terça-feira, 26 de julho de 2022

26 - A VIAGEM DE GONNEVILLE E ESSOMERICQ (IÇÁ-MIRIM) (1503-1505)

 Volto a publicar aqui, depois de sete anos, trazendo um texto histórico que dificilmente se encontra na íntegra na internet. Narra a incrível aventura de Essomericq (Içá-Mirim), o primeiro índio brasileiro a vir do Brasil para França, onde constituiu família e viveu até os 95 anos. 

Essa história ganhou maior visibilidade em 1992, com o livro Vinte Luas, de Leyla Perrone-Moisés, ganhador do Prêmio Jabuti de 1993 de melhor Ensaio e Biografia.




RELAÇÃO DA VIAGEM

DO CAPITÃO DE GONNEVILLE

ÀS NOVAS TERRAS DAS ÍNDIAS

 

 

Os oficiais do Almirantado da França

Na Sede Geral da Mesa de Mármore do Palácio de Ruão

Fazem saber

Que dos registros do cartório da dita Sede,

Ano de mil quinhentos e cinco,

Foi extraído e colacionado com a minuta original que segue.

 

DECLARAÇÃO DA VIAGEM DO CAPITÃO GONEVILLE

E SEUS COMPANHEIROS ÀS ÍNDIAS

E observações feitas durante a dita viagem apresentada à Justiça

Pelo Capitão e os ditos companheiros,

Conforme requerido pela gente do Rei nosso Senhor

E ordenado lhe foi.

 

 

 

ARMAÇÃO DO NAVIO

 

Primeiramente dizem que, traficando em Lisboa, ele Gonneville e os honrados varões Jean l’Anglois e Pierre le Carpentier, vistas as belas riquezas de especiarias e outras raridades que chegavam àquela cidade por navios portugueses vindos das Índias Orientais, há alguns anos descobertas, combinaram de lá enviar um navio, depois de bem se informarem junto a alguns que tinham feito tal viagem e de contratarem por alto salário dois portugueses que de lá tinham voltado, um chamado Bastião Moura, o outro Diogo Couto, para que, no caminho das Índias, eles os ajudassem com seu saber.

 

E porque os três acima mencionados não tinham bastantes faculdades para realizarem sozinhos tão alta empresa, associaram-se aos honrados varões Etienne e Antoine, conhecidos como os irmãos Thiéry, Andrieu de la Mare, Batiste Bourgeoz, Thomas Atinal e Jean Carrey, burgueses de Honfleur. E os nove, com gastos e despesas comuns, equiparam um navio do porte de cento e vinte toneladas, aproximadamente, chamado L’Espoir, que somente havia servido para fazer uma viagem a Hamburgo, bom de casco e de velas e dos mais bem equipados e aparelhados do porto de Honfleur; e nenhuma economia foi feita pelos burgueses para bem aprovisionar o dito navio, segundo o inventário de mostra, a saber:

 

Como munições de guerra:

Dois canhões fundidos de cobre e latão;

Dois canhonetes de igual fundição;

Seis falconetes e bombardas de ferro fundido de variados calibres;

Quarenta mosquetes, arcabuzes e outras armas de fogo;

Mil e seiscentas libras de bala de diversos calibres para artilharias, não compreendidas aí três dúzias de balas de cavilha e correntes;

Além disso, quatrocentas libras de balas para as citadas armas de fogo e chumbo em barra de lingotes;

Quinhentas libras de ferragens e metralhas para as ditas artilharias; Duas mil libras de pólvora de canhão, um quinto dela granulada;

Trezentas e cinquenta mechas para armas de fogo;

As ditas artilharias montadas em as carretas, e guarnecidas do número e quantidade necessários de soquetes com saca-trapo na ponta, agulhões, escovilhões, placas, vertedouros, palmetas, pinças de mira, e outros bota-fogos, cartuchos de ferro e de madeira, pergaminho de papel grosso para cartuchame, bragas guarnecidas de roldanas, rocegas e outros pertences necessários;

Quarenta lanças, dardos, partazanas e adagas;

 

Além disso, para substituição:

Duas carretas;

Seis rodas de carreta;

Uma dúzia e meia de peças de ferro sobressalentes;

Seis ganchos para cordas;

E quatro dúzias de cavilhas e chavetas

 

E também como munições de navegação, para substituição:

Duas âncoras além das ordinárias, pesando uma quinhentas outra trezentas libras;

Dois cabos suplementares, um de cento e vinte braças, outro de cem;

E dois cabos de massa, também para substituição;

E seiscentas varas de lona de algodão, tanto dupla como simples, pano cru e tratado para troca de velas;

Oito vaquetas para as bombas e vergas dos gurupés;

Uma dúzia de machadinhas, de combate como de trabalho;

E um timão e barra de leme para substituição.

 

E tudo isso verificado verdadeiro pele inventário acima fornecido, mostrando a grande perda que o dito Capitão e companheiros sofreram com a pilhagem e o saque de seu navio, razão pela qual eles se queixam à Justiça; no qual inventário haviam omitido, por inadvertência ou por outra razão qualquer, a menção da quantidade e das espécies de suas munições.

 

Além disso foi o dito navio abastecido de biscoito, grão e farinha para cerca de dois anos, visto o número de pessoas da tripulação;

 

Ervilhas, favas, toicinho, carne de cabra e peixes salgados e secos, sidras e outras bebidas, sem contar a provisão de água, para um ano ou mais;

 

E também foi abastecido de muitos alimentos frescos antes da partida;

 

Também foi aviada a arca do Cirurgião do navio com numerosos medicamentos de primeira necessidade e com os instrumentos e utensílios de sua arte.

 

Quanto às mercadorias, foi o navio carregado de:

Trezentas peças de tecidos diversos;

Machados, enxadas, foices, relhas, segadeiras num total de quatro milheiros;

Dois mil pentes de várias espécies;

Cinquenta dúzias de espelhinhos;

Seis quintais de miçangas de vidro;

E oito de quinquilharias de Ruão;

Vinte grosas de facas e canivetes;

Um fardo de alfinetes e agulhas;

Vinte peças de droguete;

Trinta de fustão;

Quatro de tecido tingido escarlate;

Oito outras de diversas estampas;

Um de veludo com figuras;

Algumas outras douradas;

E moedas de prata que, segundo souberam, valiam na Índia tanto quanto ouro.

 

E tudo igual ao que costumam carregar os portugueses, por serem essas coisas, do lado de lá e no caminho, as de melhor tráfico.

 

Dizem que no navio embaraçaram ao todo sessenta almas; e com o acordo de todos, e especialmente dos burgueses do navio, foi estabelecido capitão e chefe principal aquele de Gonneville, para governar a viagem da melhor forma, com os conselhos de Andrieu de la Mare e Antoine Thiéry, dos ditos burgueses do navio que faziam a viagem.

 

E para o mister do mar ia como piloto Colin Vasseur, de Sain-Arnous-lez-deTouques, bom e velho navegador e mestre; e Nollet Epeudry de Grestaing, co-piloto.

 

E todos, tanto os principais quanto os companheiros, receberam antes de partir os sacramentos, tanto pela fortuna de tão longa viagem quanto pela dúvida de não o receberem por muito tempo, já que não havia capelão no navio e eles iam para fora da Cristandade.

 

E assim partiram do porto de Honfleur, no próprio dia de Monsenhor São João Batista [24 de junho] do ano da graça de mil quinhentos e três.

 

 

VIAGEM DE IDA

 

Diziam também que tendo partido, e sendo o mar aflorado por vento nordeste propício, em dezoito dias mais ou menos chegaram à Ilhas Canárias, que são terras altas, sobretudo a de Tenerife, entre a qual e a de Gomera passaram sem parar, indo daí em direção da Barbaria[1], costeando esse país, que é terra chã e campanha rasa.

 

Da Barbaria foram à demanda das ilhas de Cabo Verde, cheias de montanhas e rochedos, habitadas por portugueses que aí fazem tráfico de cabritos, abundantes nas ditas ilhas.

 

E passando adiante, chegaram à grande terra de Cabo Verde, país de Mouros, os quais trocaram com os navios cuxu[2], uma espécie de arroz, galinhas pretas e outras virtualhas, por ferro, miçangas e outras bugigangas; e foi o navio refrescado, provido de água e limpo das conchas. Para tanto, í permaneceu durante dez dias.

 

Também dizem que tendo retomado o mar, na véspera do dia de São Lourenço [9 de agosto], foi decidido seguir ao longo da costa da África, para evitar os perigos e a pestilência dessa costa. E tinham então vento bastante favorável, que assim continuou por seis semanas; entretanto às vezes elevavam-se turbilhoes em tempo sereno, que atormentavam muito, mas não duravam. E também eram incomodados por chuvas fétidas, que manchavam as roupas; caindo sobre a pele, provocavam borbulhas; e eram frequentes.

 

Dizem também que a linha do Equador foi por eles ultrapassada  no dia doze de setembro; e viram, tanto de um lado como de outro, peixes-voadores em bandos como fariam em França os estorninhos, com asas como as de morcego, e de tamanho próximos ao de arenque branco. Além disso, viam-se peixes-galo, golfinhos e outros peixes, que os marinheiros pescavam para fazer caldeiradas.

 

 

Começou então no navio o mal do mar[3], que afligiu dois terços da população; e disso morreram o Senhor Coste, de Harfleur, que por curiosidade fazia a viagem; Pierre Estieuvre e Louis Le Carpentier, de Honfleur; Cardot Hescamps, artilheiro de Pont-eau-de-mer; Marc Drugeon de Breuil e Philippe Muris, de Touques.

 

E desde então começaram a dirigir-se pelo Cruzeiro do outro Polo.

 

Dizem também que pito dias depois do dia de Todos os Santos [9 de novembro] viram flutuando no mar longos e grossos caniços com suas raízes, que os dois portugueses disseram ser o sinal do Cabo da Boa Esperança, o que lhes deu grande alegria; e porque não viam os pássaros chamados mangas-de-veludo[4], pensavam que o navio estivesse cursando muito abaixo do dito Cabo; e também porque sentiam mais frio.

 

Dizem que então começaram a ter tempo e vento contrários, de modo que, durante três semanas, não avançamos nada.

 

E morreu-lhes Colin Vasseur, seu piloto principal, de apoplexia súbita, o que foi grande perda para a viagem.

 

E foi essa infelicidade seguida de outra, a saber, rudes tormentas, tão veementes que obrigados foram a se deixarem ir, por alguns dias, ao sabor do mar, a abandono [das correntes marítimas]; e perderam a rota; o que muito os afligia, dada a necessidade que tinham de água e de se refrescarem em terra.

 

Dizem que a tormenta foi seguida de alguma calmaria, de modo que eles pouco avançavam. Mas Deus os reconfortou, pois começaram a ver vários pássaros, vindo e voltando para o lado sul, o que os fez pensar que não estavam afastados da terra; razão pela qual, embora ir naquela direção fosse voltar as costas à Índia Oriental, a necessidade os fez virar s velas; e no dia cinco de janeiro descobriram uma grande terra, onde só puderam arribar no crepúsculo do dia seguinte, por causa de um vento de terra contrário; e ancoraram em bom fundo.

 

E já naquele dia alguns tripulantes foram à terra reconhecer; e já na manhã seguinte foi enviada uma barga à costa para encontrar um porto, e voltou à tarde; e conduziu o navio a um rio que ela havia achado, e que é quase como o rio Orne.

 

 

ESTADA NAS NOVAS TERRAS DAS ÍNDIAS

 

Dizem ter permanecido no dito país até o mês de julho seguinte, por estar o navio tão carunchoso e gasto que tinha grande necessidade de limadura; no que foi empregado não pouco tempo, por falta de operários com prática nessas coisas.

 

E aí os companheiros do navio decidiram voltar à França, recusando-se a navegar do dito lugar até à Índia, dizendo que aquele mar ainda não fora navegado por cristãos, que o tempo fora perdido, e também o principal piloto, que era a principal fiança da viagem; e que, ainda mais, o dito navio não poderia aguentar tal percurso. De modo que, por essas e outras razões, que todos endossaram, para desencargo do Capitão, foi decidia a volta à Cristandade.

 

Dizem também que, durante sua permanência na dita terra, conversavam cordialmente com as gentes dali, depois que ela foram cativadas pelos cristãos por meio das festas e pequenos presentes que estes lhe faziam; sendo os tais índios gente simples, que não pediam mais do que levar uma vida alegre sem grandes trabalhos, vivendo da caça e da pesca, e do que a terra lhes dá de per si, e de alguns legumes e raízes que plantam; indo meio nus, os jovens e a maioria dos homens usando mantos, ora de fibras trançadas, ora de couro, ora de plumas, como aqueles que usam em seus países os egípcios e os boêmios, exceto que são mais couros, com uma espécie de avental amarrado sobre as ancas, indo até os joelhos, nos homens, e nas mulheres até o meio das pernas; pois homens e mulheres se vestem da mesma maneira, exceto que a vestimenta da mulher é mais longa.

 

E usam as fêmeas colares e pulseiras de osso e de conchas; não o homem, que usa, em vez disso, arco e flecha tendo por virotão um osso devidamente acerado, e um chuço de madeira muito duro, queimado e afiado no alto; o que constitui toda sua armadura.

 

E vão as mulheres e as meninas com a cabeça coberta, tendo as cabeças gentilmente trançadas com cordéis de ervas tingidas com cores vivas e brilhantes. Quanto aos homens, usam longos cabelos soltos, com um círculo de plumas altas, de cores vivas e bem dispostas.

 

Dizem ainda terem entrado no dito país, aí avançando por dois dias, e ao longo da costa mais tempo, tanto à direita como à esquerda; e terem notado que o país é fértil, provido de muitos animais, pássaros, peixes, árvores, e outras coisas singulares desconhecidas na Cristandade, cujas formas o falecido senhor Nicole Le Febvre de Honfleur, que fazia a viagem como voluntário, curioso e personagem de saber, tinha retratado; o que se perdeu com os diários de bordo por ocasião da piratagem do navio; perda em razão da qual muitas coisas e boas observações são aqui omitidas.

 

Também dizem que o sito país é medianamente povoado.

 

E as habitações dos índios formam aldeias de trinta, quarenta, cinquenta ou oitenta cabanas, feias à maneira de galpões com estacas unidas umas às outras, ligadas por ervas e folhas, com as quais os ditos habitantes são igualmente cobertos; e têm por chaminé um buraco, para fazer sair a fumaça. As portas são bastões corretamente ligados; e eles se fecham com chaves de madeira, quase como as que se usam, nos campos da Normandia, nos estábulos.

 

E seus leitos são esteiras macias cheias de folhas ou penas, suas cobertas são esteiras, peles de animais ou plumagens; e seus utensílios domésticos são de madeira, mesmo as panelas, mas estas são revestidas de uma espécie de argila da espessura de um dedo, o que impede que o fogo as queime.

 

Também dizem ter notado que o dito país está dividido em cantões, cada um com seu Rei; e embora os ditos reis não sejam mais bem alojados e vestidos do que os outros, são muito reverenciados por seus súditos; e nenhum é tão atrevido que ouse desobedecer-lhes já que eles têm poder de vida e de morte sobre seus vassalos. Disso alguns do navio viram um exemplo digno de memória, a saber, o de um rapaz de dezoito a vinte anos que, num momento de exaltação, deu uma bofetada em sua mãe; tendo isso chegado ao conhecimento do chefe, embora a mãe não se tenha queixado, este mandou buscar o rapaz e ordenou que o jogassem no rio, com uma pedra no pescoço, depois de chamar, por aviso público, os jovens da aldeia e das aldeias vizinhas; e ninguém conseguiu obter remissão, nem mesmo a mãe que, de joelhos, veio implorar perdão para seu filho.

 

O dito rei era aquele em cuja terra permaneceu o navio; seu nome era Arosca. Seu país tinha a extensão de um dia, e era povoado por cerca de uma dúzia de aldeias, cada uma das quais tinha o seu capitão em particular, e todos obedeciam ao dito Arosca.

 

O dito Arosca tinha, ao que parece, uns sessenta anos, e era viúvo; tinha seis filhos machos de trinta até quinze anos; e vinham, ele e os filhos, frequentemente ao navio. Homem de postura grave, estatura média, gordinho, de olhar bondoso; em paz com os Reis vizinhos, mas ele e estes guerreavam com outros povos das terras interiores: contra os quais investiu duas vezes, durante a estada do navio levando de quinhentos a seiscentos homens cada vez. E da última vez, seu retorno foi motivo de grande alegria para todo o seu povo, porque ele tinha alcançado grande vitória; suas ditas guerras não eram mais do que excursões de poucos dias contra o inimigo. E ele bem que gostaria que alguns do navio o acompanhassem com suas armas de fogo e artilharia, para atemorizar e desbaratar seus ditos inimigos; mas disso a gente se escusou.

 

Também dizem que não notaram nenhum sinal particular que distinguisse o dito Rei dos outros Reis do dito país, dos quais cinco vieram ver o navio, afora que os ditos Reis usam na cabeça plumagens de uma única cor; e seus vassalos, pelo menos os principais, usam em seus círculos de pena algumas da cor de seu chefe, que era o verde na do dito Arosca, seu hospedeiro.

 

Também dizem que se os cristãos fossem anjos descidos do céu não seriam mais estimados por esses pobres índios, que estavam todos assombrados com a grandeza do navio, com a artilharia, os espelhos e outras coisas que eles aí viam, e sobretudo com o fato de que, por um recado escrito que se enviasse de bordo aos tripulantes que estavam nas aldeias, se lhes fizesse saber o que se queria; eles não conseguiam explicar como o papel podia falar. Também por isso os cristãos eram por ele temidos, e pelo amor de algumas pequenas liberalidades que lhes faziam, pentes, facas, machados, espelhos, miçangas e outras bugigangas, tão amadas que por elas se deixariam esquartejar, e lhes traziam abundância de carne e peixes, frutas e víveres, e tudo o que eles viam ser agradável aos cristãos, como peles, plumagens e raízes para tingir; em troca do que lhe eram dadas quinquilharias e outras coisas de baixo preço: de modo que reuniu-se cerca de cem quintais das ditas mercadorias, que na Franças teriam alcançado bom preço.

 

 Dizem também que, desejando deixar, no dito país, marcas de que ali haviam chegado cristãos, foi feita uma grande cruz de madeira, alta de trinta e cinco pés ou mais, bem pintada; a qual foi plantada num outeiro com vista para o mar, em bela e devota cerimônia, tambor e trombeta soando, em dia bem escolhido, a saber, o dia de Páscoa de mil quinhentos e quatro. E foi a dita cruz carregada pelo Capitão e pelos principais do navio, todos descalços; e ajudavam-nos o dito chefe Arosca e seus filhos e outros índios notáveis, que para tanto foram convidados de honra, e eles se mostravam alegres. Seguia a tripulação armada, cantando a ladainha, e um grande povo de índios de todas as idades, aos quais há muito fazíamos festa, quietos e muito atentos ao mistério.

 

Plantada a dita cruz, foram dados vários tiros de escopeta e artilharia, e oferecidos festim e presentes honestos ao dito chefe Arosca e principais índios; e quanto à populaça, não houve ninguém a quem não se fizesse algum dom de bugigangas baratas, mas por eles prezadas, tudo para que o fato lhes ficasse na memória; dando-lhes a entender, por sinais e de outras formas, o melhor possível, que eles deviam conservar e honrar a dita cruz.

 

E nesta estava gravado, de um lado, o nome do nosso Santo Padre e o Papa de Roma, do Rei nosso Senhor e do Senhor Almirante de França; do Capitão, burgueses e companheiros, do maior até o menor. E fez o marceneiro do navio essa obra, o que lhe valeu o menor. E fez o marceneiro do navio essa obra, o que lhe valeu um presente de cada companheiro. Do outro lado foi gravado um presente de cada companheiro. Do outro lado foi gravado um dístico numeral latino composto pelo senhor Nicole Le Febvre e acima citado, que de gentil maneira declarava a data do ano da chantadura da cruz, e quem a havia chantado; e ali estava:

 

HIC SACRA PALMARIVS POSVIT GONIVILA BINOTVS;

GREX SOCIVS PARITER, NEUSTRAQVE PROGENIES[5]

 

Dizem ainda que estando finalmente o navio limado, calafetado e abastecido o melhor possível para a volta, foi decidido que se partisse para a França.

 

E porque é costume daqueles que chegam às novas terras das Índias levarem delas à Cristandade alguns índios, tanto se fez, com tal gentileza, que o dito chefe Arosca consentiu que um de seus filhos jovens, o qual se dava bem com os do navio, viesse à Cristandade, já que se prometia ao pai e ao filho trazê-lo de volta dentro de vinte luas ao mais tardar; pois assim eles contavam os meses. E o que lhes davam mais vontade: faziam-no crer que, àqueles que viessem do lado de cá, ensinariam a artilharia; o que ele desejava intensamente, para poderem dominar seus inimigos: como também a fazer espelhos, facas, machados e tudo o que viam e admiravam dos cristãos; o que era prometer-lhes tanto como prometer a um cristão ouro, prata e pedrarias, ou ensinar-lhes a pedra filosofal.

 

Tendo acreditado firmemente nessas coisas, o dito Arosca estava contente de que levassem seu filho, que se chamava Essomericq; e deu-lhe por companhia um índio de trinta e cinco ou quarenta anos, chamado Namoa.

 

E vieram, ele e seu povo, em escolta até o navio; fornecendo-lhes muitos víveres, numerosas e belas plumagens e outras rariudades, como presentes que eles enviavam ao Rei nosso Senhor. E o dito chefe Arosca e os seus esperaram a partida do navio, fazendo o Capitão jurar que voltaria dali a vinte luas; e na hora da partida o povo todo soltou um grande grito, e davam a entender que conservariam bem a cruz; fazendo o sinal dela com dois dedos cruzados.

 

 

VIAGEM DE VOLTA

 

Dizem também que assim partiram das ditas Índias Meridionais, no dia três de junho de mil quinhentos e quatro, e desde então não viram terra até o dia seguinte ao de São Dinis [10 de novembro], tendo ocorrido diversas fortunas e tendo sido atormentado por febre maligna, que atacou vários do navio e matou quatro, a saber: Jean Bicherel de Pont-ç’Evêque, cirurgião do navio; Jean Renoult, soldado de Honfleur; Stenoz Vennier, de Goneville-sur-Honfleur, valete do capitão; e o índio Namoa.

 

E foi posto em dúvida se devíamos batizá-lo, para evitar a perdição de sua alma; mas o dito senhor Nicole dizia que seria profanar o batismo em vão, já que o dito Namoa não conhecia a crença de nossa Santa Madre Igreja, como devem saber os que recebem o batismo tendo a idade da razão; e acreditamos no senhor Nicole, como sendo o mais sábio do navio. Entretanto, depois ele teve escrúpulos; de modo que, estando doente por sua vez o jovem índio Essomericq, e em perigo, foi, a seu conselho, batizado; e administrou-lhe o sacramento o dito senhor Nicole, e foram padrinhos o dito de Goneville, Capitão, e Antoine Thiéry; e, no lugar da madrinha, tomou-se Andrieu de la Mare como terceiro padrinho; e recebeu o nome de Binot, que era o nome de batismo do Capitão: foi no dia quatorze de setembro que isso se fez. E parece que o dito batismo serviu de remédio à alma do corpo, porque depois dele o índio melhorou, sarou, e está agora em França.

 

Dizem que as ditas doenças provinham de estarem gastas  e fedorentas as águas do navio, e também do ar marítimo, como puderam verificar, já que o ar da terra e carnes e águas frescas curaram todos os doentes. Razão pela qual, cientes da causa de seu mal, todos desejavam a terra.

 

Ora, passado o Trópico de Capricórnio e medida a altura, achavam estar mais afastados da África do que do país das Índias Ocidentais onde, desde há alguns anos, homens de Dieppe e de Saint-Malo assim como outros normandos e bretões vão buscar madeira para tingir de vermelho, algodão, macacos, papagaios e outras mercadorias: de modo que, como o vento de leste, que eles tinham notado ser costumeiro entre o dito Trópico e o de Câncer, para lá os empurrava, foi deliberado por unanimidade que se buscasse aquele país, sobretudo para carregar as ditas mercadorias e assim compensar as despesas da viagem.

 

E ali chegaram no dia seguinte ao de São Dinis, como se disse acima.

 

Também dizem que lá encontraram índios rudes, nus como vindos do ventre da mãe, homens e mulheres; pouco tinham cobrindo sua natureza; o corpo pintado, sobretudo de negro; lábios furados, os buracos guarnecidos de pedras verdes bem polidas e encaixadas; cortados em vários lugares da pele, aos lanhos, para parecerem mais garbosos; sem barba, cabeça meio raspada. De resto, cruéis comedores de homens; grandes caçadores, pescadores e nadadores; dormem pendurados em leitos feitos como redes, armam-se com grandes arcos e clavas de madeira, e não tem nem Rei nem chefes: pelo menos não viram sinal deles.

 

Quanto ao mais, habitam um belo país, de bom ar, terra fértil em frutas, pássaros e animais; e o mar tem muito peixe, de espécies diferentes das da Europa. E fazem seu pão e sua bebida com certas raízes.

 

Dizem ainda que nos lugares do dito país onde aportaram já tinham estado cristãos, como se via pelas mercadorias da Cristandade que os ditos índios possuíam: assim, não estavam espantados de ver o navio; e entretanto temiam sobretudo os canhões e os arcabuzes.

 

E tendo bravamente descido à terra, enquanto alguns dos companheiros pegavam água, os outros estavam ali sem armas e sem temor de nada, foram traiçoeiramente atacados por aqueles índios maus, que mataram um pajem do navio chamado Henry Jesanne, capturaram e levaram para o mato Jacques l’Homme, apelidado de La Fortune, soldado, e Colas Mancel, marinheiro, todos de Honfleur; e foram esses dois coitados perdidos, sem que se pudesse dar-lhes reconforto.

 

Além deles estavam ainda em terra quatro homens, que ganharam a barga e fugiram, todos feridos, menos um; e um deles morreu assim que subiu ao navio: e este era o senhor Nicole Le Febvre acima citado que, pela curiosidade de que estava cheio, tinha descido à terra: e foi por todos pranteado, como merecedor de melhor ventura; pois ele era virtuoso, afável e sábio.

 

Também dizem que esse caso lamentável fez com que deixassem o lugar daquele mau encontro, e subissem a costa até umas cem léguas acima, onde encontraram índios de aparência semelhante: mas destes não receberam nenhum mau trato; se eles tivessem maquinado algo, não teriam conseguido realizar, porque o caso precedente fazia com que não se tivesse mais confiança.

 

E ali, durante sua estada, o navio foi carregado de víveres e de mercadorias do dito país acima declaradas, cuja quantidade está contida em detalhe na queixa depositada na Justiça contra aqueles que pilharem o navio: referir-se à mesma. E teriam as ditas mercadorias compensado os gastos da viagem, e além disso teriam dado bom lucro, se o navio tivesse chegado a bom porto.

 

Também dizem que partiram do dito país entre o dia de São Tomás [21 de dezembro] e o dia de Natal de quinhentos e quatro, tendo capturado dois índios, que eles pretendiam trazer para a França; mas já na primeira noite eles mergulharam no mar, estando então o navio a mais de três léguas da costa; esses malandros são tão bons nadadores que tal trajeto não os intimida.

 

Também dizem que, no percurso, nada viram digno de nota além do que tinham visto na ida, exceto que sete ou oito dias depois de sair do canal viram uma ilhota desabitada, coberta de florestas verdejantes, de onde vinham milhares de pássaros, tantos que alguns vieram pousar nos mastros e cordagens do navio; e aí se deixavam agarrar. E pareciam os ditos pássaros volumosos com as penas, mas depenados eram de pequena corpulência. 

 

E depois de cinco semanas, após muitos bordejamentos, com um vento de sudoeste ultrapassaram a Linha, e reviram a Estrela do Norte.

 

Depois tiveram ventos variáveis, e algumas tormentas. E se acharam um mar cheio de ervas, com grãos redondos como ervilhacas ou algo semelhante, ligadas por longos filamentos; e o mar é ali tão profundo que, tendo lançado a sonda, não se achou fundo.

 

E afinal, acreditando estar apenas na altura das ilhas Canárias, avistaram os Açores, e ancoraram na ilha do Faial no dia nove de março passado; e lá arranjaram víveres e outras coisas que necessitavam. Os ditos Açores são habitados por portugueses.

 

E no mar foram obrigados por tempestades a fazer escala na Irlanda, a fim de tapar alguns buracos do navio.

 

E tendo resposto as velas, navegaram felizmente até o sétimo dia de maio passado, quando, nas vizinhanças das ilhas Jersey e Guernesey, quis a infelicidade que encontrassem um corsário inglês, chamado Edouard Blunth, de Plymouth: contra o qual decidiram, de comum acordo, defender-se; o que foi feito, até que por detrás das ditas ilhas apareceu um outro bandido espinhoso, francês de nação, a saber, o Capitão Mouris Fortin, bretão, já condenado por piratarias. E então, por não estarem em igualdade de condições, foi preciso ir dar à costa, onde os homens foram em parte salvos, e o navio despedaçado e perdido com tudo o que nele havia, afora o que os ditos corsários tiveram tempo de saquear antes que o navio acabasse de afundar.

 

E houve homens mortos e matados, doze pessoas, e quatro que morreram depois na ilha, de seus ferimentos, tudo como consta em pormenor na queixa e reclamação que depositaram em juízo o dito Capitão de Gonneville e seus companheiros; referir-se à mesma.

 

E os nomes dos defuntos são: Nollet Epeudry, piloto, morto por um tiro de canhão; Jean Davy, e Perrot, filho do dito Jean; Robert Valllasse; Guillaume Du Bois; Guillaume Marie; Antoin Pain; Cardin Vastine; Jacques Sueur; o irmão do dito Jacques, chamado Henry; Robert Mahieu; Claude Verrier; Andrieu de Rubigny; o bastardo de Colué; Jean Le Boucher; e Marc Des Champs: todos de Honfleur e Touques, ou dos arredores.

 

E na ilha ficaram sabendo os nomes dos ditos corsários, e os males e piratarias que eles costumam praticar nas redondezas e alhures,

 

Também dizem que na ilha, depois que os feridos melhoraram, passaram ao porto de LA Hougue, onde deixaram três enfermos, a saber Pierre Toustain, Pierre de la Mare e o senhor de Saint-Clerimonies.

 

E os demais vieram por terra até Honfleur, onde chegaram no dia vinte de maio próximo passado, em número de vinte e oito, abaixo nomeados, a saber: de Goneville, Capitão; os ditos Thiéry e De la Mare, burgueses; os dois portugueses; o senhores Potier, Du Mont, De la Rivière, Du Ham, e De Bois-l-Fort, todos jovens aventureiros de Honfleur; Jean Cousisn, o mais velho, oitro chamado o Jovem, Claude Mignon, Thomas Bourgeoz, Alexis l’Amy, Collas Vallée, Guillaume Le Duc, Thomas Varin, Jean Poullain, Gilles Du Four, Robert Heuzé, Liénard Cudorge, Henry Richard, Jacques Richard e Jean Bosque, todos do ofício do mar; Liénard Cavalier e Thomas Bloche, pajens.

 

E mais o índio Essomericq, aliás Binot, que em Honfleur e por muitos lugares de passagem era muito bem olhado, por não ter jamais havido em França personagem de tão longínquo país; estando as pessoas da cidade contentes por verem seus compatriotas retornados de tal e tamanha viagem, e pesarosos pelos desastres advindos quase no limiar da casa.

 

Também dizem que para fins de, com a ajuda de Deus, obter reparação, eles e os burgueses que tinham participação no navio depositaram suas queixas e artigos na Justiça.

 

E que a gente do Rei nosso Senhor que os recebeu teria requisitado, pela raridade da dita viagem, e em razão da ordens da Marinha estipulando que se depositasse em juízo diários e declarações de todas as viagens de longo curso que o dito Capitão e o companheiros assim o fizesse: ei por que, obedecendo à Justiça, o capitão de Goneville e os ditos Andrieu de la Mare e Antoine Thiéry, que foram os chefes presentes durante toda a viagem, não podendo, a seu pesar, depositar nenhum de seus diários, já que estes se perderam com o navio, fizeram a presente declaração; dando fé de tudo o que foi dito à Justiça e, como tal a depositaram, neste dia dezenove de junho de mil quinhentos e cinco; e a assinaram.

 

 

 

 

 



[1] Nome antigo dos países da África do Norte.

[2] Couchu: forma antiga da palavra cuscuz.

[3] Escorbuto.

[4] Atobá. Plumagens brancas com remígios de um negro aveludado.

[5] Aqui Binot Palmier de Goneville plantou este objeto sagrado, associando em paridade a tribo com a linhagem normanda.

domingo, 17 de julho de 2022

25 - POPULISMO DE DIREITA NO BRASIL / RIGHT-WING POPULISM IN BRAZIL

 



Nos últimos sessenta anos, a direita chegou ao poder pela via eleitoral em apenas três oportunidades, todas elas com candidatos que se diziam outsiders e possuíam uma base eleitoral conservadora e uma agenda econômica liberal:

  

1. Jânio Quadros (UDN-PTN-PDC-PR-PL), na campanha de 1960, prometeu que varreria a corrupção e a inflação. Governou por meio de bilhetinhos, demonstrando seu desprezo pela burocracia. Não durou sete meses, renunciando em agosto de 1961 e desencadeando uma das maiores crises institucionais da República, que culminaria com o golpe de 1964 e 24 anos de ditadura militar.

  

2. Collor (PRN), na campanha de 1989, apresentou-se como o “caçador de marajás”, também prometendo o combate à corrupção, à inflação e a realização de privatizações. Governou por apenas dois anos e meio, renunciando em dezembro de 1992.

 

3. Bolsonaro (PSL), na campanha de 2018, surgiu com um discurso antipolítica e antipolíticos, na esteira das investigações e condenações da Operação Lava Jato. Mantem-se o mesmo discurso de combate à corrupção. Como a inflação já não fosse um problema, prometeu-se, mais uma vez, a diminuição do Estado, com privatizações. Elegeu-se e agiu conforme disse que agiria: um agente da destruição das políticas públicas de educação, meio-ambiente, direitos-humanos e saúde, entre outras; tensionamento da harmonia entre os três poderes da União, Legislativo, Executivo e Judiciário. Promoveu pelo menos uma tentativa séria de rompimento da institucionalidade democrática, em sete de setembro de 2021, quando, após dois discursos golpista, um em Brasília, outro em São Paulo, de algum modo foi lembrado da sua insignificância, se acovardando, se recolhendo, por fim, assinou uma carta escrita pelo ex-presidente Michel Temer, colocando-se como refém do Centrão, mas, diferentemente dos outros dois modelos apresentados acima, garantiu-se até o término de seu mandato - pelo menos até o dia em que hoje escrevo, afinal, há outras formas de sair da vida e entrar para a história do Brasil que não sejam a renúncia e os golpes bem sucedidos, como comprovam o malogrado atentado contra Prudente de Morais e o suicídio de Vargas. Aguardo as cenas finais dessa história.

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In the last sixty years, the right has come to power by electoral means on only three occasions, all of them with candidates who called themselves outsiders and had a conservative electoral base and a liberal economic agenda:


1. Jânio Quadros, in the 1960 campaign, promised that he would sweep away corruption and inflation. He ruled by means of little notes, demonstrating his contempt for bureaucracy. He did not last seven months, resigning in August 1961 and triggering one of the Republic's greatest institutional crises, which would culminate in the 1964 coup and 24 years of military dictatorship.

 

2. Collor, in the 1989 campaign, presented himself as the “marajás hunter”, also promising to fight corruption, inflation and pursuing the ideal of the minimal State. He ruled for just two and a half years, resigning in December 1992.

 

3. Bolsonaro, in the 2018 campaign, came up with an anti-political discourse, in the wake of the investigations and convictions of Operation Lava Jato. The same discourse on combating corruption remains. As inflation was no longer a problem, it was promised, once again, the reduction of the State, with privatizations. He was elected and acted as he said he would: an agenda for the destruction of public policies in education, the environment, human rights and health, among others; tensioning the harmony between the three powers of the Union, Legislative, Executive and Judiciary. He promoted at least one serious attempt to break democratic institutions, on September 7, 2021, when, after two coup speeches, one in Brasília, the other in São Paulo, he was somehow reminded of his insignificance, cowering and withdrawing. Finally, he signed a letter written by former president Michel Temer, placing himself as a hostage to the Centrão, but, unlike the other two models presented above, he guaranteed himself until the end of his term - at least until the day when today I write, after all, there are other ways to get out of life and enter the history of Brazil other than the resignation and the successful coups , as evidenced by the unsuccessful attack against Prudente de Morais and the suicide of Vargas. For now, I await the final scenes.

sábado, 23 de maio de 2015

24 - COSMOCONSCIÊNCIA






Eu tinha 17 anos e iniciava o último ano do ensino médio. Enquanto quase todos os meus colegas se debatiam com que carreira profissional escolher e, consequentemente, que curso universitário seguir, eu já estava certo do que estudaria: Política. Apenas a ação coordenada dos homens em torno de um líder pode mudar seu próprio destino e melhorar suas condições econômicas e sociais. Tal convicção, dura, reta e destinada ao desmonte, foi construída no processo de conhecer a mim mesmo pelo estudo da filosofia. Da filosofia da religião fui migrando nos dois anos anteriores para a filosofia política, impulsionado pela minha tendência às humanidades. E foi aí que me achei confortável na companhia de Hobbes, Rousseau, Marx, Weber, Gramsci e Raymond Aron. 

Eu passara as férias escolares lendo os clássicos e discutindo com amigos afeitos ao tema as questões de poder no Brasil e no mundo. Os intervalos das aulas eu sentava com os professores de história, geografia e filosofia para pedir recomendações de leituras e testar meus pontos de vista. Gastava todas as minhas horas de estudo dedicando-me a isso. Em compensação, naufragavam minha matemática, física e química. Também eu não mais sabia o que conversar com as meninas, pois eu sempre conduzia a conversa para discussões sobre partidos políticos, aumento de impostos e projeção internacional do país. Às vezes, tentando ser descontraído, eu acabava falando de sexo muito diretamente, sem as cortinas e meia luzes que tornam o tema mais excitante e menos vulgar. Talvez eu já soubesse o que quisesse ser quando crescer, mais ainda sabia muito pouco sobre a minha posição como homem diante da mulher. 

Sem namorada, vez ou outra eu comprava a Playboy ou a Sexy com o dinheiro que eu recebia de mesada. Num tempo em que a internet era discada e muito lenta, as fotos e vídeos que divertiam os jovens demoravam muitíssimo a carregar e, às vezes, não compensavam a espera. Melhor comprar aquelas revistinhas mesmo. Naquela tarde, sexta-feira, meados de junho de 200..., despedi-me de todos meus colegas, esperei um pouco sentado no banco da praça, para evitar posteriores encontros inoportunos, e dirigi-me à banca de jornal. Fiquei por ali, dando uma disfarçada, fingindo interesse em alguma outra coisa. O dono da banca já me conhecia e, apontando uma sacola preta, disse-me– Já guardei pra você. Eu morria de medo daquilo, afinal aquele comércio pornográfico me era proibido. Peguei a sacola e coloquei-a dentro da mochila, deixando muito discretamente em cima das caixas de chicletes e balinhas, sobre o balcão, o dinheiro devido. 

Mas naquela de dissimular minha fraqueza pelo prazer sexual estético, passei os olhos por uma revista diferente, que estava sendo lançada naquele mês. A reportagem principal, anunciada com a figura de um robozinho circulando entre as hemácias, era sobre nanotecnologia, algo que meu professor de biologia havia mencionado recentemente. Fiquei curioso com o tema, dei uma folheada e me encantei também com o capricho da edição. Juntei as moedinhas espalhadas pelos bolsos da mochila e resolvi levar aquela revista também. Voltei para casa sentindo aquele cheirinho de papel recém impresso, com imagens muito coloridas, excitantes. A Scientific American Brasil nº1 animou-me muito mais que a Playboy daquele mês. 

Não foi a matéria sobre nanotecnologia que me prendeu durante horas àquela revista. Numa das primeiras páginas, naquela parte de textinhos curtos sobre temas variados, havia uma coluna com o seguinte título No Coração da Escuridão Cósmica, tratando sobre o modelo ecpirótico da origem do cosmos, concebido em 2001 por Paul Steinhardt da Princeton University e Neil Turok da Cambridge University. A teoria descreve um universo "explodindo na existência" não somente uma vez, mas repetidamente no tempo. 

Essa proposta de inúmeros Big Bangs e um ciclo de universos mexeu profundamente com o meu estar no mundo. De repente meu tempo não era o Tempo, apenas mais um entre vários possíveis; minha existência tornava-se um acidente sem propósito nenhum; se Deus era senhor deste universo, um dia também lhe chegaria o fim – ou será que havia um Deus maior? As clássicas perguntas Onde estou? Quem sou eu? perderam o sentido psicológico e pequeno no contexto da minha vida e ganharam a dimensão de um super cosmos. Naquela tarde, sexta-feira de medos de junho de 200..., minha vida mudaria para sempre. Foi neste dia em que tive minha revelação científico-religiosa, minha epifania, minha cosmoconsciência. 

Reli o textinho. E de novo. E mais uma vez. Em menos de uma hora eu já o sabia de cor. Porém, muitos dos termos ali minha inteligência não alcançava o significado, apenas intuía e, auxiliada pela imaginação, tentava fechar o raciocínio diante das falhas de compreensão conceitual. Para além da imaginação, recorri às antigas enciclopédias e tive a paciência de baixar, muito vagarosamente, alguns artigos da internet, inclusive em inglês. Fui devorando tudo aquilo entremeando o entendimento físico com o sentimento de ser. Fui adquirindo uma consciência maior da minha insignificância, da inexpressividade da minha existência, do ridículo dos anseios e das vaidades da política. E quanto mais eu me via menor, mais eu me sentia maior. E naquela tarde, que logo foi entrando na noite, eu me sentia nada, mas também me sentia tudo. Anulado, senti-me vivo.

Outras vezes eu experimentaria felicidades imensas na minha vida, mas nenhuma equiparar-se-ia com esta que ora relembro. Depois de algum tempo, entre sentimentos extremos e entendimentos inéditos, comecei a pular e a rir bem alto no meu quarto, de modo que com as pontas dos dedos eu conseguia alcançar o teto (nunca mais eu conseguiria fazer aquilo). Aos pulos acrescentei giros e às gargalhadas lágrimas, num êxtase de cerimônia sufi. Por quase uma hora permaneci neste transe ancestral. Exausto deixei-me cair. Deitado, de bruços, com os lábios beijando o chão; o vapor da minha respiração agitada se condensando na cerâmica fria; silêncio; silêncio; troco de posição e testemunho o branco teto ir se desfazendo no escuro do espaço, no escuro do tempo; silêncio; silêncio; um silêncio interrompido com sons de batida de um tambor primitivo – meu peito era a caixa de reverberação e minha mão fechada a ponta das baquetas. Era o som do meu coração iluminado ecoando o coração das trevas do cosmos, provando-me vivo; vivo mas imensamente pequeno, um acaso do universo; um universo entre muitos universos. Adormeci.

O toque estridente e insistente do telefone despertou-me. Eu estava todo molhado de suor e tive medo quando, em apenas dois segundos, me dei conta que sabia do princípio e do fim, do antes e do depois; dentro e fora do tempo, para sempre e nunca mais. Mas foi em Amanda me dizer, do outro lado da linha, Oiiiiiii!!!, para eu me esquecer de tudo. Muitas décadas seriam necessárias para que eu reaprendesse um quase nada daquilo que me foi revelado em quarenta minutos vivendo dentro de um sonho estranho de Deus.

sábado, 16 de maio de 2015

23 - TARDE VOS AMEI




Tarde Vos amei,
ó Beleza tão antiga e tão nova,
tarde Vos amei!
Eis que habitáveis dentro de mim,
e eu, lá fora, a procurar-Vos!

(Santo agostinho)


No alto do monte Moriá não se diria de qualquer filosofia que pudesse amenizar o desespero daquele pastor. Até ali foram três dias de desértica viagem remoendo os obscuros propósitos dos céus. Cortada a lenha e ascendido o fogo, na iminência de sacrificar seu filho, o velho teve as mãos suspensas pelo Anjo do Senhor - Abraão! Abraão! Até aquele derradeiro segundo, antes que a lâmina da faca pudesse rasgar a pele de Isaac, o patriarca vivia sua angústia aferrado à sua fé: Deus proverá. O salto sobre o abismo que a crença religiosa nos solicita, ensinou-nos Kierkegaard, não é racional e vai além da ética e da moral. Jogamo-nos no mistério do divino impulsionados pelo absoluto Amor ao Absoluto. Sem palavras, muitas lágrimas; uma dolorida alegria silenciosa.

Durante um feriado prolongado, enclausuramo-nos no prédio do asilo da cidade, que acabara de ser reformado e ainda possuía dois grandes salões vagos. Em um deles ficaram os meninos, noutro as meninas. Para muitos daqueles jovens crismandos, a maioria entre seus treze e dezesseis anos, era a primeira vez que se encontravam longe de casa por tanto tempo, experimentando a liberdade da vigília dos pais. Estávamos ali para rezar e refletir; fazer um profundo exame das nossas falhas e, caso sentíssemos o nosso coração tocado, deveríamos, ao final do encontro, declarar nossa intenção de continuarmos participando da eucaristia, recebendo a hóstia consagrada.

Éramos acordados pelos sinos às cinco e meia da manhã e conduzidos para o banho. Três levas de 15 garotos, todos nus, debaixo duma água geladíssima. Às seis e meia deveríamos estar na capela para a abertura dos trabalhos e para a primeira missa do dia. Às oito era o café e às nove começavam as palestras e gincanas e leituras. Almoçávamos, mas tínhamos de lavar a louça e limpar a cozinha e a sala de refeições. Depois seguíamos para o exame coletivo de consciência. Relaxávamos com o lanche que era acompanhado por violão e cantos religiosos, ao que se seguia a elaboração de uma pequena peça teatral que deveria ser apresentada na última celebração do evento. À noite, depois da última missa do dia, o jantar seguia a mesma rotina laboral do almoço, acrescida da ansiedade de mais um banho frio antes de dormir. Houve quem, apenas se enrolando na toalha e molhando os cabelos, enganasse os monitores e, depois da primeira traumática chuveirada da manhã, passasse o restante do retiro sem saber o que fosse água e sabão.

Não bastaram o gelo da água nem a disciplina e controle ostensivo dos catequistas e padres; nem mesmo o olhar punitivo de Deus. Quando as luzes se apagavam às dez horas, depois de um breve silêncio, o quarto dos rapazes lentamente ia sendo tomado por uns risinhos maliciosos, umas frases que não eram orações, e evocações de mulheres que não eram santas. Por debaixo das cobertas, Bethânia, Andréia, Gabriela e Juliana eram as nossas colegas mais frequentemente imaginadas e sussurradas em meio a gemidos e suspiros. Naqueles minutos que se seguiam ao início da escuridão, permanecíamos todos deitados sobre nossos finos e embolorados colchões. Mas logo um e outro se encorajavam e se erguiam para conversar com um rapaz que se deitara mais distante. As palavras que eram ditas por entre dentes, logo ganhavam toda a boca e, subitamente, sem nos intimidarmos, encontrávamos em guerra de travesseiros, exibicionismos sexuais e até mesmo lutas corporais. Não houve uma noite em que as luzes tiveram de ser acesas para que nos fosse imposta nova ordem, sob ameaça desesperada de excomunhão. Durante as três noites que passamos ali, chorei sem que ninguém me ouvisse.

Eu realmente estava procurando a Deus.  Em segredo, considerando a minha grande devoção, a diretora dos catequistas confidenciou-me que eu era um dos poucos jovens que realmente estava pronto para ter a maravilhosa experiência de estar com Ele profundamente. Alegrei-me com esta promessa, vivi o que me pediram para viver, mas eu nada sentia. Tomei os banhos frios e comi aquela comida ruim sem nada reclamar; esforcei-me ao máximo para não me entregar à carne e a mulher alguma – embora existisse Juliana, ah! Juliana! -; fui a todas as missas, jejuei quando isso foi nos dado como opção; li todos os versículos recomendados; confessei meus pecados aos padres, mesmo os mais leves, que são os mais ridículos e constrangedores. Eu tinha a admiração do meu esforço por parte dos instrutores de religião; tanto que me fizeram representar Jesus no teatro da última missa. Mas eu não sentia nada. Enquanto eu vi alguns daqueles agitados meninos terem a sua face e coração serenados pelas palavras do Senhor, eu parecia ser o único a adquirir um grande vazio.

Agravou-se meu estado quando, mesmo cada vez mais distanciado da antiga crença, confirmei meus batismo na cerimônia da Crisma, no final de semana seguinte. A situação tornou-se crítica poucos meses depois, em tempo de sucessivas súplicas a Deus pelo amor de T., quando fui por ela abandonado à amizade, que era a única forma que ela encontrara de me amar. Deus não estava comigo? Ou era eu que não estava com Deus? Estaria o Altíssimo me pedindo para, no mesmo altar de Isaac, sacrificar T. em prova da minha dedicação a Ele? Deus não poderia ser tão mesquinho... Ela era inegociável, apenas uma mulher, mais nada. E tinha de ser minha! Mas não era a questão dela ser apenas uma mulher. Era a construção do meu conceito e da experiência do Amor que estava em jogo. Não é possível que aconteça o salto de fé sem que antes se caminhe longamente no Amor. E a estrada do amor ao próximo e a um possível Deus, começa com o primeiro passo do amor próprio. E como só amamos o que conhecemos, fui me conhecer.

terça-feira, 12 de maio de 2015

22 - SEM SENHORA NEM SENHOR


 

Sem uma nem outra, procurei por terceiras; nenhuma me procurava. Restava-me o consolo de alguns amigos – mas amigos que estão no mesmo labirinto servem apenas para nos dar o inútil consolo de que estou tão perdido quanto eles! Por fim, apegamo-nos a Deus, companheiro com quem andava em bom diálogo ao longo do dia, todos os dias, desde as minhas mais remotas lembranças: minha mãe, com todos os seus cabelos ainda pretos, o terço na mão diante de um altar florido, rezando o rosário durante horas, com uma felicidade calma no rosto. Mas o Senhor não estava sendo suficiente para mim. Começava a correr mais sangue ao meu sul do que ao meu norte. O foco da minha mente fixava-se na boca da mulher, não no sorriso; no suor, não no perfume; tentava adivinhar pelo ritmo da respiração dela como ela gemeria se estivesse entre meus braços. E quanto mais eu abraçava minha deusa imaginária, buscando torná-la real, mais meu Deus real desfazia-se em mitologia. Quanto mais procurava sair de mim, buscando um sentido no exterior feminino, mais desmoronava-se o meu interior divino. Fui restando apenas homem, macho, apenas barro; sem forma, rumo, sem Eva.


Essa desconstrução da minha relação com o sublime não se deu apenas por obra do descaso da mulher para comigo, mas também pelo meu interesse crescente nas humanidades e na ciência. À medida que eu intensificava os estudos colegiais, foram desbotando as cores da religião que institucionalizara Deus no meu círculo social, na minha família e na minha mente. Deixei de enxergar a Igreja como templo do sagrado, vendo-a mais como um Ministério das Relações Celestiais, onde a política tinha primazia sobre o amor, o poder era mais importante que o perdão e o Papa poderia destituir o Imperador como se isso fosse a vontade do Altíssimo, desconsiderando-se a vontade do povo. Havia uma ditadura divina em que a tortura poderia ser chamada de inferno e pecado. Eu havia sido longa e suavemente educado nessa disciplina do medo revestido de proteção. Meu Deus servia apenas pra me afastar do martírio que ele potencialmente criara pra mim; e aumentando a minha insatisfação, Ele parecia não ter poder para me abrir as portas da mulher. Entristeci. Duvidei. Fiquei sozinho. 



Buscando àquela que me salvaria, perdi a Deus e a mim mesmo. Como é desértico e desassossegado o caminho de quem vai apenas escutando os próprios passos. Como é sem caminho a jornada em busca da própria alma. É como ter que reinventar os dez mil anos de civilização, no menor tempo possível, sob pena da perenidade da falta de sentido comprometer nossa sanidade e tranquilidade; é como ter que reinventar-se a si mesmo. Tornamo-nos o nosso próprio caminho e vamos nos pisando, marcando em nós nossos tropeços, sentindo nosso próprio peso, nossa falta de jeito em pisar com a ponta dos pés a estrada da existência. 

Desacreditado das lições do céu sumério, babilônico, judaico e cristão, não quis me entrincheirar em uma nova religião. Os fantásticos acontecimentos de setembro de 2001 deixaram claro que não apenas o cristianismo usava a relação dos homens com Deus como forma de incitação da guerra sacralizada. Ao longo dos séculos, todas as crenças se apropriaram sistematicamente do divino para legitimar a violência como forma de alcançar e manter o governo dos homens. Com esta verdade, ao menos uma questão pacificou-se em mim: não era de Deus que eu me afastara, mas sim da antropomorfização e socialização que lhe conferimos. E isto, que seria uma solução, tornou-se uma falta de ar. Como eu poderia novamente abraçar algo que não mais tinha braços? Como eu poderia contemplar os olhos paternais de quem não mais tinha rosto? Como eu poderia reencontrar alguém que não era mais ninguém? 

Os luminosos caminhos da razão claramente nos levam para a escuridão das incertezas. Os indesvendáveis caminhos da fé nitidamente nos conduzem para a verdade absoluta. Não seria mais cômodo reassumir sem contestação a antiga crença? Eu não deveria concordar com Santo Agostinho para quem a solução seria crer para compreender? Ou então, se eu me tornasse um deísta, como Voltaire, já não seria um avanço? Aliás, não seria até mesmo mais seguro do que levar adiante aquela dúvida sobre o essencial que dá sentido ao princípio e ao fim? Como seria meu além-vida se eu estivesse errado? Quente e sulfúrico? Melhor aderir a Pascal: na dúvida, creia! Porém isso me parecia uma grande covardia. Aprovaria Deus os que n’Ele creem por temor e não por amor? Enfim, teria mesmo Deus a sua própria justiça, ou seria Ele a Justiça Em Si? 

A investigação dessas metafísicas não tem ponto final, apenas interrogações. Eu não quis facilitar a minha vida voltando a me ajoelhar diante nos velhos bancos das Igrejas. Contudo, foi tornando-se muito desgastante pessoal e socialmente aquela busca. Parentes mais próximos e conhecidos começaram a me direcionar um olhar de pena, querendo me reprovar com alguma dose de compaixão com que foram doutrinados. Não pisei atrás, mas também não mais quis caminhar sozinho. Iniciei uma longa conversa, que dura até hoje, com aqueles que trilharam o mesmo caminho da dúvida capital. Na prisão conceitual e sentimental criada por mim mesmo, como para Boécio, restaram-me as consolações da filosofia e da ciência.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

21 - BEIJOS, T.




T. era linda e sabia disso. Nos olhos fervilhava uma inteligência criativa; a boca declarava em sensualidades de dentes e lábios e língua aquilo que o resto do corpo aflorava em seios redondinhos, quadril largo e cabelos negros ao meio das costas. Não era vulgar. Era um anjo que se equilibrava entre a disciplina do estudo e as seduções da juventude. Todas essas impressões reforçavam-se ainda mais quando se trata da primeira pessoa que você vem a conhecer no primeiro ano do curso colegial. Eu já estava sentado, à espera do início da primeira aula semestre, quando entrou apressada pela sala essa garota: mal deixou os livros e cadernos sobre a carteira dela, a pilha de material escolar escorregou e veio ao chão. Rapidamente pus-me a ajudá-la. Ela abriu um sorriso inesquecível que expressava o agradecimento e o constrangimento daquele evento.


Depois dos doze anos de idade, os menores incidentes com o sexo oposto podem dar ensejo ao início de um grande encantamento – que acabam se tornando as mais belas idealizações de outro ser humano que alguém é capaz de fazer ao longo da sua vida. Há quem se apaixone por quem lhe pise no pé numa valsa debutante; por quem lhe derrube o lanche no recreio ou por quem, de tão tímido, nunca lhe diz um oi. Alguns anos antes daquele dia inaugural do colegial eu convivi com uma menina chamada D., cujo nome todos sabíamos não por ela, mas pela chamada que os professores faziam dos alunos conferindo a presença de cada um em sala de aula. Mesmo nessas ocasiões ela apenas levantava discretamente o braço, nada dizia. Era uma loirinha caipira do interior de Santa Catarina. Era duma beleza erótica demais pra pouca idade que tinha e que nem todos os meninos percebiam. Dizia-se que por ter um sotaque carregado do qual fora vítima de gozação anteriormente, preferia ficar calada; outros diziam que ela não falava português, apenas alemão. Eu nunca soube sua verdadeira história porque nunca pude ouvir sua voz. Ela nunca me disse nada, mas pelo seu silêncio eu permaneci apaixonado por três anos. 

Foi um amor sem palavras, mas não sem mãos e beijos. Amor escondido como todo primeiro amor, mas coletivo. Compartilhei-a com outros dois colegas meus, ao final das aulas, na curva escura da escada da cantina da escola. Alternávamos os dias da semana e fingíamos não saber um do outro. D. foi nossa lição inicial sobre a mulher. Ela, por não falar nada também não era muito falada. Saiu da escola cheia de mistérios, mas depois de anos com seus pequenos meio sorrisos substituindo as palavras, todos tinham em conta que ela era uma espécie de santa. 

T. não tinha as aparentes virtudes de D.; era fatal e manteve-me sob seu signo por mais tempo que qualquer outra conseguiria. Foi ela a minha estátua de mármore eterna, meu mais sofrido aprendizado do feminino. Algumas semanas depois de nosso primeiro contato já almoçávamos juntos nos dias que havia aulas à tarde. Falávamos dos livros que líamos e das músicas que ouvíamos, sentados num banquinho no jardim da escola, em meio à algazarra de outros grupos de rapazes e garotas. 

Eu lhe presenteava chocolates e ela me beijava o rosto e dava gargalhadas de prazer. Como eu era feliz quando entre uma frase e outra eu lhe tocava o braço ou pousava-lhe no joelho minha mão. Mas o que eu queria mesmo era entrelaçar os meus dedos aos dela e sentir o mais perto possível o perfume barato que ela sempre usava. Eu ainda não tinha me dado conta de como em tão pouco tempo eu já a amava e a admirava, como eu a queria só para mim. Também não me dera conta que ela já não era, nem nunca seria, apenas minha. Com frequência cada vez maior garotos cheios de espinha vinham interromper nossas conversas ou ela mesmo se dispersava com acontecimentos ao nosso redor. Fui ficando sozinho com o meu amor passarinho, frágil e rápido; invisível na mata, dele só se escutando fino assobio. Então quis dar forma ao meu canto já triste. Desolado pela ausência dela, escrevi um fatídico bilhetinho apaixonado, diploma de todo amor romântico destinado ao fracasso.

Foi o fim. No outro dia ela pediria junto à coordenação da escola pra mudar de turma e nós nos distanciamos tanto quanto um dia estivemos próximos. Eu quis ter chorado, mas não me permiti tal fraqueza; procurei-a na praça da escola, mas, ao me ver, ela apenas esticava aborrecida o canto da boca, abaixava o olhar e, com crueldade, lentamente, ia me dando às costas: os longos cabelos negros, as nádegas firmes, o lacinho sobre o calcanhar da sapatilha rosa. Fiquei sem resposta por dias, até que uma amiga dela me cutucou no meio duma aula de química e me entregou um papelzinho que sentenciava: para sempre seremos grandes amigos! Beijos. T.

Como é difícil, no princípio da juventude, dissociar o amor da amizade e a admiração do tesão. Esses sentimentos se confundem em diferentes pessoas, sejam por homens ou mulheres, e criam uma confusão de gêneros e interesses que ora paralisa e conduz-nos para uma caixa de solidão, ora nos atiça e nos impele para uma festa de beijos, abraços e cerveja. Mas como é prazeroso sofrer nessa idade. A vida ganha maior densidade e até mais importância quanto maior é a dor do encantamento que súbito se desfaz em desdém. Mas há um limite, e o meu foi o dia em que eu a vi sendo amparada do frio de maio pelos braços de um aluno alto, magro e que falava com voz esganiçada. Resignei-me. Entre o primeiro e aquele último passaram-se quatro meses, dois séculos naqueles tempos de esperas mínimas e ansiedades máximas; entre o gênesis e o apocalipse daquela paixão, rompi com Deus.

20 - A CASA ANTIGA DO BREJO



Eu não sabia que atrás das cortinas pesadas daquelas noites de domingo da minha infância havia uma enorme cruz pra nos proteger – e por isso nada acontecia a meu pai, eu concluí depois. Na verdade não era uma simples cruz, era um cruzeiro de madeira, fixado numa base alta e quadrada de pedras e tijolos, à beira de volumoso rego d’água que fazia subir e descer o monjolo, num terreno mais abaixo. Eu também não sabia que na frente deste cruzeiro tinha um pequeno chafariz outrora revestido de pedrinhas brancas redondas; eu não sabia que diante deste chafariz, à sombra da tarde da gameleira mágica, na meia encosta de uma suave colina, havia uma grande casa em ruínas, a casa da minha bisavó. Descobri tudo isso em dia claro, quando fomos eu e meu irmão levados por meu pai para que pudéssemos entrar pela primeira e última vez naquele velho casarão. Era o dia do desmonte, quando se colocaria abaixo 70 anos de memória para aproveitar o que restara da antiga casa e erguer uma morada que pudesse abrigar com mais conforto o peão de fazenda e sua família.

Desde a morte de minha avó, uns cinco anos antes, tentava-se manter a terra produtiva pra que não fosse expropriada para a reforma agrária, num tempo em que os movimentos de “sem-terra” começavam a mostrar sua força. Foi-se engordando como dava o gado ruim que restara de outras eras mais venturosas. Tomava conta de tudo quem chamávamos de Nanico, mas ele era um moreno enorme, magro e forte, de uns 30 anos, com alguns poucos dentes na boca e três filhos para criar. Morava com a esposa, a sogra e o sogro no antigo paiol da propriedade – construção fechada com tábua, elevada do chão, com piso de largas tábuas. De ambos os lados havia um puxadinho também coberto de telhas em que se ergueram entre os mourões paredes de pau a pique delimitando a cozinha, com fogão de lenha também de barro, e o banheiro apenas pra se tomar banho, já que para satisfazer as demais necessidades havia, afastada, uma casinha de adobe sobre uma fossa; entre a casinha e a fossa uma laje de concreto com um buraco no meio, mais nada.

Mas havendo bem em frente ao paiol casarão imponente e vasto, porque morar em habitação tão mal arranjada? Caía sobre si mesmo o casarão. Depois de décadas de glória, sucederam-se alguns anos de abandono – o suficiente para que a casa fosse invadida e pilhada em sua mobília e até mesmo da sua estrutura: algumas janelas e portas haviam sido roubadas; telhas retiradas; parte da decoração do forro furtada. Ademais, aquela casa, dos princípios da década de 1920, fora construída com grossas paredes de tijolos se apoiando diretamente sobre vigas de aroeira que também sustentavam o piso de madeira. Acontece que o peso das paredes de quatro metros de altura, foi deformando as vigas que acabaram cedendo. A falta de conservação, somada ao vandalismo que vinha da cidade, não permitiam que ninguém mais morasse ali naqueles tempos. Como a casa como um todo poderia desmoronar sem aviso, optou-se por salvar a grande quantidade de material ainda utilizável e demolir o símbolo dos melhores tempos de antigamente.

Era uma manhã morna de sábado e eu tinha uns poucos anos. Antes que os pedreiros subissem nas escadas para começarem a descer as enegrecidas telhas francesas, pesados caibros e longas ripas, meu pai abriu as portas do passado para mim e meu irmão. Entramos apenas nós três, nossos passos e olhares conduzidos por uma lanterna. Havia muita, muita poeira e terra, por isso andávamos devagar. A sala de visitas era ampla, com quatro janelões. O teto era bem alto. Meu pai iluminou a parede – era azul clara com desenhos de arranjos de flores distribuídos harmonicamente aqui e ali. O forro também era pintado não sei de que cor e possuía em suas bordas um arremate delicado, em art nouveau. Contigua à sala havia um quarto, lacrado, que quando teve sua porta aberta, depois de um tranco que meu pai teve de dar na fechadura, revelou dois catres de madeira, em que se dormia sobre colchão de palha de milho ou palha de arroz. Retornamos à sala e entramos num corredor que dava para outros dois quartos, cada um de uma cor: um amarelo e outro verde; ambos com os mesmos delicados ramalhetes de flores apagando-se pela parede cujo reboco caía.

Havia cheiro de mofo e urina e durante toda aquela visitação fomos acompanhados pela trilha sonora de ratos que andavam nervosos sobre o forro, bem como éramos assediados por voos rasantes dos morcegos despertados pela nossa invasão. Também zuniam infinitos pernilongos e a toda hora finas teias de aranha eram iluminadas pelos cantos. Meu irmão quis voltar, mas segurei-o pela mão e disse: “somos o Indiana Jones! Vamos!”. E continuamos a expedição, enfiando nossos narizes sob a gola de nossas camisetas. Ao final do corredor abria-se um novo salão. Ali o piso rangia e estalava, com eco – estávamos sobre os porões. Então eu mesmo quis retornar; meu irmão ensaiou um início de choro, que terminou quando meu pai pegou-o e colocou sentado sobre a comprida mesa que estava no meio daquele que era o salão de festas. Pediu para que esperássemos ali, quietinhos; afastou-se e desligou a lanterna. Silêncios e sombras. Nós gritamos aflitos: paaaaaiii!!!!! mas antes que as lágrimas escorressem sobre nossos rostos, abriram-se simultâneas as duas folhas da porta que dava para uma estreita varanda de concreto, apoiada sobre três colunas, mirante sobre o antigo pomar. Por entre a balaustrada da sacada, a luz do sol anestesiou-nos um pouco os olhos, mas, instantes depois, sentimos os cheiros que hoje posso dizer: são o perfume dos meus sete anos.

Pés de abacate, manga, tamarindo, graviola, romã e goiaba; jabuticabeiras inúmeras, laranjeiras de vários tipos e limoeiros em flor; bem diante de nós uma extensão do curral, que cercava a casa aos fundos e à direita da fachada principal; diante do curral, o paiol que abrigava a família do Nanico; atrás, já fora do pomar, nos pastos, erguia-se a árvore mais bonita da minha vida: uma paineira florida de rosa, cujas flores, quando ao chão, atraíam a fome de pequenos e últimos veadinhos que correram por aquele cerrado. Aqueles animaizinhos comiam flores! Ladeando a casa corria o rego d’agua com seriedade, testemunha de todos os tempos e águas que ali rolaram. Escutava-se o zumbido das abelhas e dos marimbondos e, mais assustador, das vespas, mas também cantavam sabiás, canarinhos, pássaros pretos, papagaios, araras, periquitos, coleirinhos e tesourinhas e tantos mais que não sei mais os nomes. De galho em galho ainda se via, com olhos espertos, os saguis nos vigiando e se escondendo. Dali daquela varanda eu vi pela primeira vez os jardins do Gênese.  Mas para aquele cenário seria o primeiro dia do juízo final.

Derrubou-se a maioria daquelas árvores, porque suas frutas ainda atraíam a gente predatória da cidade. Restaram apenas algumas jabuticabeiras, o curral, o paiol, o chiqueiro e os porões do casarão. Toda a beleza natural e arquitetônica se fora no prazo de poucos dias. Quando ali retornamos no final de semana seguinte, havia um imenso vazio na paisagem.


19 - O MENSAGEIRO DAS ESTRELAS




Ambas enviadas em 1º de maio de 1500 a D. Manuel I, o Venturoso, rei de Portugal, a carta de Caminha e um desconhecido relato astronômico de um certo Mestre João dividem a incerteza da importante posição de primeiro registro científico em território brasileiro. Enquanto Caminha traz descrições sobre a fauna, flora e recursos minerais, além de detalhadas observações sobre os indígenas, o relato de Mestre João informa sobre a primeira determinação de latitude obtida no Brasil, em 27 de abril de

1500. Este detalhe dá precedência científica ao trabalho do desconhecido navegador em relação à literatura de Caminha. Sobre a descrição do Cruzeiro do Sul por Mestre João ilustramos com o seguinte excerto:

Ontem, segunda-feira, 27 de abril, descemos em terra, eu e o piloto do capitão-mor e o piloto de Sancho Tovar; tomamos a altura do sol ao meio-dia e achamos 56 graus, sendo a sombra setentrional, pelo que, segundo as regras do astrolábio, julgamos estar afastados da equinocial por 17 graus e portanto ter a altura do pólo 17 graus segundo manifesto na esfera (...) Somente mando a Vossa Alteza como estão situadas as estrelas do sul, mas em que grau está cada uma não pude saber; antes me parece ser impossível, no mar, tomar a altura de alguma estrela, porque eu trabalhei muito nisso e por pouco que o navio balance, se erram 4 ou 5 graus, de modo que não se pode fazer, senão em terra (...) Tornando, senhor, ao propósito, estas Guardas nunca se escondem, antes sempre andam em derredor sobre o horizonte, e ainda estou em dúvida que não sei qual daquelas duas mais baixa seja o Pólo Antártico; e estas estrelas, principalmente a da Cruz, são grandes quase como a do Carro; e a estrela do Pólo Antártico, ou Sul, é pequena como a do Norte e muito clara e a estrela que está em cima de toda a Cruz é muito pequena. 

Kant dizia, ecoando Pascal - O silêncio desses espaços profundos me assombra -, que a única coisa que o encantava eram, além da lei moral interior, as estrelas. Esses dois filósofos não são diferentes da maioria do restante da humanidade, que, ao contemplar o céu, desde as idades mais pretéritas, se espanta e atribue-lhe adjetivos como divino. Mestre João, filho da Renascença, embora talvez cristão, não se contentava em apenas orar aos céus; seu ofício era olhá-lo e decifrá-lo com o objetivo semelhante ao que hoje os nossos cientistas apontam seus telescópios para o princípio do cosmos, ou as câmeras dos satélites para o nosso planeta: localizarmos-nos no espaço, no segundo caso e, no primeiro, no tempo. Apesar de toda poluição luminosa noturna, o espanto e o encantamento persistem, bem como o esforço científico de desmistificar o que a religião e o folclore tornam ainda mais misterioso e belo. 

Há cerca quatrocentos anos o empenho científico de desvendar o orbe celeste ganhou um incremento fundamental com a luneta, o óculo, de Galileu, melhorado, menos de cinqüenta anos depois, por Newton. Não teríamos, porém, feito na cosmologia os progressos de que hoje nos regozijamos - e nos fazem repensar a nossa (des)importância ante o universo -, utilizando-nos apenas desses primeiros instrumentos de observação; tampouco contando apenas com os grandes observatórios das altas cadeias de montanhas conseguiríamos ter sequer a ousadia de tentar desvendar os mistérios da matéria e energia escura, ou, para as pessoas mais práticas, conseguir que nossos aviões chegassem aos seus destinos sem um maior número de acidentes do que costuma ocorrer. Grande parte das facilidades da vida moderna decorre de eventos cuja história, a rigor, completou recentemente 50 anos: as ciência e tecnologia espaciais, com seus foguetes, telescópios, estações orbitais e satélites, são as grandes protagonistas da modernidade.

Não resta dúvida, portanto, que as ciências e tecnologias espaciais são fundamentais para o bem viver da sociedade do século XXI. É certo que o mínimo avanço nas fronteiras dessas ciências exigem um esforço gigantesco de milhares de cientistas em todo mundo; é certo também que, para tais cientistas poderem se dedicar com qualidade ao seu trabalho, não menor esforço é realizado pelos administradores públicos de seus respectivos países, e mesmo por seus representantes em órgãos internacionais. 

O foco da minha coluna na Rede CSF estará justamente na esfera política da questão da exploração espacial, embora eu possa também me aventurar pelos limites da ciência básica deste campo do conhecimento. Sendo mais preciso, apresentarei as linhas básicas da política científica e tecnológica do setor espacial brasileiro, encarnados no Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), desde as suas origens mais remotas, em 1961. Por meio deste trabalho gostaria de apontar insuficiências, gargalos e virtudes que, nos últimos quase 50 anos, levaram este País, de um lado, a uma posição de destaque na constelação dos países tecnologicamente mais avançados, mas, de outro, a acumular fragilidades no tocante à competitividade internacional e a dificuldades de avançar com maior velocidade seu programa espacial. 

O Brasil deve ter um programa espacial à altura de seus desbravadores do céu, como Santos Dummont e o Padre Bartolomeu de Gusmão, bem como de seu objetivos como nação, e o que já conseguimos no setor de aviação civil mostra que podemos ter sucesso em definir uma agenda própria na área espacial. Como diz o mestre Celso Furtado, “na crise de civilização que vivemos, somente a confiança em nós mesmos poderá nos restituir a esperança de chegar a um bom porto”. Na base da confiança mútua, vamos inaugurando aqui este espaço para discussão de como os brasileiros podem alcançar a suas Cinco Estrelas que coroarão nossa Ciência.

domingo, 18 de janeiro de 2015

18 - A RAINHA DA NOITE



Passávamos os finais de semana perto do Rio Paranaíba, no Triângulo Mineiro. No pé da serra da Bocaina, a televisão em preto e branco funcionava com chuvisco, de modo que ela quase nunca era ligada. A mulher do Seu Geraldo, nosso peão de roça, sempre tinha música tocando no rádio. Eu preferia o canto dos pássaros, muitas vezes alvos dos estilingues dos moleques da fazenda. Naquelas caçadas com armadilhas feitas de bambu e arame, eu acompanhava os meninos não para ajudá-los, mas para desconcentrá-los na mira e, sorrateiramente, dar alguns passos atrás e desarmar as arapucas.

Eu amava a natureza e, criança, nunca senti falta de vídeo game, shopping centers e clubes. Não tinha predileção por nenhuma marca, nem desejo por viagens ao estrangeiro. Tudo o que eu precisava já estava ali naquele chão de barro vermelho, naquele ar com cheiro de mato, naquele céu infinito que fazia a minha alegria sem preço. E fui me descolando da cultura pop dos anos 1990, o que, em certo sentido, comprometeu o meu relacionamento com as garotas da adolescência. Mas esta pequena dificuldade, que adiou alguns prazeres, foi em muito compensada pelo prazer imediato que eu tinha em passear por aqueles campos gerais e pelas matas altas e úmidas.

Nessas idas à fazenda, meu pai saía a cavalo para inspecionar as cercas velhas da propriedade, porque algumas delas cediam a algum boi vizinho em busca das delícias da carne que estavam do nosso lado. Para chegar naqueles limites, era preciso atravessar extensa capoeira de feições atlânticas, a despeito do cerrado em redor. Acompanhava meu pai nessas expedições, mas eu insistia em ir a pé, por gostar de recolher umas pedras pra minha coleção de basaltos e cristais. No caminho, um rastro fundo e estreito cavado pelos cascos da criação, costumava fazer as mesmas perguntas sobre o nome das coisas, o que quase sempre não rendia resposta alguma. Às vezes meu pai dizia: basta olhar pras folhas; as miudinhas são de vinhático, as mais largas de jatobá; aquela ali é uma paineira e aquela outra, mais em baixo, uma aroeira.

No passeio seguinte eu perguntaria tudo de novo, porque a borda das folhas não era bem definida pela minha visão de Miguilim. Eu tentava identificar pela sua cor e forma geral aquelas plantas majestosas e, dependuradas em longos galhos e nos cipós enroscados, as pequenas flores. Foi com esse exercício que fui me tornando artista e não cientista: pelo sentimento da natureza e não pelo seu entendimento, já que meus olhos não eram tão apurados como devem ser os instrumentos da ciência. O sentir, passado certo tempo, leva ao compreender, mas isso eu só saberia depois.

Assim como meu pai me revelava o nome das plantas, das aves, dos peixes e de outros animaizinhos da selva da minha infância, Seu Geraldo me dizia das luzes da escuridão. Enquanto minha mãe fazia a janta no fogão de lenha, eu, meu irmão, e os muitos filhos e filhas do peão e de quem mais costumava aparecer por ali, gostávamos de brincar de pique esconde e pique pega, mas houve um dia em que decidimos não pegar uns aos outros, mas vagalumes. Eram muitos! Participei daquela agitação porque no final ninguém gostaria de comer aqueles bichinhos, cuja graça está em mantê-los vivos piscando verde, e não esmagados entre os dedos. Quem mais apanhasse os pontinhos fosforescentes que voavam baixo na grama molhada,  seria o vencedor da brincadeira, o dono da noite.

Passados vinte minutos, reuniram-se todos em círculo no meio do pátio entre o curral e o jardim. Stela, cândida menininha de uns nove anos, abriu lentamente suas delicadas mãos: saíram voando, sem pressa, em longas voltas desconfiadas, uns cento e sessenta vagalumes, ou mais. Eu, que só tinha apanhado seis, achei aquilo fantástico. Mais admirável era ver os insetos que iam subindo, subindo, subindo, uns acesos, outros se acendendo, tornando-se antigas estrelas. Os demais caçadores de luz, sem se importar com a competição em curso, abriram suas conchinhas feitas de dedos, acrescentando àquele balé mais integrantes que se transformariam em sóis milenares. Minha mãe já havia nos chamado para comer, mas não houve quem quisesse sair dali, apesar da fome. Era a vez em que inaugurávamos nosso olhar para o céu com a curiosidade da inocência, a curiosidade da ciência.



Seu Geraldo, que nos vigiava no meio do breu iluminado apenas por uma lâmpada amarela dependurada fora da casa, aproximou-se de nós, ainda de chapéu. Percebendo nosso maravilhamento, com o fumo enrolado na palha de milho queimando entre os dedos, apontou para o alto: aquele é o Cruzeiro do Sul; são oito e meia. Ninguém acreditou e todos se espantaram e riram, mas alguém correu pra dentro da sala para conferir o relógio e voltou dizendo é mesmo, são oito e meia! O peão da fazenda foi o primeiro astrônomo de quem tive notícia; tornou-se nosso guia sobre as esferas da noite e da manhã. Mesmo com a miopia, que me dificultava enxergar a estrela intrometida do Cruzeiro, deixei de colecionar pedras e passei a colecionar constelações. A algumas dei nomes que eu mesmo inventara; a mais brilhante delas chamei Stela, a Rainha da Noite, meu mais calmo amor ideal.