anos.

Pés de abacate, manga, tamarindo, graviola, romã e goiaba; jabuticabeiras inúmeras, laranjeiras de vários tipos e limoeiros em flor; bem diante de nós uma extensão do curral, que cercava a casa aos fundos e à direita da fachada principal; diante do curral, o paiol que abrigava a família do Nanico; atrás, já fora do pomar, nos pastos, erguia-se a árvore mais bonita da minha vida: uma paineira florida de rosa, cujas flores, quando ao chão, atraíam a fome de pequenos e últimos veadinhos que correram por aquele cerrado. Aqueles animaizinhos comiam flores! Ladeando a casa corria o rego d’agua com seriedade, testemunha de todos os tempos e águas que ali rolaram. Escutava-se o zumbido das abelhas e dos marimbondos e, mais assustador, das vespas, mas também cantavam sabiás, canarinhos, pássaros pretos, papagaios, araras, periquitos, coleirinhos e tesourinhas e tantos mais que não sei mais os nomes. De galho em galho ainda se via, com olhos espertos, os saguis nos vigiando e se escondendo. Dali daquela varanda eu vi pela primeira vez os jardins do Gênese.  Mas para aquele cenário seria o primeiro dia do juízo final.

Derrubou-se a maioria daquelas árvores, porque suas frutas ainda atraíam a gente predatória da cidade. Restaram apenas algumas jabuticabeiras, o curral, o paiol, o chiqueiro e os porões do casarão. Toda a beleza natural e arquitetônica se fora no prazo de poucos dias. Quando ali retornamos no final de semana seguinte, havia um imenso vazio na paisagem.


19 - O MENSAGEIRO DAS ESTRELAS




Ambas enviadas em 1º de maio de 1500 a D. Manuel I, o Venturoso, rei de Portugal, a carta de Caminha e um desconhecido relato astronômico de um certo Mestre João dividem a incerteza da importante posição de primeiro registro científico em território brasileiro. Enquanto Caminha traz descrições sobre a fauna, flora e recursos minerais, além de detalhadas observações sobre os indígenas, o relato de Mestre João informa sobre a primeira determinação de latitude obtida no Brasil, em 27 de abril de

1500. Este detalhe dá precedência científica ao trabalho do desconhecido navegador em relação à literatura de Caminha. Sobre a descrição do Cruzeiro do Sul por Mestre João ilustramos com o seguinte excerto:

Ontem, segunda-feira, 27 de abril, descemos em terra, eu e o piloto do capitão-mor e o piloto de Sancho Tovar; tomamos a altura do sol ao meio-dia e achamos 56 graus, sendo a sombra setentrional, pelo que, segundo as regras do astrolábio, julgamos estar afastados da equinocial por 17 graus e portanto ter a altura do pólo 17 graus segundo manifesto na esfera (...) Somente mando a Vossa Alteza como estão situadas as estrelas do sul, mas em que grau está cada uma não pude saber; antes me parece ser impossível, no mar, tomar a altura de alguma estrela, porque eu trabalhei muito nisso e por pouco que o navio balance, se erram 4 ou 5 graus, de modo que não se pode fazer, senão em terra (...) Tornando, senhor, ao propósito, estas Guardas nunca se escondem, antes sempre andam em derredor sobre o horizonte, e ainda estou em dúvida que não sei qual daquelas duas mais baixa seja o Pólo Antártico; e estas estrelas, principalmente a da Cruz, são grandes quase como a do Carro; e a estrela do Pólo Antártico, ou Sul, é pequena como a do Norte e muito clara e a estrela que está em cima de toda a Cruz é muito pequena. 

Kant dizia, ecoando Pascal - O silêncio desses espaços profundos me assombra -, que a única coisa que o encantava eram, além da lei moral interior, as estrelas. Esses dois filósofos não são diferentes da maioria do restante da humanidade, que, ao contemplar o céu, desde as idades mais pretéritas, se espanta e atribue-lhe adjetivos como divino. Mestre João, filho da Renascença, embora talvez cristão, não se contentava em apenas orar aos céus; seu ofício era olhá-lo e decifrá-lo com o objetivo semelhante ao que hoje os nossos cientistas apontam seus telescópios para o princípio do cosmos, ou as câmeras dos satélites para o nosso planeta: localizarmos-nos no espaço, no segundo caso e, no primeiro, no tempo. Apesar de toda poluição luminosa noturna, o espanto e o encantamento persistem, bem como o esforço científico de desmistificar o que a religião e o folclore tornam ainda mais misterioso e belo. 

Há cerca quatrocentos anos o empenho científico de desvendar o orbe celeste ganhou um incremento fundamental com a luneta, o óculo, de Galileu, melhorado, menos de cinqüenta anos depois, por Newton. Não teríamos, porém, feito na cosmologia os progressos de que hoje nos regozijamos - e nos fazem repensar a nossa (des)importância ante o universo -, utilizando-nos apenas desses primeiros instrumentos de observação; tampouco contando apenas com os grandes observatórios das altas cadeias de montanhas conseguiríamos ter sequer a ousadia de tentar desvendar os mistérios da matéria e energia escura, ou, para as pessoas mais práticas, conseguir que nossos aviões chegassem aos seus destinos sem um maior número de acidentes do que costuma ocorrer. Grande parte das facilidades da vida moderna decorre de eventos cuja história, a rigor, completou recentemente 50 anos: as ciência e tecnologia espaciais, com seus foguetes, telescópios, estações orbitais e satélites, são as grandes protagonistas da modernidade.

Não resta dúvida, portanto, que as ciências e tecnologias espaciais são fundamentais para o bem viver da sociedade do século XXI. É certo que o mínimo avanço nas fronteiras dessas ciências exigem um esforço gigantesco de milhares de cientistas em todo mundo; é certo também que, para tais cientistas poderem se dedicar com qualidade ao seu trabalho, não menor esforço é realizado pelos administradores públicos de seus respectivos países, e mesmo por seus representantes em órgãos internacionais. 

O foco da minha coluna na Rede CSF estará justamente na esfera política da questão da exploração espacial, embora eu possa também me aventurar pelos limites da ciência básica deste campo do conhecimento. Sendo mais preciso, apresentarei as linhas básicas da política científica e tecnológica do setor espacial brasileiro, encarnados no Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), desde as suas origens mais remotas, em 1961. Por meio deste trabalho gostaria de apontar insuficiências, gargalos e virtudes que, nos últimos quase 50 anos, levaram este País, de um lado, a uma posição de destaque na constelação dos países tecnologicamente mais avançados, mas, de outro, a acumular fragilidades no tocante à competitividade internacional e a dificuldades de avançar com maior velocidade seu programa espacial. 

O Brasil deve ter um programa espacial à altura de seus desbravadores do céu, como Santos Dummont e o Padre Bartolomeu de Gusmão, bem como de seu objetivos como nação, e o que já conseguimos no setor de aviação civil mostra que podemos ter sucesso em definir uma agenda própria na área espacial. Como diz o mestre Celso Furtado, “na crise de civilização que vivemos, somente a confiança em nós mesmos poderá nos restituir a esperança de chegar a um bom porto”. Na base da confiança mútua, vamos inaugurando aqui este espaço para discussão de como os brasileiros podem alcançar a suas Cinco Estrelas que coroarão nossa Ciência.

domingo, 18 de janeiro de 2015

18 - A RAINHA DA NOITE



Passávamos os finais de semana perto do Rio Paranaíba, no Triângulo Mineiro. No pé da serra da Bocaina, a televisão em preto e branco funcionava com chuvisco, de modo que ela quase nunca era ligada. A mulher do Seu Geraldo, nosso peão de roça, sempre tinha música tocando no rádio. Eu preferia o canto dos pássaros, muitas vezes alvos dos estilingues dos moleques da fazenda. Naquelas caçadas com armadilhas feitas de bambu e arame, eu acompanhava os meninos não para ajudá-los, mas para desconcentrá-los na mira e, sorrateiramente, dar alguns passos atrás e desarmar as arapucas.

Eu amava a natureza e, criança, nunca senti falta de vídeo game, shopping centers e clubes. Não tinha predileção por nenhuma marca, nem desejo por viagens ao estrangeiro. Tudo o que eu precisava já estava ali naquele chão de barro vermelho, naquele ar com cheiro de mato, naquele céu infinito que fazia a minha alegria sem preço. E fui me descolando da cultura pop dos anos 1990, o que, em certo sentido, comprometeu o meu relacionamento com as garotas da adolescência. Mas esta pequena dificuldade, que adiou alguns prazeres, foi em muito compensada pelo prazer imediato que eu tinha em passear por aqueles campos gerais e pelas matas altas e úmidas.

Nessas idas à fazenda, meu pai saía a cavalo para inspecionar as cercas velhas da propriedade, porque algumas delas cediam a algum boi vizinho em busca das delícias da carne que estavam do nosso lado. Para chegar naqueles limites, era preciso atravessar extensa capoeira de feições atlânticas, a despeito do cerrado em redor. Acompanhava meu pai nessas expedições, mas eu insistia em ir a pé, por gostar de recolher umas pedras pra minha coleção de basaltos e cristais. No caminho, um rastro fundo e estreito cavado pelos cascos da criação, costumava fazer as mesmas perguntas sobre o nome das coisas, o que quase sempre não rendia resposta alguma. Às vezes meu pai dizia: basta olhar pras folhas; as miudinhas são de vinhático, as mais largas de jatobá; aquela ali é uma paineira e aquela outra, mais em baixo, uma aroeira.

No passeio seguinte eu perguntaria tudo de novo, porque a borda das folhas não era bem definida pela minha visão de Miguilim. Eu tentava identificar pela sua cor e forma geral aquelas plantas majestosas e, dependuradas em longos galhos e nos cipós enroscados, as pequenas flores. Foi com esse exercício que fui me tornando artista e não cientista: pelo sentimento da natureza e não pelo seu entendimento, já que meus olhos não eram tão apurados como devem ser os instrumentos da ciência. O sentir, passado certo tempo, leva ao compreender, mas isso eu só saberia depois.

Assim como meu pai me revelava o nome das plantas, das aves, dos peixes e de outros animaizinhos da selva da minha infância, Seu Geraldo me dizia das luzes da escuridão. Enquanto minha mãe fazia a janta no fogão de lenha, eu, meu irmão, e os muitos filhos e filhas do peão e de quem mais costumava aparecer por ali, gostávamos de brincar de pique esconde e pique pega, mas houve um dia em que decidimos não pegar uns aos outros, mas vagalumes. Eram muitos! Participei daquela agitação porque no final ninguém gostaria de comer aqueles bichinhos, cuja graça está em mantê-los vivos piscando verde, e não esmagados entre os dedos. Quem mais apanhasse os pontinhos fosforescentes que voavam baixo na grama molhada,  seria o vencedor da brincadeira, o dono da noite.

Passados vinte minutos, reuniram-se todos em círculo no meio do pátio entre o curral e o jardim. Stela, cândida menininha de uns nove anos, abriu lentamente suas delicadas mãos: saíram voando, sem pressa, em longas voltas desconfiadas, uns cento e sessenta vagalumes, ou mais. Eu, que só tinha apanhado seis, achei aquilo fantástico. Mais admirável era ver os insetos que iam subindo, subindo, subindo, uns acesos, outros se acendendo, tornando-se antigas estrelas. Os demais caçadores de luz, sem se importar com a competição em curso, abriram suas conchinhas feitas de dedos, acrescentando àquele balé mais integrantes que se transformariam em sóis milenares. Minha mãe já havia nos chamado para comer, mas não houve quem quisesse sair dali, apesar da fome. Era a vez em que inaugurávamos nosso olhar para o céu com a curiosidade da inocência, a curiosidade da ciência.



Seu Geraldo, que nos vigiava no meio do breu iluminado apenas por uma lâmpada amarela dependurada fora da casa, aproximou-se de nós, ainda de chapéu. Percebendo nosso maravilhamento, com o fumo enrolado na palha de milho queimando entre os dedos, apontou para o alto: aquele é o Cruzeiro do Sul; são oito e meia. Ninguém acreditou e todos se espantaram e riram, mas alguém correu pra dentro da sala para conferir o relógio e voltou dizendo é mesmo, são oito e meia! O peão da fazenda foi o primeiro astrônomo de quem tive notícia; tornou-se nosso guia sobre as esferas da noite e da manhã. Mesmo com a miopia, que me dificultava enxergar a estrela intrometida do Cruzeiro, deixei de colecionar pedras e passei a colecionar constelações. A algumas dei nomes que eu mesmo inventara; a mais brilhante delas chamei Stela, a Rainha da Noite, meu mais calmo amor ideal.

domingo, 7 de dezembro de 2014

17 - OS DESAFINADOS TAMBÉM TÊM UM CORAÇÃO



Quando eu estava na sexta série, acordava às seis da manhã, enrolava uns cinco minutinhos deitado, e, de uma vez, jogava as cobertas de lado, levantava com os pés no chão frio - embora minha mãe sempre colocasse os chinelos ali na beiradinha pra eu usá-los ,- arrumava a cama e vestia o uniforme da escola na maior escuridão e silêncio possíveis – meu irmão ainda dormia. Do quarto eu ia pra cozinha, ligava a televisão em preto e branco pra ver as aulas do Telecurso 2000, e enchia um copo de leite puro, que eu bebia de um só fôlego, pra não sentir o gosto, o qual eu fazia questão de anular qualquer resquício indo direto pro banheiro escovar os dentes. Em seguida eu enfiava a cabeça debaixo da torneira, enxugava os cabelos, e punha-me a penteá-los numa arte demorada que só finalizava com a montagem do topete com gel. Com a camisa um pouco molhada e achando que o topete ficara ou grande ou pequeno demais, eu ia pra sala e me sentava no sofá para calçar o tênis.

Numa certa manhã chuvosa de março, a aula que passava na TV era sobre MPB. Dois jovens atores, numa fala mansa, tentavam explicar em quinze minutos sobre a bossa nova. Após breves comentários sobre a batida de João Gilberto, um deles pegou o violão e começou a cantar “Quando eu vou cantar, você não deixa / E sempre vem a mesma queixa...”. Aquela música era estranha. Nunca ouvira aquilo. Meus ouvidos estavam acostumados apenas às músicas da rádio e ao som sertanejo que meu pai colocava em fita cassete no carro. No entanto, nesta época, eu também já ouvia algumas músicas sinfônicas de Bach, Beethoven, Mozart, Chopin e Tchaikovsky – eram os cinco CDs que eu tinha na minha estante. Mas aquela música era brasileira, era a música mais estranha e bonita que eu já conhecera. Naquele dia, ladeado pelo meu irmão, eu fui pra escola muito mais feliz do que costumava ir, assobiando a melodia enquanto eu caminhava.

Os próximos dez anos eu passaria escutando e pesquisando a música europeia dos séculos XVII ao XIX, que muito me agradava, encantava e surpreendia. Evidentemente acabei tendo contato com os grandes mestres brasileiros da música orquestral como Villa-Lobos, Guerra-Peixe, Camargo Guarnieri, Claudio Santoro e Francisco Mignone. Acontece que estes eram artistas da primeira metade do século XX, criadores de um som um tanto moderno, experimental, confuso para os meus ouvidos clássicos e ao mesmo tempo infantis. Confesso que eu não os admirava; não os admirava porque eu não conseguia entendê-los, assim como não entendia os compositores europeus do século XX como Mahler e Stravinsky, que me causavam desagradáveis arrepios.

Morando já em Brasília, e com muitas terças-feiras de comparecimento aos concertos gratuitos do Teatro Nacional, eu vivia tempos pós-universitários, amargando o desemprego, a falta de grana e os estudos sofríveis para concurso público. No cursinho acabei conhecendo uma moça de uns 20 anos, linda!, que tocava flauta com muita elegância. Estudávamos juntos na biblioteca após a manhã de aulas. Ela era bem inteligente e prática, o que lhe facilitava aprender rápido a matéria e acertar um grande número de exercícios. Eu tentava acompanhá-la e era bom em explicar aquilo que ela não tinha entendido muito bem – ou fingia não ter entendido. Enfim, logo estávamos indo além dos estudos e, quando o estresse e a pressão da aprovação se tornavam insuportáveis, permitíamo-nos ir ao cinema, a algum barzinho e aos concertos juntos. Primeiro íamos com outros colegas, mas logo concluímos que éramos mais felizes só nós dois. Algumas semanas assim renderam o primeiro entrelaçamento de dedos, abraços de despedida mais demorados, sorrisos de reencontro mais alegres, um primeiro beijo.

Eu queria aquela mulher pra mim. O dia dos namorados estava chegando e planejei pedi-la em compromisso naquele dia. Além das flores vermelhas, que são de lei, ainda tinha o presente, pra convencê-la da minha intenção no longo prazo. Reuni todas as minhas moedinhas, deixei de viajar naquele mês em visita a meus pais, e comprei um DVD do qual ela me falava há muito tempo, ao qual juntei também uma caixa de chocolates Kopenhagen. Pronto, agora eu estava seguro que a surpresa seria boa e ela não poderia me dizer não.

Era 12 de junho de 200..., segunda-feira, e ela não apareceu no cursinho. Nem no dia seguinte. Nem na semana seguinte. Dez dias depois ela retorna às aulas com um anel na mão direita. Um tanto sem graça, chorando, ela me explica que um amigo dos tempos de conservatório lhe reaparecera com uma canção composta para ela, convidando-a para acompanhá-lo no fim de semana no Festival de Inverno de Campos do Jordão, onde a música concorria a uma premiação. Ela diz ter pensado muito na proposta, mas acabou indo. A música não foi bem classificada, mas ele ficou com meu prêmio. Nunca mais estudamos juntos; joguei fora o resto das flores, que eu ainda guardava; comi todos os chocolates em menos de uma hora e arremessei o DVD no fundo de uma gaveta. Só me restava estudar.

E estudei! Foram quatro meses intensos até a realização do Concurso do Tribunal Regional Federal. Não passei. Larguei o cursinho – ela já nem mais estava lá, porque fora aprovada em outro concurso meses antes. Passei alguns dias no escuro, comendo sorvete, assistindo a várias temporadas desses seriados americanos. Quando decidi retornar à velha rotina, diante de nova motivação pelo lançamento de um edital com excelente salário, tirei uma tarde pra arrumar meus papéis e livros e apostilas. Em meio àquela bagunça encontrei o DVD que me custara as economias do primeiro semestre. Eu não ia jogá-lo fora. O sentimento que me arrasara e causava repulsa a tudo o que me lembrava ela já havia passado da sua fase mais crítica, de modo que me foi possível tirar sem raiva o plástico da capa do DVD e colocar para assisti-lo.


Uma tia minha diz que um amor antigo só se cura com um novo amor. Disso concluí que eu nunca fora o amor daquela que eu parecia ter amado; descobri também que o novo amor não necessariamente precisa ser outra pessoa. Eu estava então novamente apaixonado, e o objeto da devoção da minha alma era a Música. Jobim Sinfônico era o DVD que eu comprara para ser a trilha sonora daquele dia dos namorados. Não foi. Tornou-se a trilha sonora da minha vida. Tom Jobim tornou-se o meu maestro soberano. 

Eu deveria ter voltado a estudar com a determinação e disciplina de sempre no dia seguinte, mas não consegui. Fui para a biblioteca da universidade, sentei e comecei a ler as páginas de Direito Constitucional, Administrativo e Tributário, mas logo Lígia me entrava pelo ouvidos. Luiza, Teresa e Ângela também, sem falar nos passarinhos e correntezas de rios que me arrastavam para bem longe do rigor dos concursos. Durante semanas travei uma luta de concentração entre a Arte e a Ciência, a Música e o Direito. Venceu a beleza das melodias. Passei a ir para a biblioteca não para estudar para concurso, mas para ler tudo o que eu podia sobrea música do Tom. Mas esta disciplina é tão vasta quanto qualquer direito, pois na fonte de Jobim bebeu a maioria dos músicos brasileiros que lhe sucederam. Se Tom Jobim fosse grande apenas na música, já lhe seríamos todos imensamente gratos. Mas como todos os homens que são grandes em sua arte, Jobim também foi grande em sua vida. E foi em entender a sua humanidade que eu pude entender a sua música, a ponto de não achá-la apenas a mais bonita música brasileira; a música de Tom Jobim é a mais bonita música da Natureza.


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

16 - GAMELEIRA


Aquelas terras cultivadas durante décadas não passavam, no meu tempo de criança, de uma talhão abandonado coberto de lobeiras, gabirobas e uma braquiária pisoteada por poucas cabeças de um gado magro e mestiço. Nas primeiras vezes em que estive ali eu não pude notar nada disso: era sempre noite, logo depois de assistirmos à missa. Saindo da cidade, meu pai seguia numa estrada poeirenta e reta cercada de extensa plantação de café; continuava o caminho descendo numa parte de cascalho, atravessava lento por um curso de água bom de ouvir; seguia subindo num declive suave, em curva à esquerda e depois à direita, o trecho final onde dos dois lados erguiam-se centenárias palmeiras. Margeava a estrada uma cerca velha de arame farpado enegrecido e retorcido, preso a ainda firmes postes de aroeira por pregos novos que brilhavam quando iluminados pelo farol do carro.

Nada disso eu via. Era escuro e, assim como meu irmão, já dormia desde a hora da leitura do Evangelho. Mas quando meu pai desligava a camionete, abria a porta e pegava as pastas com os documentos e dinheiro, a luz do interior do veículo se acendia e eu acordava. Somente ele saía corajoso pra desaparecer daí a poucos metros em meio ao mato fechado que consumia verdejante a nossa história decadente. Antes de a porta bater forte, eu sempre escutava a advertência nervosa de minha mãe: não bebe nem come nada! É que ela tinha convicção de que a avó da mulher do peão era uma velha feiticeira que queria encantar meu pai e tomar-lhes aquele esquecido pedaço de chão. Meu pai não levava aquilo a sério e dava suas recomendações sobre o trabalho na roça tomando um cafezinho quente e comendo broa de milho que lhe era hospitaleiramente oferecido, sem nunca qualquer desses alimentos produzir efeito fantástico que não fosse esquentar o peito e matar a fome. 

Aquela história de bruxaria me impressionava, mas mais me intimidavam os braços musculosos da gigantesca figueira sob a qual estacionávamos quase todo domingo. Caóticos em assustadores contorcidos. Diziam que aquela árvore costumava agarrar com seus galhos os curiosos que por baixo dela passavam com a intenção de roubar jabuticabas, mangas e laranjas – e essa era a melhor justificativa para eu não poder sair do carro. Mas a verdade é que aquela era uma boa árvore. Em suas extremidades mais altas e delicadas se acomodavam, eu descobriria mais tarde, ninhos de passarinhos e o sono tranquilo das galinhas. À sombra das suas folhas miúdas havia um curral desmantelado chamado “dos bezerros”; pequeno e com as tábuas grossas e remendadas; dobradiças e parafusos enferrujados; as porteiras indo ao chão, cansadas de apartar mães e filhos; àquelas horas estava sempre vazio, porque eu imaginava que nenhum animal gostaria de passar sozinho as noites naquele lugar de medo, sombra e frio. 

Como meu pai costumava demorar nos seus negócios, eu logo me cansava de esperar sentado e me deitava no banco. Minha mãe cochilava com meu irmão em seu colo. Antes que o cansaço me tomasse novamente, sob aquele ângulo que só as crianças conseguem obter em sua flexibilidade, eu me admirava do surgir e extinguir de estrelas entre as palmas esparsas das gabirobas se agitando ao vento; vento que parecia nunca deixar de ventar. Mas era o eterno e ensurdecedor coaxar dos sapos o verdadeiro leitmotiv de todas as noites. Eu imaginava aqueles anfíbios cheios de rugas como seres imensos mergulhados em poças de lama jogando truco com cobras e vaga-lumes.

Todos aqueles sons, 
à medida que eu ia adormecendo, eram filtrados pelas rede de gravetos da gameleira e começavam a se misturar na minha imaginação de menino; sonhos que seriam interrompidos quando meu pai retornava com cheiro de capim e esterco e as botas quase totalmente cobertas de barro; as calças apinhadas de sementes, carrapichos e infinitos carrapatos. Então eu tinha a certeza de que era mesmo bom ter rezado na igreja, o mínimo que fosse, antes de pararmos naquele cerrado assombrado. 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

15 - JÁ É TARDE, AMOR



Não acertei meu passo ao seu lado.
É hora de não mais dizer até logo -
nada haverá depois do fim.
Deixo o paço que te construí,
seu conforto tão insistentemente reclamado,
mas não me conformo de você não mais ser minha
e eu de você – pra sempre -,
embora o id me peça pra te esquecer.
Volto a perseguir meu destino de antes :
é de dores e dúvidas o meu caminho ;
na minha estrada se anda sozinho.

Como te amo ! Sempre te quis !
e ainda te desejo de saia jeans e douradas tranças,
o sorriso no rosto e o andar de como quem dança.
Vem cá, deixa eu te acariciar vermelho e dentro,
consolar-te, consolar-me
da nossa derrota  num último lamento.
Deixa eu encostar minha cabeça no teu seio
tão de mãe, tão voraz, tão sem paz, que me faz
assim tão não-eu, tão sem-mim, tão não-seu.
Senta no meu colo e me beija uma última vez ;
Não chore, eu não sei, eu também não sei
o que fazer com os restos do melhor de você.
Só espero que me rasgue,
quando me terminar de ler. 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

14 - AINDA É CEDO, AMOR - BOM DIA!




Sonho te aconchegar num cantinho,
e ao mesmo tempo sair correndo de mãos dadas
gritando absurdos nalguma rua mal iluminada.
Mas eu quero mesmo é te ver dormindo. 
Você, sempre agitada, elétrica,
e cheia de silêncios e dúvidas em busca de descanso.
Meu desejo é te ver dormindo, quando, enfim,
eu poderei ajoelhar-me à beira da sua cama,
e, sem sono, ficar te olhando olhando olhando
aliviado porque seu rosto está tão calmo
e o seu coraçãozinho batendo forte.
O perfume, o escuro, o calor
e eu ao seu lado esperando esperando esperando
o melhor acontecer...
Mas os barulhos da cidade te acordam, num tremor...
despertam e assustam ; mas daí a pouco, disfarçando o mau humor:

Bom Dia, Meu Amor!

me aproximo contente junto ao seu rostinho
que recebe os lábios meus.
E nós com isso muito satisfeitos,
conscientes de que tudo não passa de um soluço de Deus
que pode se extinguir quando menos esperamos.
Uma semana? 70 anos?
Então você me inventa e se apressa em mim - os filhos por vir;
eu te descubro e me descanso em você – casar pra quê ?
Não nos acho tão diferentes.... nem tão iguais.
Há amor. Um ocasional tesão. 
O desespero mudo de sempre.
No fundo uma vontade de ser o único leão.
Uma vontade de estar no cio e ser cadela.
No fundo uma vontade de alcançar o fundo.
Mas eu quero mesmo é te ver dormindo serena e bela
sem desejar além disso nada que não seja
sua liberdade de ser fêmea e não precisar ser mulher,
ou de ser mulher e não temer o fechar da primavera.
Quem sabe quando você acordar, princesa, com aquele 

Bom Dia !

exibindo seus seios róseos generosos ?
Seu corpo branquinho se misturando com o branco da cama,
com o branco de mim mesmo.
Sete minutos? Uma semana? 
O banheiro apertado, o abraçar sem fôlego em fog e sabão
A toalha é pequena pra nós dois, mas não sentimos frio.
As roupas coloridas do cotidiano cinza.
Os sapatos soam duros batendo no chão,
atravessando a porta e virando a esquina.
A cama por fazer... A vida por fazer...
Chega de dormir! A noite se apagou !

Bom dia, Meu Amor!
Arranca-me do marasmo
com o seu beijo de sol!
Pega-me nos seus braços
com uma vontade de herói!
Encaixa-me no seu corpo,
presas selvagens numa romã,
e deixa-me- rindo até surgir a manhã.
Tanto assim, e de novo, e de novo, vezes sem fim,
acordar com suas mãos em meu cabelo despenteado ;
sua voz grave em meu ouvido ; desliza atrás de mim
o suor que pinga do seu queixo recém barbeado.
Que bom é nascer... pra logo morrer,
toda sua.
E gastar a vida apenas nisso.
Paixão infinita à distância mínima.
Nua.

13 - AINDA É CEDO, AMOR - O PRÊMIO DA VIDA


(Foto by Dayane Kisse)


A paixão acaba
nos cem primeiros beijos;
nas dez primeiras transas;
na primeia briga.
O amor nunca acaba,
mas não o procure,
apenas doe-se...
ele vai se revelar na hora melhor,
quando vc estiver pronto.
Continue preparando-se...
não para a champanhe, mas para a corrida.
Quando vc estiver bem consigo o amor aparecerá,
que o amor é o prêmio da vida;
o amor pelo outro, que é de todos o mais fácil;
o amor por si próprio, que é mais difícil;
e o amor a Deus, bem complicado,
porque misturamos pedidos e reclamações
onde só deveria haver agradecimento.